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Longevidade da pele

De lasers a peptídeos: os tratamentos para a pele apresentados em Harvard

Médicas trazem novidades em medicina regenerativa, peptídeos de cobre e lasers de última geração, destacando por que o equilíbrio do estilo de vida é a chave para o sucesso dos tratamentos

Publicado em 30 de Outubro de 2026 às 16:12

Guilherme Sillva

Publicado em 

30 out 2026 às 16:12
Laser na pele
 O evento reúne pesquisadores e especialistas mundiais em lasers e tecnologias aplicadas à Dermatologia shutterstock

Em meados de outubro, dermatologistas do Espírito Santo participaram do ‘Laser e Aesthetic Skin Therapy: What’s the Truth?’, curso promovido pela Harvard Medical School, em Boston (EUA). O evento reúne alguns dos principais pesquisadores e especialistas mundiais em lasers e tecnologias aplicadas à Dermatologia.


O curso acontece há 20 anos e recebe médicos de vários países em um ambiente voltado à discussão científica de tecnologias. O foco está no que realmente possui eficácia comprovada por estudos, no que está em fase de pesquisas promissores e no que ainda precisa ser investigado. "O grande diferencial deste curso é separar o que é verdadeiro, com evidência científica e que merece entrar na prática do consultório, do que é apenas marketing e hype da internet sem resultados reais", conta a dermatologista Giane Giro.


Dermatologistas que atuam no estado e estiveram no evento contam que, além das aulas sobre tecnologias, os avanços gerais na área estética para rejuvenescimento facial e corporal, os tratamentos capilares e a ciência da longevidade também fizeram parte da programação.

Laser para acne

Durante o evento, foi apresentado o laser para acne que atua nas glândulas sebáceas. A dermatologista Giane Giro explica que o grupo do doutor Rox Anderson — professor de Dermatologia na Harvard Medical School e o nome mais importante da atualidade quando o assunto é laser na Dermatologia — identificou que o sebo apresenta alta absorção de energia no comprimento de onda de 1.726 nm, permitindo atingir seletivamente as glândulas sebáceas. Essa descoberta possibilitou o desenvolvimento de lasers para o tratamento da acne com ação localizada e sem os efeitos sistêmicos da isotretinoína.


"Diferentemente de outras tecnologias utilizadas para tratar acne, que agem principalmente na inflamação ou de maneira indireta, esse comprimento de onda apresenta absorção seletiva pelos lipídios presentes no sebo", diz a dermatologista. 

Os estudos apresentados demonstram resultados bastante promissores, especialmente na redução de lesões inflamatórias, com taxas de melhora significativas. A proposta é oferecer um tratamento capaz de proporcionar um controle mais prolongado da acne, reduzindo a dependência de tratamentos contínuos, embora não represente uma cura definitiva. Os aparelhos já estão disponíveis na Europa e Ásia, além de países da América do Norte e Central, mas ainda não temos previsão para chegada ao Brasil.

A dermatologista relata que o curso abordou muitos temas interessantes em diversas áreas, reunindo tecnologias, injetáveis, medicina regenerativa e inteligência artificial. Um dos destaques foi o laser de fibra óptica de 2.910 nanômetros, uma nova tecnologia ablativa para rejuvenescimento. "Ele mostrou resultados interessantes para a melhora das rugas e da textura da pele, promovendo contração e remodelamento do colágeno. É um laser ablativo a frio que trata a pele de maneira fracionada, removendo a camada mais superficial; no entanto, é menos agressivo e provoca menos dor em relação ao laser de CO2", destaca a médica.

Essa tecnologia está presente no aparelho UltraClear, que já está em processo de liberação pela Anvisa e deve chegar ao Brasil em breve. Ele conta com a função de microcoring, que remove microcolunas de pele para a melhora dos sinais de flacidez.

Outro destaque fica para o tratamento da alopecia androgenética, a calvície. "Além dos lasers de baixa intensidade, que podem ter uso domiciliar, foram mostradas as evidências científicas dos lasers de maior energia, utilizados no tratamento em consultório. Eles podem estimular mecanismos de regeneração do folículo piloso e potencializar os resultados quando associados a tratamentos medicamentosos e ao microagulhamento", conta Giane.

