Os investimentos bilionários previstos para o Espírito Santo, como a instalação da fábrica da montadora chinesa Great Wall Motor (GWM) em Aracruz e a implantação de novos complexos portuários no Norte e no Sul do Estado, devem abrir um novo ciclo de expansão do mercado imobiliário capixaba. A avaliação foi feita nesta quarta-feira (8), durante o painel "Taxa de juros: para onde vai a economia?", evento do projeto Diálogos promovido por A Gazeta na Feira ES Construção.
Embora o debate tenha sido centrado nos impactos da taxa básica de juros, o consenso entre os participantes foi de que os grandes projetos industriais previstos para os próximos anos têm potencial para compensar parte dos efeitos negativos do crédito caro.
Para o presidente da Ademi-ES, Alexandre Schubert, Aracruz já aparece como o principal polo dessa transformação, mas o Sul do Estado deve seguir o mesmo caminho com o avanço do Porto Central.
"Aracruz deve ser a bola da vez nos próximos anos", afirmou. Segundo ele, a chegada da GWM exigirá não apenas novas moradias, mas também uma ampla estrutura de apoio para fornecedores e empresas que orbitam grandes plantas industriais.
Schubert ressaltou que experiências de outras montadoras mostram que o entorno das fábricas costuma concentrar muito mais atividade econômica do que a própria operação principal. "Esses negócios satélites normalmente significam 70% a mais de área do que a operação-mãe", explicou.
Na avaliação dele, essa dinâmica deve impulsionar principalmente condomínios logísticos, galpões industriais e empreendimentos comerciais, além do mercado residencial.
Alexandre também alertou que os municípios precisam se preparar rapidamente para receber essa nova demanda. De acordo com ele, cidades como Aracruz e Presidente Kennedy terão de revisar planos diretores, agilizar licenciamentos e combater a especulação imobiliária para evitar que o aumento do preço dos terrenos inviabilize novos investimentos.
Portos devem atrair novas indústrias
Durante o painel, Schubert afirmou que os novos portos não devem funcionar apenas como estruturas de movimentação de cargas, mas também como polos industriais capazes de atrair fábricas e empresas fornecedoras.
Esses portos não vão ser operações só de transporte. Muito provavelmente vão significar a implantação de inúmeras unidades fabris dentro dessas áreas portuárias e no entorno
Alexandre Schubert Presidente da Ademi-ES
Na mediação do debate, o colunista de Economia e Negócios de A Gazeta, Abdo Filho, destacou que tanto o porto de Aracruz quanto o Porto Central nascerão com características voltadas para se tornarem hubs logísticos nacionais e até continentais, ampliando a capacidade de atração de empresas.
Juros altos ainda preocupam
Apesar do cenário positivo para o Estado, Schubert avalia que a taxa de juros continuará sendo um dos principais desafios para o setor imobiliário. Para ele, o financiamento é "a engrenagem" do mercado e, com o custo do capital elevado, muitos projetos deixam de ser viáveis economicamente.
Para o economista Felipe Storch, o cenário macroeconômico ainda deve permanecer desafiador. Ele afirmou que o país deve continuar convivendo com crescimento econômico modesto, inflação resistente e juros elevados por mais tempo do que o mercado esperava.
Na avaliação do economista, mesmo em um cenário bastante favorável, a Selic dificilmente retornaria ao patamar de um dígito antes do fim de 2027, sendo mais provável permanecer acima desse nível. Entre os fatores que dificultam a queda dos juros estão o desequilíbrio fiscal e a piora das expectativas de inflação.
Mercado resiste graças ao emprego e ao crédito subsidiado
Mesmo com a Selic elevada, Storch explicou que o mercado imobiliário continua aquecido porque diferentes segmentos reagem de maneiras distintas ao custo do crédito.
Segundo ele, o programa Minha Casa, Minha Vida sustenta boa parte da demanda popular por meio de financiamentos subsidiados, enquanto compradores de imóveis de alto padrão dependem menos de crédito. Já a classe média, segundo o economista, é a faixa que mais sente os efeitos dos juros elevados.
Além disso, fatores como o baixo desemprego, o aumento da renda das famílias e mudanças demográficas, como o envelhecimento da população, continuam sustentando a procura por imóveis.
Para Storch, embora o ambiente econômico siga desafiador, o Espírito Santo reúne condições para aproveitar uma nova onda de investimentos produtivos. "Olhando para a economia, a gente precisa construir cenários e se preparar para esses futuros que podem acontecer", concluiu.