Depois de ser excluída pelas amigas de escola, Glorinha (Laura Luz) enfrentará outro episódio doloroso entre os colegas de turma nos próximos capítulos de ‘Por Você’. A adolescente será vítima de cyberbullying quando as meninas criam, com inteligência artificial, uma montagem depreciativa de seu rosto em um corpo musculoso de lutador de judô e compartilharem a imagem com toda a classe. Humilhada diante de todos, Glorinha confrontará as responsáveis e, tomada pela raiva, quase partirá para a agressão. Embora Lucas intervenha e garanta que a escola tomará providências, a jovem não suportará permanecer no local e fugirá. Ao encontrar com Hanna (Pietra Quintela), ela revela não querer mais voltar ao colégio nem à academia de judô.
Em casa, sem conseguir se desvencilhar da imagem que circulou entre os colegas e das ofensas relacionadas ao esporte que pratica, Glorinha acabará destruindo o próprio quimono em um momento de revolta. Bela (Sheron Menezzes) encontrará a adolescente e a acolherá, incentivando-a a não permitir que as agressões definam a maneira como enxerga a si mesma. No dia seguinte, a obstetra irá à escola e defenderá a filha de Juli (Lucy Ramos) diante das famílias das meninas responsáveis pela montagem, que são punidas com advertências e suspensão.
Disposta a ajudá-la a recuperar a autoestima, Bela compartilhará as próprias inseguranças da adolescência e lembrará que Juli (Lucy Ramos) a defendia na escola naquela época. Na sequência, a obstetra levará Glorinha ao salão da trancista que fez parte da juventude das duas amigas, em um encontro que ajudará a jovem a redescobrir a própria beleza e confiança.
O enredo mostra como novas tecnologias transformaram o cyberbullying em uma ameaça sem limites físicos. Se antes o conflito ficava restrito à sala de aula, hoje a agressão invade a privacidade dos jovens a qualquer hora.
O cyberbullying é a prática de intimidação, humilhação, perseguição ou agressão sistemática contra alguém por meio de ferramentas e tecnologias digitais (como redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e fóruns).
A psicanalista infantil Bianca Martins explica que a grande diferença da violência virtual é a ausência de trégua para a vítima. "Antes, a escola era o lugar do conflito e a casa, o abrigo; agora o agressor é onipresente e invisível, entra no quarto e na madrugada. A violência se torna corrosiva", afirma.
Ela diz que a manipulação de fotos por IA atinge diretamente a fase em que o adolescente constrói a própria identidade. "A montagem não distorce o que a vítima fez: ela fabrica o que a vítima é. A vergonha não depende da verdade, depende do alcance da exposição", alerta.
A especialista reforça ainda a responsabilidade dos colegas que apenas assistem ou repassam as imagens. "O cyberbullying não se sustenta sem plateia. A tecnologia dá ao agressor a sensação de que 'foi a ferramenta', terceirizando a crueldade para o aplicativo. Quem não compartilha faz a única intervenção com escala real".
Como os adolescentes raramente pedem ajuda de forma direta, a psicanalista indica ficar atento a mudanças bruscas de comportamento:
Alterações no sono, apetite ou queda no rendimento escolar.
Sintomas físicos sem causa médica, como dores de cabeça ou de barriga pela manhã.
Irritabilidade, impaciência, desinteresse e isolamento social.
Hábito de esconder a tela do celular, parar de usá-lo de repente ou navegar de madrugada.
A advogada penal Camila Helal, Secretária Geral Adjunta da OAB/ES, lembra que o cyberbullying é enquadrado em lei com pena de dois a quatro anos de reclusão, além de multa. A Lei nº 14.811, de 2024, incluiu a intimidação sistemática virtual no Código Penal. A pena prevista é de dois a quatro anos de reclusão e multa, quando a conduta não constitui crime mais grave. O enquadramento depende da análise do caso pelas autoridades.
"A Inteligência Artificial não afasta a responsabilidade. Quem cria e quem compartilha pode responder, conforme sua participação, tanto criminalmente quanto pela reparação dos danos", explica Camila.
A advogada pontua que quando os envolvidos têm entre 12 e 17 anos, a conduta é tratada como ato infracional pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sujeita a medidas socioeducativas. Já os pais podem ser acionados judicialmente para indenizar os prejuízos e danos morais causados pelos filhos.
Diante do problema, as especialistas recomendam um roteiro prático para proteger a vítima e responsabilizar os agressores.
1. Acolha sem punir: Escute o jovem sem dramatizar nem minimizar o fato. Retirar o celular como punição afasta a criança e ensina a esconder o problema.
2. Preserve as provas: Tire prints completos, guarde links, perfis, datas e horários, evitando encaminhar a imagem para não ampliar a exposição.
3. Acione a escola e a polícia: Procure a instituição de ensino como parceira. Em casos graves, registre o Boletim de Ocorrência na Polícia Civil e denuncie o conteúdo na própria plataforma digital.
4. Busque apoio psicológico: O acompanhamento é fundamental para ajudar a reconstruir a confiança e a autoestima abaladas pela exposição.
Este conteúdo foi produzido por Patrick Mizrahi, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação do editor Guilherme Sillva.