Além disso, novas moléculas estão em estudo para a melhora da densidade dos fios. Uma delas é a PP405 — ainda em fase experimental —, que pode recuperar folículos 'dormentes' e estimular o crescimento de novos fios.
Giane Giro
Giane Giro fala sobre os destaques do congresso em Havard Divulgação
A estimulação muscular como uma abordagem no rejuvenescimento foi outro destaque. Tratar a flacidez vai além de estimular o colágeno, é importante considerar também a musculatura

Giane Giro Dermatologista

Nas aulas, também foram apresentados estudos sobre as tecnologias de estimulação muscular, como a HIFES associada à radiofrequência, tecnologia que já temos no Brasil com o Emface. "Essa tecnologia é capaz de promover uma redistribuição de volume facial, pelo reposicionamento das estruturas, contribuindo para a definição do contorno facial. Nos pacientes que passaram por processo de emagrecimento, os tratamentos para estímulo muscular são especialmente importantes, tanto na face quanto no corpo", conta a médica.


Giane conta que outro tema interessante foi a fotobiomodulação, apresentada pelo doutor Rox Anderson. "Esse tratamento utiliza um tipo de laser de baixa intensidade para estimular processos biológicos nas células. A luz atua sobre as mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia celular. Entre os benefícios apresentados estão a melhora da regeneração dos tecidos, o estímulo ao crescimento capilar e o alívio da dor", destaca.


No bloco de longevidade e saúde da pele, os médicos viram a importância de uma Dermatologia cada vez mais integrativa, que não se limita a tratar rugas, manchas e flacidez, mas considera também a saúde metabólica, hormonal e celular do paciente. "O foco deixa de ser apenas a aparência de uma pele mais jovem e passa a incluir a longevidade cutânea, buscando preservar a função e a capacidade de regeneração da pele ao longo dos anos, como um reflexo da saúde do organismo".

Das pálpebras ao melasma
Outro tema abordado foi o laser não ablativo para o tratamento de lesões cancerígenas. A dermatologista Isabella Redighieri explica que são lasers que tratam a pele sem remover a camada superficial. "Eles são usados principalmente para rejuvenescimento, mas os trabalhos mostram que nas lesões pré-cancerígenas, como as ceratoses actínicas, e no chamado 'campo de cancerização' — aquela pele com muito dano solar acumulado —, o laser pode reprogramar como essas células vão evoluir. O tratamento ajuda a renovar essa área e a reduzir o risco de novas lesões. É importante reforçar que o câncer de pele já estabelecido continua sendo tratado com os métodos clássicos, como a cirurgia", diz a médica.

Já para as pálpebras inferiores, o tratamento é diferente. A dermatologista explica que a pele da pálpebra é a mais fina do corpo, por isso exige parâmetros e tecnologias específicas. "Na pálpebra inferior, o problema costuma ser uma combinação de flacidez, textura, olheira e bolsa de gordura. Cada um desses componentes pede uma abordagem diferente: laser fracionado, radiofrequência, ultrassom microfocado, ativos bioregeneradores e, às vezes, cirurgia", diz Isabella. Para ela, os melhores resultados são obtidos com tratamentos combinados.

O melasma é uma condição cutânea crônica e comum, caracterizada pelo surgimento de manchas escuras ou acastanhadas na pele, principalmente no rosto. A condição não tem cura, mas os tratamentos estão a cada ano mais avançados. "O melasma é uma doença crônica, que se controla, mas não se cura. O que funciona é a combinação de medidas como o uso de protetor solar com cor, que protege também da luz visível; clareadores tópicos; e ácido tranexâmico, em alguns casos por via oral e sempre com acompanhamento médico", destaca a especialista.

Isabella reforça que o tratamento com laser ajuda, mas com muita cautela. "Laser agressivo costuma piorar o melasma. É importante tratar o microambiente e é fundamental restaurar a barreira cutânea. E tratar não somente o pigmento, mas a micro inflamação e a vascularização local".
Isabella Redighieri, dermatologista
Isabella Redighieri fala sobre os destaques do congresso em Havard Divulgação
O que mais me marcou foi a mudança de foco: menos 'qual aparelho é o melhor' e mais 'qual combinação é a certa para cada pele'. Mais uma vez foi reforçada a diminuição dos excessos

Isabella Redighieri Dermatologista

A médica diz que a proposta vale até para a produção de colágeno: o excesso de estímulo em uma pele que não está pronta para recebê-lo pode ser em vão. "A regeneração está mais em alta do que nunca. Pense na pele como um solo. Se esse terreno não estiver fértil, o plantio não funciona. Assim funciona a regeneração: preparar a pele para responder melhor aos tratamentos. Queremos nossas células trabalhando em sua máxima potência, da forma mais saudável possível", finaliza.

