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Para seguir em frente, após terem a vida marcada por episódios de violência, mulheres se uniram
Para seguir em frente, após terem a vida marcada por episódios de violência, mulheres se uniram. Crédito: Amarildo/Geraldo Neto

Ciclo da violência: cinco mulheres denunciam agressões de um mesmo homem

Elas se uniram e montaram uma rede de apoio para seguirem em frente, já que o acusado foi preso por duas vezes em 2019, mas está em liberdade

Vitória
Publicado em 17/12/2020 às 05h00
Atualizado em 17/12/2020 às 05h00

Inicialmente encantador, mas, com o passar do tempo, demonstra comportamento possessivo e não sente empatia pela dor alheia. Esse é o perfil descrito por cinco mulheres, que afirmam terem sido vítimas de agressões - físicas, verbais e psicológicas - de um mesmo homem. Todas narram uma rotina de medo e fazem um alerta sobre o ciclo de violência, que vai desde a dependência financeira à tentativa de feminicídio.

Após romperem o relacionamento e descobrirem que outras mulheres viveram com ele o mesmo drama da violência, as vítimas contam que se uniram e montaram uma rede de apoio para seguirem em frente, já que o acusado foi preso por duas vezes em 2019, mas está em liberdade mediante alvará de soltura e permanece fazendo intimidações. Segundo relato delas, o homem, hoje com 47 anos, agiu da mesma forma, ao longo dos últimos 30 anos. 

A Gazeta teve acesso aos processos e ouviu as histórias dessas mulheres - quatro ex-companheiras e uma filha dele - que serão contadas no texto a seguir e no vídeo abaixo. O nome do acusado não está sendo divulgado a pedido da filha, que também não quer ser identificada. 

SOFIA: FAMÍLIA MARCADA PELA VIOLÊNCIA

Diferente das outras quatro mulheres entrevistadas nessa reportagem, que se relacionaram amorosamente com o acusado, a jovem de 29 anos, que será identificada com o nome fictício de Sofia, conta que sofreu com a violência doméstica sob uma perspectiva diferente: como filha de um agressor. Ela explica que há mais de 30 anos os pais tiveram um relacionamento conturbado, marcado por ciúmes, abusos e violência. 

"Minha mãe não tinha família quando conheceu o meu pai, em Minas Gerais. Ela era muito carente e teve uma vida bem sofrida. Eles ficaram juntos por dois anos, em uma relação extremamente tóxica, de muitas brigas, marcada por ciúmes de ambas as partes. Depois de dois anos, terminaram e minha mãe engravidou de mim achando que eles iriam reatar. Ele tinha 18 anos e ela, 25. Ele nunca assumiu a paternidade e começou a namorar outra pessoa. Minha mãe já tinha problemas psicológicos, mas com essa relação, ela piorou ainda mais", conta. 

A mãe de Sofia, que nessa reportagem será identificada como Clarice, passou a beber cada vez mais. Inconformada com o término e o abandono paterno, após um fim de semana ingerindo bebidas alcoólicas, ela chegou a ir na casa do ex com a filha - que na época tinha cerca de cinco anos - para chamar por ele. "Irritado, meu pai espancou minha mãe na minha frente, nunca esqueci a cena", diz Sofia, acrescentando que Clarice entrou então na Justiça para exigir pensão alimentícia. Foi quando o pai se mudou para Curitiba com outra mulher. 

"Era um horror. Tudo que minha mãe sofria, ela reproduzia em mim. Dizia que eu parecia com o meu pai. Apanhei muito na minha infância e cheguei a sofrer torturas ao ponto de desmaiar, ser amarrada, ter a cabeça raspada. Aos 14 anos, ela teve um surto e tentou matar tanto a mim quanto meu irmão, que tinha 7 anos. Conseguimos fugir e ela foi presa. Meu irmão, fruto de outra relação, passou a viver com o pai dele e eu cheguei a ficar um tempo com eles. Foi quando a família do meu pai, que mora em Vila Velha, entrou em contato. Ele ainda estava em Curitiba e eu passei a ficar com uma tia paterna, depois com minha avó paterna, até que meu pai voltou para o Espírito Santo. Aí o inferno começou de novo", relembra. 

