A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora da saúde pública nos Estados Unidos, aprovou nesta quarta-feira (26) um novo medicamento para o câncer de pâncreas avançado, inaugurando uma nova era no tratamento de uma doença que há muito tempo é considerada uma das mais desesperadoras da medicina.
O tratamento, desenvolvido para atingir diretamente alterações da família de genes RAS, especialmente frequentes nesse tipo de tumor, conseguiu prolongar de forma significativa o tempo de controle da doença e a sobrevida dos participantes do estudo.
O medicamento, tomado na forma de dois comprimidos por dia, é o primeiro de seu tipo e causou grande entusiasmo entre especialistas em câncer. Não é uma cura, mas é o primeiro tratamento a prolongar de maneira substancial a vida de pacientes com câncer de pâncreas.
Para o oncologista Luiz Gustavo Sueth Berriel, do Hospital Meridional, o resultado é particularmente relevante porque o câncer de pâncreas está entre os tumores mais agressivos e de difícil tratamento. “Em muitos casos, o diagnóstico acontece em estágios avançados, quando a cirurgia já não é possível ou quando a doença se espalhou para outros órgãos”.
Além disso, as opções terapêuticas ainda são limitadas. Embora a quimioterapia possa controlar a doença, esse efeito nem sempre é duradouro. Com o tempo, as células tumorais podem desenvolver resistência aos medicamentos e voltar a crescer. É nesse cenário que a nova droga, chamada Daraxonrasibe, anti-RAS ganhou destaque.
A Daraxonrasibe é uma droga de terapia-alvo, desenvolvida para atuar sobre uma alteração molecular relacionada ao crescimento de células cancerígenas. Diferentemente da quimioterapia tradicional, que atua de maneira mais ampla sobre células que se multiplicam rapidamente, o novo medicamento busca interferir em um mecanismo específico utilizado pelo tumor para continuar crescendo.
O alvo é a família de genes RAS, que participa da comunicação entre as células e regula diversos processos do organismo. Em determinados tipos de câncer, porém, mutações fazem com que esse mecanismo permaneça constantemente ativado.
“Na prática, é como se um interruptor responsável por enviar sinais de crescimento ficasse permanentemente ligado. O gene fica ativado o tempo todo, mandando comandos para que a célula continue se multiplicando. É como um interruptor de liga e desliga que permanece sempre ligado”, explica o especialista.
O câncer de pâncreas é um dos tumores em que alterações nessa via molecular são particularmente importantes, o que transformou o RAS em um dos principais alvos das pesquisas na área de oncologia.
A principal diferença está justamente no mecanismo de ação. A quimioterapia convencional combate o câncer por diferentes caminhos e pode atingir células que estão em processo de multiplicação.
A nova droga foi desenvolvida para bloquear uma via molecular específica utilizada pelas células tumorais
Luiz Gustavo Sueth Berriel Oncologista
Durante anos, pesquisadores tentaram encontrar maneiras de interferir diretamente na atuação do RAS. O desafio era que, mesmo quando uma determinada rota era bloqueada, as células cancerígenas conseguiam encontrar caminhos alternativos para continuar crescendo.
Com a nova abordagem, os resultados apresentados indicaram um bloqueio mais eficiente dessa via em pacientes selecionados. “Já havia muitas tentativas de bloquear esse mecanismo, mas o tumor encontrava outras formas de escapar. Essa medicação atua por uma nova via, e os resultados mostraram um impacto muito expressivo”, afirma o oncologista.
Essa característica também ajuda a explicar por que o medicamento é considerado uma terapia-alvo. Para que o paciente possa receber o tratamento, é necessário identificar, por meio de exames específicos, se o tumor apresenta a alteração molecular que pode responder à droga.
A nova medicação atua dentro do mecanismo que mantém as células tumorais em constante crescimento. Ao bloquear a atividade relacionada à mutação da família RAS, a droga interrompe ou reduz os sinais que estimulam a multiplicação do câncer.
O objetivo, portanto, não é simplesmente atacar indiscriminadamente as células que se dividem rapidamente, como ocorre com diferentes tipos de quimioterapia. A estratégia é atingir uma vulnerabilidade específica do tumor.
Essa abordagem faz parte do avanço da chamada oncologia de precisão, em que as características genéticas e moleculares do câncer ajudam a definir quais tratamentos podem trazer melhores resultados para cada paciente.
No estudo apresentado, a droga foi avaliada em pacientes com câncer de pâncreas avançado, sem possibilidade de tratamento curativo. Eram casos em que o tumor não podia ser removido por cirurgia ou já havia apresentado metástases, além de pacientes que haviam recebido outros tratamentos.
Mesmo assim, os resultados mostraram um ganho expressivo no tempo de controle da doença e na sobrevida dos participantes. Segundo o especialista, o risco de morte pela doença foi reduzido em quase 60%, com um prolongamento que chegou a dobrar o tempo de vida observado nesse grupo de pacientes.
“Ainda não estamos falando em cura. A doença pode voltar a progredir, mas o ganho de tempo é extremamente importante. Na oncologia, cada nova arma que surge vai se somando às anteriores e ampliando as possibilidades de tratamento”, afirma.
Ainda não há previsão para que o medicamento seja disponibilizado no Brasil. Isso porque a droga continua em fase de desenvolvimento e os resultados que despertaram atenção foram apresentados recentemente em um estudo clínico. O medicamento ainda não está disponível comercialmente nem nos Estados Unidos ou na Europa.