ASSINE

O que significa a derrubada de estátuas para a História?

Na Europa e nos EUA, monumentos de personagens históricos associados ao racismo e ao colonialismo foram arrancados, colocando em questão a permanência ou não desses símbolos

Publicado em 09/08/2020 às 06h00
Atualizado em 09/08/2020 às 06h00
O   prefeito de Richmond, Levar Stoney,   ordenou a remoção imediata de todas as   estátuas confederadas da cidade, após   semanas de protestos contra a   brutalidade policial e a injustiça   racial.
Nos EUA, o  prefeito de Richmond, Levar Stoney, ordenou a remoção imediata de todas as estátuas confederadas da cidade, após semanas de protestos contra a brutalidade policial e a injustiça racial. Crédito: Steve Helber/AP

As estátuas gritam

Pedro Ernesto Fagundes
É professor do Departamento de História da Ufes e vice-diretor da ANPUH/ES.

As recentes manifestações antirracistas, principalmente, nos EUA e na Europa, colocaram uma série de questões sobre as formas como a sociedade analisa seu passado. Nessa onda de indignação, a presença de monumentos de mercadores de escravos ou “conquistadores” em espaços públicos tornou-se alvo de debates e ações dos manifestantes.

Construir estátuas, confeccionar bandeiras, monumentos, enfim, um conjunto de símbolos, foi uma atividade comum ao longo da história. É preciso pontuar que esses vestígios servem para recontextualizar as controvérsias sobre o passado. Essa temática é bastante conhecida pelos historiadores que formularam, inclusive, o conceito de “lugares de memória”. Ou seja, nenhuma estátua “brota da terra”. Esses artefatos carregam uma intenção de lembrar e celebrar determinados fatos e personagens. Igualmente, todas os monumentos são “porta-vozes” de um discurso que colabora para o esquecimento de outros fatos históricos “incômodos”. Em momentos de ressignificação política esses lugares de memória tornam-se cenário de disputas políticas.

Nas últimas décadas argumentos favoráveis a retirada de estátuas foram comuns em países que superaram experiências autoritárias. Por exemplo, na Espanha, na Argentina, no Chile e, principalmente, em alguns países integrantes do extinto bloco soviético surgiram leis e movimentos que defendiam a retirada de monumentos que recordavam suas antigas ditaduras. Cidades mudaram de nome, estátuas e placas foram retiradas. Contudo, essas ações não impediram o ressurgimento, na atualidade, de ondas autoritárias na Rússia, Polônia e Hungria.

Pessoalmente sou contra a destruição do patrimônio público. Mas, como historiador, compreendo que até alguns anos atrás a “história oficial” reproduzia apenas uma versão europeia e branca dos acontecimentos. Fato espelhado na maioria dos monumentos de nossas cidades. A presença de tais estátuas é um tema que, como vimos, alimenta polêmicas.

Assim, como historiador penso que não existem respostas fáceis e simples para esse debate. Entretanto, me causa incômodo a relativização das discussões sobre esse passado opressor. Como exemplo cito o fato de vivermos num país em que existem centenas de escolas, ruas, praças com nomes de ex-dirigentes da ditadura militar. Situação que remete à frase do historiador Henry Rousso: “Existem mentiras gravadas no mármore e verdades perdidas para sempre”.

Mundo sem referências

Evelyn Opsommer
É professora de Relações Internacionais na UVV. Mestre em História pela Sorbonne Paris IV

Em 2001, talibãs afegãos mandaram demolir estátuas budistas gigantes construídas na Antiguidade, antes do Islã. Tudo em nome da releitura da história, querendo marcar um futuro, supostamente puro, sem aquele passado, supostamente sujo. O Ocidente, comovido, condenou a destruição histórica... Ora, o que ocorre no Ocidente agora é o mesmo fenômeno: uma população em fúria, acreditando-se em “luta” contra o racismo, querendo projetar um futuro idílico em que não há bandidos, nem polícia, e muito menos ganância, lucro e inveja, sai destruindo o que não seria “bonito” na história da civilização ocidental no afã de alcançar esse mundo ideal.

A História está de fato sujeita a discussões acadêmicas, ao confronto de ênfases; placas, esculturas, homenagens podem de fato ser ajustadas em função de contextos cambiantes dialogados. Entretanto, é preciso dizer primeiro que não se apaga a história, ela ocorreu de qualquer forma; segundo, a busca de histórias “perfeitas”, inexistentes, vai gerar frustrações coletivas.

Tomemos o exemplo de Cristóvão Colombo. Na Europa ibérica e nas Américas, estátuas de Colombo se impõem em sublimes praças em memória ao descobrimento do continente novo em 1492, mas o navegador está sendo derrubado por grupos radicais anti-capitalistas, acusado de estar na origem de um suposto etnocídio e da destruição de um mundo feliz em harmonia com a natureza.

Com tais simplificações, estão escondendo a história geográfica científica do nosso continente: a hipótese de que a terra era esférica já rondava os espíritos, e a coragem de navegadores dispostos a comprová-la deveria ser exaltada.

Ademais, estão ceifando a própria semente da qual brotaria nosso país: os navegadores a mando de Portugal sempre apostaram tudo ao longo do século XV na rota sul, ou seja, o contorno da África, lá em seu extremo sul, e depois virando para o leste para se chegar às Índias. Após aportar nas Antilhas (1492) – que Colombo pensou que fossem ilhas das tais Índias – e trazer essa notícia à Europa, espiões portugueses descobriram, através de cálculos de latitudes, que essas ilhas eram na verdade de direito de Portugal por estarem ao sul da linha Alcaçóvas-Toledo! Foi aí que a Espanha recorreu desesperadamente à arbitragem do papa que recomendou o Tratado de Tordesilhas (1494) dividindo o mundo entre ambos agora também em leste (para Portugal) e oeste (para a Espanha), uma linha que passa, se saberia depois, na embocadura do Amazonas e no litoral de Santa Catarina.

Não há dúvidas que foi por causa do descobrimento de Colombo que Portugal se interessou pelas terras novas do oeste, onde se encontra nosso Brasil. A história de nosso país começa em meio a rivalidades geopolíticas apaixonantes e conhecimentos científicos desvendados. Derrubar essa história é jogar no lixo a ciência e a civilização.

A Gazeta integra o

Saiba mais
Estados Unidos estados unidos União Europeia

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.