Após passar pela casa de parentes, Sofia, que não conhecia o pai de perto, decidiu tentar morar com ele, aos 17 anos. Nessa época ele já estava em outro casamento. Ela relata que presenciou as diversas fases da relação abusiva: desde a violência financeira, às agressões verbais e psicológicas, que ele teria reproduzido não apenas contra a atual esposa, mas também contra a filha. Sofia diz que, após dois anos vivendo em meio a brigas e ameaças, decidiu ir morar sozinha. Mas enquanto a jovem conseguia avançar na carreira e contava suas conquistas, o pai tentava desmotivá-la, afirma.

Agressor em série: cinco vítimas de um mesmo homem narram rotina do medo
Como filha, Sofia conta que presenciou a mãe ser espancada pelo pai. Crédito: Amarildo/Geraldo Neto

"Eu conseguia um emprego melhor, ele desmerecia e dizia que eu deveria ficar no trabalho inferior. Colocava defeito em todas as minhas conquistas. Sabia que eu acordava cedo para o novo emprego e começava a riscar o vidro da janela do meu quarto, para que eu não descansasse. Me ligava de madrugada pedindo dinheiro, sempre com histórias mirabolantes. Quando casei, ele fez de tudo para que o melhor dia da minha vida fosse ruim, até inventou que meus familiares não iriam comparecer", conta Sofia. 

Sofia (nome fictício)

Filha do acusado

"Ele sente prazer em nos machucar e, quando foi preso pela Lei Maria da Penha, pensei que aprenderia algo com a prisão, mas saiu bem pior, fazendo outras vítimas. Ele nunca vai mudar"

REGINA: CÁRCERE PRIVADO DENTRO DA PRÓPRIA CASA

A agente de saúde Regina Lúcia Morato Menezes, de 44 anos, conheceu o pai do seu filho quando ela tinha apenas 16 anos e ele 20, em Minas Gerais. Ela conta que, logo no início da relação, o homem a fez acreditar que a ex mulher, a Clarice, era louca e ele era uma vítima. Segundo Regina, desde o início ela viveu uma relação abusiva, na qual o namorado a tentava impedir, inclusive, de estudar e trabalhar. Mas, como era muito nova e inexperiente, acabou naturalizando a violência.

"Ele estava sempre mentindo, mas tinha muita lábia para sair bem no final de toda história. Ele foi me afastando das pessoas, não queria que eu estudasse, me prendia demais e ficava agressivo quando contrariado. Mas ele era meu primeiro homem, eu não tinha experiência. Foram 11 anos vivendo dessa forma até que eu engravidei e fomos para Vila Velha, onde estava a família dele. Aí as coisas pioraram. Ele não queria assumir compromissos com a família, não queria trabalhar. Mas mesmo ele tentando me impedir, eu sempre trabalhei. Uma coisa que percebi é isso: ele recama do trabalho das mulheres, para colocar pra baixo, mas sempre procura vítimas trabalhadoras para tirar proveito", conta.

O filho de Regina, hoje com 18 anos, nasceu em Curitiba. Como a agente de saúde tem parentes na cidade paranaense, ela achava que no local poderia ter uma vida melhor, perto da família. Mas, segundo ela, a violência doméstica foi evoluindo. Além dos abusos financeiros, verbais e psicológicos, Regina conta que passou a sofrer violência física também, além de ser mantida trancada no quarto.

Regina Lúcia Morato Menezes

Agente de saúde

"Ele me agredia, me prendia e sempre me colocava para baixo. Eu cheguei a fazer alguns boletins de ocorrência, mas nunca dava prosseguimento porque eu não queria preocupar minha família e não queria que meu filho crescesse com o pai preso"

"Fiquei cerca de cinco anos anos sofrendo agressões físicas, até que eu decidi voltar com o meu filho para Minas, em 2007. Mas logo ele foi atrás e começou a me perseguir, me esperava na saída do trabalho. Fiz boletins de ocorrência e consegui uma medida protetiva, mas ele não respeitava. Como eu estava passando por dificuldades, minha sogra na época me convenceu que seria melhor meu filho ficar com a família paterna, em Vila Velha", conta Regina. 

Agressor em série: cinco vítimas de um mesmo homem narram rotina do medo
Regina diz que sofreu violência física, ameaças e foi mantida trancada em casa. Crédito: Amarildo/Geraldo Neto

Assim, o menino foi criado pela avó paterna desde os cinco anos. Quando o ex-marido de Regina começou a se envolver com outra mulher, ela conta que deixou de ser perseguida. Dois anos depois, quando já estava estabilizada financeiramente, a agente de saúde mudou-se para o Espírito Santo na tentativa de voltar a criar o filho. Mas o menino, que só foi registrado pelo pai aos 15 anos, já estava apegado à família paterna. Até hoje ela tem dificuldades de encontrar o jovem, pois o ex-marido proíbe a presença dela perto da casa do filho. 

