Cuidados paliativos são uma abordagem médica e multiprofissional focada em proporcionar qualidade de vida, alívio do sofrimento e dignidade para pessoas que enfrentam doenças graves ou que ameaçam a continuidade da vida.
Ao contrário do que muitos pensam, eles não se limitam à fase final da vida nem significam "desistir do tratamento". Eles atuam no controle rigoroso de sintomas físicos (como dor, falta de ar, náuseas e cansaço) e oferecem suporte emocional, social e espiritual ao paciente e à sua família.
No Brasil, estima-se que cerca de 625 mil pessoas precisem de cuidados paliativos. Em maio de 2024, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos (Portaria GM/MS nº 3.681/2024), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), para ampliar o acesso a essa assistência. Em janeiro de 2026, a Portaria GM/MS nº 10.181 atualizou as regras da política, incluindo critérios para habilitação das equipes e diretrizes para a oferta do cuidado em diferentes pontos da rede de saúde, com foco no alívio do sofrimento, na qualidade de vida e no acolhimento também de familiares e cuidadores.
O geriatra Filipe Gusman, da Casa de Saúde São José, explica que os cuidados paliativos são um conjunto de ações, medicamentosas ou não, que visam a prevenção e o alívio dos mais diversos tipos de sofrimento, desde dor, falta de ar e náuseas até a ansiedade, depressão e o medo de morrer. Sintomas que, inclusive, podem acometer tanto os pacientes quanto os familiares.
“Além de escolher as melhores ações, o cuidado paliativo auxilia a família e o paciente a tomar decisões complexas, como, por exemplo, se submeter ou não a procedimentos invasivos”, completa. Buscando devolver a dignidade ao paciente e combater o sofrimento, a paliação vai privilegiar sempre o bem-estar e o alinhamento com os valores do indivíduo. Muitas vezes, por isso, a melhor decisão para o paciente e os familiares pode envolver não seguir com um procedimento invasivo.
A dor é uma das queixas mais frequentes em pacientes acompanhados pela especialidade. Como explica Filipe, “o câncer é, sem dúvida alguma, a doença mais atrelada à dores de forte intensidade, especialmente em fases mais avançadas. O cuidado paliativo, no entanto, entende que a dor não é somente provocada por um tumor, mas reconhece que as emoções, a espiritualidade e o sofrimento social do paciente potencializam e perpetuam essa dor, tornando o tratamento ainda mais complexo”.
Mais que uma resposta biológica, a dor é encarada pela abordagem paliativa como uma experiência complexa influenciada por dimensões como emoções, angústias espirituais e sofrimento social. É dessa forma que os profissionais buscam entender a origem definitiva dos mais diversos tipos de dor. A escala numérica de 0 a 10 (onde 10 representa a dor mais forte imaginável), por exemplo, é uma das técnicas mais utilizadas pelas equipes para investigar essa origem. Para pacientes com alguma incapacidade na comunicação, no entanto, as equipes devem se adaptar para conseguir também comunicar-se, seja por meio de sinais corporais simples, códigos de respostas ou até tecnologias adaptadas.
Já o arsenal terapêutico para combater o desconforto deve ser adaptado a cada necessidade. Podem ser recomendados desde analgésicos simples, como dipirona e paracetamol, até opióides potentes, como a morfina e seus derivados. “É importante lembrar que a morfina é um remédio excelente quando bem aplicado. Infelizmente, ainda existe um mito de que só se faz uso de uma medicação deste tipo quando os pacientes estão morrendo. O que não é verdade”, afirma Filipe Gusman.