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Outubro Rosa

Como lidar com a menopausa após o tratamento do câncer de mama

Terapias podem antecipar a menopausa e provocar sintomas que afetam sono, sexualidade, saúde óssea e bem-estar emocional; acompanhamento individualizado ajuda a preservar a qualidade de vida

Publicado em 23 de Outubro de 2026 às 13:39

Redação A Gazeta

Publicado em 

23 out 2026 às 13:39
Autoexame no câncer de mama
O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as brasileiras shutterstock
O fim da quimioterapia, da cirurgia ou da radioterapia costuma representar um momento de alívio para quem passou pelo tratamento do câncer de mama. Mas, para algumas mulheres, os efeitos continuam presentes por muito mais tempo. Uma dessas consequências pode ser a menopausa antecipada ou induzida pelo tratamento, com sintomas que vão muito além das conhecidas ondas de calor.

O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as brasileiras, sem considerar os tumores de pele não melanoma. Para cada ano do triênio 2026-2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos no país, com risco estimado de 71,57 casos por 100 mil mulheres.

Em quem ainda não havia chegado à menopausa, tratamentos como a quimioterapia e a supressão da função ovariana podem provocar uma queda importante dos níveis de estrogênio. Além disso, as terapias endócrinas (hormonioterapia) usadas contra determinados subtipos de câncer de mama podem causar ou intensificar sintomas típicos desse período.

"A menopausa relacionada ao tratamento do câncer de mama pode acontecer de maneira mais abrupta do que a menopausa natural. A paciente pode passar a apresentar ondas de calor, alterações do sono, secura vaginal, redução da libido e perda de massa óssea em um período relativamente curto. Por isso, esses sintomas precisam fazer parte da conversa sobre o cuidado oncológico", explica a oncologista Luciana Landeiro, da Oncoclínicas.

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Uma revisão publicada em 2024 na revista The Lancet destaca que os sintomas da menopausa após o câncer podem ser mais intensos do que os observados na menopausa natural, incluindo alterações vasomotoras, sexuais, do sono, do humor e da qualidade de vida. A insuficiência ovariana precoce também pode aumentar, a longo prazo, o risco de problemas como a osteoporose e as doenças cardiovasculares.

Esses efeitos não são apenas uma questão de desconforto passageiro. Um estudo com mulheres que tiveram câncer de mama, publicado na Breast Cancer Research and Treatment, mostrou que, entre aquelas com sintomas relacionados à menopausa, 89% relataram fogachos ou sudorese noturna e alterações do sono; 75% tinham secura vaginal; 62%, oscilações de humor; e 60%, dificuldades na vida sexual. Na mesma pesquisa, 60% disseram querer mais suporte para lidar com esses sintomas.

Para Cristiane Bergerot, psico-oncologista e líder nacional de especialidade equipe multidisciplinar da Oncoclínicas, essas mudanças também precisam ser consideradas como parte do cuidado após o câncer. "A menopausa induzida pelo tratamento pode representar mais uma mudança importante e não planejada no corpo da mulher. Além dos sintomas físicos, ela pode repercutir na autoestima, na imagem corporal, na sexualidade, nos relacionamentos e na qualidade de vida. Reconhecer essas repercussões e oferecer espaço para que sejam discutidas é fundamental para um cuidado que considere a mulher para além do tratamento do tumor."

No período após o tratamento, novos sintomas e mudanças corporais também podem despertar preocupação e medo de recorrência, especialmente quando a mulher não sabe se determinada alteração está relacionada à menopausa, aos efeitos do tratamento ou a uma possível recorrência da doença. Ter informação e espaço para discutir essas preocupações com a equipe de saúde também faz parte do cuidado.

Intervenções psicológicas estruturadas também podem contribuir para reduzir o impacto de alguns desses sintomas. Um ensaio clínico publicado no Lancet Oncology mostrou que a terapia cognitivo-comportamental reduziu o impacto de ondas de calor e sudorese em mulheres tratadas de câncer de mama, além de melhorar aspectos relacionados ao humor, ao sono e à qualidade de vida.
Nem todo tratamento serve para toda paciente

Uma das principais recomendações dos especialistas é evitar soluções padronizadas. A escolha da estratégia para controlar os sintomas depende do tipo e do subtipo do tumor, dos tratamentos realizados, da idade da paciente, de outros fatores de risco e dos medicamentos que ela ainda utiliza.


A terapia hormonal da menopausa, por exemplo, não deve ser indicada automaticamente para uma mulher que teve câncer de mama. Nos tumores com receptores hormonais positivos, em especial, ela costuma ser contraindicada, e qualquer exceção exige avaliação individualizada e diálogo direto com a equipe de oncologia.

"Quando pensamos no controle dos sintomas, precisamos colocar na balança tanto a qualidade de vida quanto a segurança oncológica. Existem situações em que tratamentos hormonais não são recomendados, e outras em que determinadas alternativas podem ser consideradas. Por isso, não existe uma única receita para todas as pacientes", afirma Luciana Landeiro.

Para sintomas geniturinários, como secura e dor durante a relação sexual, alternativas não hormonais, como lubrificantes e hidratantes vaginais, costumam ser a primeira opção. Em situações específicas, o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser discutido com a equipe médica. 

Também há alternativas não hormonais mais recentes. Em junho de 2026, a Anvisa aprovou o fezolinetanto para tratar ondas de calor e sudorese moderadas a intensas da menopausa. Para mulheres que tiveram câncer de mama, porém, os estudos ainda estão em andamento: uma pesquisa de fase 3 avalia o medicamento em pacientes que usam hormonioterapia após o tratamento do tumor.

Um remédio da mesma família, o elinzanetanto, já mostrou resultados nesse grupo. No estudo OASIS-4, ele reduziu as ondas de calor e melhorou o sono e a qualidade de vida de mulheres em hormonioterapia para câncer de mama. O medicamento, no entanto, ainda não está disponível no Brasil.

"É importante que a paciente saiba que não precisa simplesmente conviver com os sintomas sem apoio. Hoje temos diferentes possibilidades de abordagem, e o tratamento pode envolver medidas medicamentosas, estratégias não hormonais, atividade física, cuidados com a saúde óssea e também suporte psicológico", reforça a oncologista.

Para Cristiane Bergerot, reconhecer e abordar esses efeitos também pode ajudar a mulher a recuperar a sensação de autonomia depois de uma experiência em que muitas decisões foram determinadas pela própria doença e pelo tratamento.

"Depois do câncer, algumas mulheres podem sentir que o próprio corpo deixou de ser tão familiar. Compreender o que está acontecendo, falar abertamente sobre esses sintomas e participar das decisões sobre como manejá-los são passos importantes para recuperar a sensação de autonomia e construir uma vida com qualidade depois do câncer", complementa a psico-oncologista.

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