"Quem o vê de longe acha supereducado, ele tem muita lábia, mas é maldoso, desequilibrado. Ele tem a habilidade de inverter a situação e te colocar como culpada. Nunca senti que tive justiça. Ele está solto, fazendo com outras mulheres o mesmo que fez comigo e agora ainda tenta me impedir de ver meu filho", afirma Regina.  

ANNE: LIBERDADE APÓS ACIONAR A LEI

A universitária Anne Caroline Pitt Jacobi, hoje com 45 anos, começou o relacionamento com o pai da filha dela em 2009, aos 34 anos. Ela conta que, no início, a relação era feliz e o namorado mostrava-se um homem carinhoso, simpático e muito inteligente. Mas com o tempo, o que parecia ser uma proteção, virou abuso. Anne relata que ele começou a tentar impedi-la de sair de casa, até mesmo para estudar e trabalhar, sempre com um argumento persuasivo de que seria melhor para ela.

"Se eu saía no portão de casa e algum vizinho me cumprimentava, ele falava que eu estava tendo um caso com a pessoa. Se eu comesse um salgado durante o curso, ele me cheirava e dizia que eu estava no bar com outros homens. Ele sempre fantasiava que estava sendo enganado", afirma Anne.

Anne Caroline Pitt Jacobi

Universitária e cuidadora

"Me xingava muito, quebrava tudo dentro de casa, gritava. Tinha um ciúme louco, como se eu fosse posse dele mesmo, como se ele tivesse entrado em um mercado e me comprado"

Em 2011, Anne engravidou e o relacionamento que já não era saudável, segundo ela, piorou. Anne afirma que, durante todo o tempo, passou por vários tipos de violência: psicológica, verbal e até financeira - pois era a única a assumir as despesas da família. 

"Eu dizia que ele podia quebrar a casa inteira, mas em mim ele não encostaria. Ainda assim, vivi violências tão dolorosas quanto. Até que em 2017 ele puxou a faca ameaçando a mim e a meu outro filho, que não era dele. Chamei a polícia, mas não fizeram ocorrência, só o colocaram para fora de casa. Ele não aceitou e continuou me perseguindo com ameaças. Meses depois, minha filha pediu a presença do pai no almoço de Natal. Eu deixei, mas assim que ele entrou, jogou uma lata de cerveja no chão e foi em minha direção, para me bater. Foi quando minha filha se meteu na frente, para impedir, com apenas sete anos", lembra.

Agressor em série: cinco vítimas de um mesmo homem narram rotina do medo
Anne conta que era proibida de estudar, trabalhar e ter contato com outras pessoas. Crédito: Amarildo/Geraldo Neto

Segundo Anne, depois desse dia, a filha passou a ter terror do pai e a universitária não permitiu mais que o ex frequentasse a casa. Ela relata que, nos dois anos seguintes, sofreu com perseguições e ameaças. Até que em novembro de 2019 o acusado teria tentado correr atrás do carro dela enquanto ela passava com a filha na rua. Após esse dia, a vítima decidiu pedir uma medida protetiva pela primeira vez.

"Por termos uma filha, eu sempre tentei resolver sem acionar a Lei. Mas eu vi que, no caso dele, não há diálogo, ele ia continuar me perseguindo. Eu fiquei reclusa por muito tempo. Por isso eu pedi a medida protetiva. Quando ele ameaça se aproximar ou me xinga, eu pego a medida. Isso o inibiu um pouco porque ele sabe que eu chamo a polícia mesmo e ele pode ser detido. Só depois eu soube de outras mulheres que foram violentadas por ele. Hoje, criamos uma rede de apoio para nós, como forma de proteção. Porque ele já mostrou que não vai parar nunca, infelizmente, só se ficar preso", lamenta. 

Anne, que é cuidadora de idosos, agora tenta retomar a vida. Estuda pedagogia e faz tratamento psicológico com a filha. Ela afirma que a Lei Maria da Penha, através da medida protetiva, lhe deu mais liberdade para seguir em frente sem medo, além do apoio psicológico, que afirma ser essencial.

ADRIANA: "ELE INVESTIGOU MINHA VIDA E MONTOU UM PERSONAGEM"

Ao ser impedido de chegar perto de Anne pela medida protetiva, o acusado aproximou-se da fisioterapeuta que cuidou dele e da ex-mulher em um acidente de moto: Adriana de Paula da Silva, hoje com 36 anos. Os dois iniciaram uma amizade.