A associação de tecnologias
A dermatologista Krishna Sandoval destaca que o peptídeo de cobre GHK-Cu, utilizado para bioestimulação, é um tripeptídeo que o próprio corpo produz — estando presente no plasma, na saliva e na urina. Ele atua como um carreador de cobre, mineral essencial para a enzima lisil oxidase, que auxilia na produção de colágeno. Com o envelhecimento, a produção de GHK-Cu diminui e, por isso, a pele perde parte de sua capacidade de reparação.

"Ele promove uma bioestimulação inteligente: atua na cicatrização e no remodelamento, ativando genes que produzem colágeno dos tipos I e III e elastina, e desativando genes que destroem o colágeno, além de apresentar efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes. Na pele, promove benefícios observados em estudos clínicos — como melhora da elasticidade, da firmeza e das rugas finas, além de melhora em cicatrizes de acne e estrias e de uma cicatrização mais rápida quando aplicado por drug delivery após laser e microagulhamento". O ativo existe nas formas tópica, injetável e oral. No Brasil, há liberação apenas para o uso tópico, que é considerado mais seguro e conta com mais estudos clínicos.

A médica conta que os novos protocolos reforçam a importância do tratamento individualizado e mostram que o melhor laser não é necessariamente o mais agressivo, mas aquele que melhor se adapta aos objetivos da paciente, à sua anatomia e à sua tolerância ao tempo de recuperação, com menos dor durante a aplicação. Novamente, a associação de tecnologias foi muito discutida como estratégia para alcançar  melhores resultados. 
Krishna Sandoval
Krishna Sandoval fala sobre os destaques do congresso em Havard Divulgação

Saímos da era em que um único laser resolve tudo para protocolos que combinam laser, ultrassom microfocado, radiofrequências monopolares e microagulhadas, de 

acordo com a necessidade de cada paciente, para atuar em todas as camadas da pele

Krishna Sandoval Dermatologista

Em relação às tecnologias, destacaram-se: 

  • Novo laser com comprimento de onda de 2.910 nm, como uma inovação no rejuvenescimento, associado à fibra óptica e à ablação de microcolunas na pele, semelhante ao microcoring, levando a melhores resultados com rápida recuperação.

  • Novo laser para acne com comprimento de onda de 1.726 nm, que tem como alvo a glândula sebácea, promovendo redução expressiva das lesões inflamatórias.

  • Os lasers ablativos não fracionados, utilizados como tratamento preventivo para diminuir a ocorrência de cânceres de pele, como os carcinomas basocelular e espinocelular, por estimularem mecanismos de reparo do DNA.

  • O laser com Focal Point Technology, que concentra a energia em pontos precisos da 
    derme sem queimar a pele.

  • Os lasers ultrarrápidos de femtossegundos e attossegundos, bem mais rápidos que os 
    picossegundos, nos quais o pulso do laser passa através de um gás, considerados uma 
    promessa para o tratamento do melasma e de alterações pigmentares. 

  • A medicina regenerativa, com o transplante de mitocôndrias como uma grande 
    promessa para o futuro do rejuvenescimento celular. 

Krishna Sandoval diz que Harvard ensina uma medicina de altíssimo nível científico, com foco na ciência, nos resultados e na segurança do paciente por trás de cada tecnologia e dos novos tratamentos. "Estamos entrando na era da medicina regenerativa e dos lasers mais modernos, aliados à medicina do estilo de vida saudável, em busca de maior longevidade e qualidade da pele". 

Isabella Redighieri diz que o futuro é preventivo, personalizado e baseado em evidência. "Tecnologia nenhuma substitui o básico: sono, alimentação, atividade física, controle do estresse e proteção solar. Isso é Medicina do Estilo de Vida, e é o que sustenta qualquer resultado de consultório a longo prazo". 

Já Giane Giro diz que a principal mensagem é que estamos vivendo um período de desenvolvimento tecnológico muito acelerado, especialmente na Dermatologia. "Mas uma tecnologia sofisticada não significa, necessariamente, um tratamento melhor. O curso reforçou a importância de compreender os mecanismos de ação, avaliar a qualidade das evidências científicas, reconhecer as limitações de cada procedimento e, principalmente, individualizar as indicações". 

Outro ponto importante é que os tratamentos estão se tornando cada vez mais integrados. "Em vez de procurar um único equipamento capaz de resolver todos os problemas, a tendência é combinar diferentes tecnologias e abordagens, respeitando as características e necessidades de cada paciente", finaliza Giane.

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