"Ele começou a me enviar mensagens no início de 2018. Pesquisou os meus gostos, viu que eu gostava de moto, trilha, acampar. Ele investigou minha vida e montou um personagem com os mesmos gostos. Ele contou coisas, que hoje sei que são mentiras: disse que estava separado há quatro anos e que tinha estudado Marketing em Belo Horizonte. Ele contava detalhes dessas histórias como se fossem reais. De início, parecia um cara bacana e começamos a sair", conta.

Logo, os dois começaram a se relacionar. Foi quando Adriana afirma que conheceu o lado possessivo, ciumento e invasivo do namorado. "Para me afastar de outras pessoas e das atividades que fazia como fisioterapeuta e professora de dança, ele criticava cada oportunidade que eu recebia. Com muita lábia e poder de persuasão, ele me tratava muito bem após cada briga, como se fosse mudar. Mas depois voltava a me colocar para baixo, criticando as roupas, o cabelo e dizendo que gostava mais do meu corpo sem exercícios físicos. Ele também chegou a afirmar que eu deveria atender apenas mulheres nos trabalhos e praticou abusos sexuais, retirando a camisinha durante as relações, sem que eu percebesse", relata Adriana. 

Adriana de Paula da Silva

Fisioterapeuta

"Eu tentava conversar, ele fingia que ia mudar e depois voltava tudo de novo. Após três meses, terminei. Aí o inferno começou. Ele me perseguia, dizendo: 'não acabou'. Se escondia em terreno baldio e ia atrás de mim na saída do trabalho"

Adriana conta que pediu medida protetiva e pensou que, assim, ele se afastaria. "Mas ele procurou o pastor da minha igreja, inventou que eu estava grávida e que iríamos nos casar. Um dia o pastor começou a conversar sobre o tal casamento e o meu ex agia como se fosse verdade, dizia: 'ela tem uma personalidade difícil, mas estou disposto'. Fiquei assustada e contei à todos que era mentira. Ele jogava Bíblia e pedra na minha porta, me xingava, xingava minha mãe, dizia que ela fez minha cabeça para que eu terminasse o namoro", relata. 

Foi nesse momento que Adriana investigou os processos que o ex respondia e conseguiu contato com Sofia, Regina e Anne. Ao perceber que o acusado não deixaria de procurá-la, ela acionou a polícia e ele foi preso no dia 27 de novembro de 2019 por descumprir a medida protetiva. Porém, conseguiu pagar a fiança e saiu da cadeia dias depois. Ele deixou de procurá-la diretamente, mas a fisioterapeuta  afirma que passou a receber ameaças veladas.

Agressor em série: cinco vítimas de um mesmo homem narram rotina do medo
Adriana diz que passou a ser perseguida e ameaçada após colocar fim na relação. Crédito: Amarildo/Geraldo Neto

"Ele já me enviou vídeos de relações sexuais com outras mulheres, que provavelmente nem sabem que estão sendo filmadas, dizendo que já me esqueceu. Ele bebe uma marca específica de cerveja e faz marcações nas latas. Sempre o vi fazer essas marcas. Até hoje às vezes aparece na minha porta uma lata dessa cerveja, com as marcas que ele faz. Ele tem fixação com fita isolante. Eu nunca entendi isso. Às vezes aparecem flores na minha porta, presas por essas fitas. Sem contar que ele confecciona placas, chegou a fazer uma para meu estabelecimento, e esses dias acordei com a placa borrada com algum produto que tira a tinta. É difícil provar, mas eu sei que é ele. Ele passa na minha porta com as novas namoradas e de longe fala, sussurrando: 'não acabou'".

Adriana conta que precisou passar por um processo de apoio psicológico e familiar, autocuidado e fé para conseguir superar o trauma da relação. Hoje, tenta ajudar outras mulheres que passam pelo mesma situação e planeja publicar um livro. 

JANE: AGREDIDA, FILMADA E JOGADA NA RUA 

O processo mais recente respondido pelo acusado é por agressões à cabeleireira Jane Mesquita Falcão, de 47 anos. Ela teve o primeiro contato com ele ainda muito jovem, aos 19 anos. Os dois tinham a mesma idade quando se conheceram em Belo Horizonte (MG) e começaram a namorar. Após dois meses, ela engravidou. Mas ao contar a notícia ao namorado, o jovem, que parecia ser carinhoso e protetor, mostrou uma personalidade agressiva, afirma Jane. "Ele brigou porque fui a uma festa aniversário sem ele, me empurrou e disse que estava com outra pessoa. Após fazer exames e ter certeza da gravidez, voltei a procurá-lo, mas ele já havia mudado de endereço".

"Vivi sozinha um dos momentos mais difíceis da minha vida. Criei meu filho sem ajuda e anos depois casei de novo. Após sete anos de casamento, em 2014, me separei. Foi quando decidi voltar a procurar o pai do meu filho, achava que ele tinha direito de saber quem era o pai e ser registrado. Após quatro anos de procura, o localizei no Espírito Santo. Com ajuda de familiares dele, telefonei e ele ficou surpreso com o contato quase 30 anos depois. Começamos a trocar mensagens em 2018 e logo ele me convidou para morar com ele e retomar nossa história. Não aceitei de imediato, passamos meses conversando e eu acabei me envolvendo", lembra.

No início das conversas, o acusado ainda estava em outra relação. Mas, assim que terminou, intensificou o contato com Jane. Só depois disso, ela contou sobre o filho do casal e o pai do jovem se mostrou empolgado, afirmando que queria constituir uma família com eles. Após meses de insistência, a cabeleireira aceitou mudar-se para Vila Velha. A mudança já estava programada, mas o namorado parou de respondê-la. Foi quando Jane conseguiu contato com um familiar dele, que teria mentindo, dizendo que ele havia sido preso por engano, no lugar de um homônimo. Na verdade, o acusado estava preso por descumprir uma medida protetiva contra Adriana. 

"Sou evangélica. Eu tinha uma ilusão de que eu só seria feliz com o pai do meu filho. Acreditei naquela história. A família dele me pediu ajuda para pagar a fiança, vendi minha moto por um valor bem abaixo do mercado e enviei o dinheiro para eles, que prometeram me devolver. Depois, mudei para a casa da família dele, em Vila Velha, no dia 10 de dezembro de 2019. Nesse tempo, comecei a descobrir algumas mentiras contadas para proteger o agressor. Ele foi solto no dia 18 de dezembro e eu comecei a observá-lo. Percebi que ele fazia questão de passar em frente à casa e ao trabalho da ex (Adriana, que tem medida protetiva). Ele fazia xingamentos racistas contra ela e aquilo tudo me incomodava muito. Assim que ele chegou, eu fiz uma compra de R$ 800 para nossa nova casa. Ele observou minha senha e guardou meu cartão no bolso dele", relata.

Jane também diz que, em pouco tempo, notou que o namorado era muito ciumento. "Implicava com as minhas roupas e me impedia, inclusive, de usar maquiagem, dizendo que eu ficava feia. Quando a gente saía, somente eu arcava com as despesas, intensificando cada vez mais a violência financeira. Logo arrumei um emprego como camareira em uma pousada, mas percebi que ele não procurava trabalho para me ajudar e me controlava, levando e buscando no emprego", afirma.

Com o tempo, Jane diz que foi descobrindo as antigas relações do agressor e entendo o histórico dele. Conta que, quando o confrontou por desrespeitar as medidas protetivas contra as outras mulheres, foi xingada e humilhada por ele.

"Tudo aconteceu em cerca de 20 dias. Eu vi que aquilo não era legal e comecei a procurar uma kitnet para sair da casa dele. Mas ele descobriu e tudo piorou. Ele me trancava enquanto eu estava dormindo, depois chegava de madrugada e gritava que eu que tinha me trancado. Passou a fiscalizar meu celular, apagando mensagens e contatos para que eu não pudesse pedir ajuda. Até que no réveillon eu cheguei do trabalho cansada e ele já estava bêbado. Tomei meu remédio para dormir e ele começou a me humilhar, dizendo que eu ia embora com a roupa do corpo. Eu fiquei tão nervosa que bebi três cervejas. Mas eu nunca bebo, logo me senti mal e fui dormir. Quando acordei, ele estava em cima de mim com uma faca", relata. 

"Eu acordei ainda grogue, ele saiu de cima de mim, jogou a faca do meu lado e começou a me filmar, dizendo que eu tinha me mutilado. Ele falava: O que você fez, Jane? Eu olhei em volta e vi a casa toda suja de sangue. Levantei, ainda tonta, e tentei fugir. Mas ele me puxou, me deu um murro no rosto e me empurrou da escada. Eu caí lá embaixo, perto do portão, enquanto ele descia as escadas com olhar de ódio", relata a vítima.

Jane Mesquita Falcão

Cabeleireira

"Eu nunca vou esquecer esse olhar. Naquele momento eu tinha certeza que ele me mataria. Não sei de onde tirei forças e comecei a gritar muito por socorro. As pessoas que estavam na rua ouviram. Então ele abriu o portão e literalmente me chutou para fora. Eu estava toda machucada e só conseguia chorar "

Depois, o ex de Jane saiu de casa, com o sangue dela nas mãos, a filmou e disse para os vizinhos que ela era usuária de drogas, que estava em um surto e que havia se mutilado. A reportagem teve acesso ao vídeo, que mostra Jane caída no chão, chorando muito, sem conseguir rebater as acusações do agressor. Assustadas, as testemunhas parecem acreditar na versão dele, que mostrava o sangue na mão dizendo que a vítima tentou matá-lo. Esses vídeos foram enviados para vários familiares. Machucada, Jane saiu perambulando pela rua, chorando e descalça, até que duas mulheres finalmente a ajudaram.

A vítima registrou um boletim de ocorrência, passou por exames e o agressor acabou preso. Sozinha no Espírito Santo e com medo do ex, que saiu da prisão cerca de 20 dias depois, voltando a ameaçá-la, ela decidiu retornar para Minas Gerais. Ainda muito abalada, a cabeleireira busca tratamento psicológico e conta com o apoio das outras vítimas do acusado de agressão para seguir em frente. 

Agressor em série: cinco vítimas de um mesmo homem narram rotina do medo
Jane procurou a polícia para denunciar violência. Crédito: Amarildo/Geraldo Neto

ENTENDA POR QUE O ACUSADO ESTÁ EM LIBERDADE

Mesmo com o histórico de acusações por agressão, o suspeito está solto e, segundo as vítimas, permanece fazendo intimidações. Em 17 de novembro de 2019 ele foi preso por descumprir uma medida protetiva contra Adriana, ficando detido por 20 dias. Na decisão de soltura, expedida no dia 17 de dezembro e disponível no site do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), a Justiça afirmou que o requerido foi preso preventivamente e que foi constatado que várias medidas cautelares poderiam ser impostas como alternativa ao encarceramento.

"Logo, considerando que a prisão é a exceção e a liberdade é a regra e ainda, com o advento da Lei 12.403/11, entendo não ser mais necessária a custódia do requerido. Ademais, ainda que à época do decreto prisional tenha sido necessário uma reação enérgica das Autoridades visando a garantia da ordem pública, na tentativa de evitar que o requerido voltasse a atentar contra a integridade da vítima, no atual contexto fático, não se mostram mais presentes os requisitos necessários para a manutenção da custódia cautelar do requerido", disse a decisão.

Por fim, a prisão preventiva do acusado foi revogada e o alvará de soltura foi expedido. A decisão ainda informa que o requerido poderia voltar a ser preso caso descumprisse a medida novamente. Já na segunda prisão, por agredir, torturar e filmar Jane em 31 de dezembro de 2019, o acusado ficou detido por mais 20 dias, sendo solto em seguida. 

Na decisão, a Justiça afirmou que "considerando que o requerido não possui recursos para prestar a fiança arbitrada, e que ainda não foi ajuizada a ação penal no tocante ao fato retratado nos autos do inquérito policial em apreço, acolho o pedido da defesa do acusado e a promoção ministerial, para restituir a liberdade ao pleiteada sem pagamento de fiança", disse. 

O texto ainda completa a necessidade de manutenção do cumprimento das medidas protetivas de urgência, que incluem: proibição de se aproximar da vítima, devendo permanecer distante a mil metros; proibição de manter ou travar qualquer tipo de contato com a vítima; proibição de possuir qualquer tipo de arma; proibição de ingerir bebida alcoólica, usar drogas e frequentar bares; proibição de se afastar por mais de 8 dias ou mudar de endereço sem aviso prévio; obrigação de permanecer em casa das 22h30 às 5h do dia seguinte; entre outros. 

A reportagem procurou o Tribunal de Justiça do Espírito Santo para mais detalhes sobre as motivações da soltura do agressor nos dois casos, mas o TJES respondeu, por nota, que não se manifesta sobre processos em tramitação.

OUTRO LADO

O acusado também foi procurado pela reportagem para que pudesse dar a versão sobre os processos e negou ter praticado qualquer tipo de violência contra as ex-mulheres ao longo dos últimos 30 anos. Ele afirmou que todas as acusações são falsas e que todas as supostas agressões foram forjadas por elas em um plano de vingança. 

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