O "outono do corpo", descrevem popularmente. A vulva muda de tom, geralmente tornando-se mais escura, e fica mais fina, seca e frágil. As fronteiras do trato urinário se reconfiguram e dizer ter a "bexiga caída" passa a ser comum. Antes silenciosas e obedientes, a uretra e bexiga passam a emitir sinais de urgência — se não correr pro banheiro na hora, a perda involuntária de urina é certa. Esses incômodos do dia a dia são sintomas da Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGM).
A apresentadora Fernanda Lima já compartilhou o diagnóstico e os impactos da SGM. Através de seu podcast Zen Vergonha e de entrevistas como ao programa Fantástico, ela revelou como a queda drástica de estrogênio transformou seu corpo e afetou diretamente sua libido e seu casamento com Rodrigo Hilbert.
"Quando percebi que estava entrando na menopausa, fiquei completamente em pânico. Comecei a criar fantasmas na minha cabeça com tudo aquilo que a gente cresceu ouvindo", disse.
Com sintomas associados a síndromes como a geniturinária, a jornalista decidiu falar sobre o tema justamente para compartilhar esse processo de descoberta. Depoimentos de figuras públicas como essas têm ajudado a quebrar o silêncio em torno de uma fase natural da vida da mulher: o climatério e a menopausa.
Os efeitos da queda hormonal vão muito além das famosas ondas de calor, atingindo profundamente a saúde íntima e urinária. É justamente aqui que se manifesta a SGM.
Confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruar, geralmente por volta dos 50 anos de idade, a menopausa é, para muitas mulheres, sinônimo de calor repentino e incessante. No entanto, o ginecologista Carlos Campagnaro, lembra que o corpo passa por uma revolução silenciosa. “Algumas mulheres apresentam alterações do sono, suores noturnos, mudanças de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, redução da libido, dores articulares e modificações na composição corporal”, relata.
Segundo ele, é o surgimento de incômodos na região genital e no trato urinário que compõe a síndrome geniturinária, uma vez que nem toda mulher na menopausa tem a condição. "A SGM engloba uma série de alterações em sequência que afetam a vulva, a vagina, o clitóris, a uretra e a bexiga devido à queda drástica do estrogênio, comum à menopausa, mas com consequências no corpo da mulher que variam de paciente pra paciente", diz o professor do Unesc.
Na prática, isso se traduz em:
Sintomas Gerais da Menopausa: Ondas de calor (fogachos), suores noturnos, insônia e cansaço, alterações de humor e irritabilidade, perda de massa óssea.
Sintomas da Síndrome Geniturinária: secura vaginal severa, dor ou sangramento na relação sexual, coceira e queimação na vulva, infecções urinárias frequentes e urgência para urinar.
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) estima que pelo menos 90% das mulheres desenvolvem algum sintoma relacionado à condição. Porém, o peso do silêncio, segundo os ginecologistas, gera uma forma de subnotificação, que é quando um caso é comum, mas pouco registrado.
“Diferentemente dos fogachos, que frequentemente diminuem com o passar dos anos, os sintomas geniturinários tendem a persistir e podem piorar quando não são tratados”, alerta Carlos Campagnaro, que conta sobre mulheres que não buscam orientação médica por acharem que “é da idade" ou por vergonha de falar sobre sexualidade no consultório.
A ginecologista Karin Rossi, do Hospital Santa Rita, explica como é feito o diagnóstico. “É realizado por meio de uma anamnese dirigida, um interrogatório específico para as queixas em relação ao ressecamento, sensação de ardor e queimação, irritação, diminuição da lubrificação, entre outras”.
A especialista aponta que, durante o exame físico, o médico observa sinais como a hipotrofia dos tecidos, diminuição da gordura da região púbica, flacidez e alterações na coloração e textura da mucosa vaginal e uretral. Karin esclarece que não há cura definitiva, por se tratar de uma condição progressiva. "Mas a mulher precisa saber que há possibilidade de reduzir os sintomas e a progressão da síndrome, melhorando a qualidade de vida e o desempenho sexual.”
Por isso, Carlos reforça a importância do próprio médico converar sobre o assunto com as pacientes. “Perguntas simples sobre ressecamento, lubrificação, desconforto durante as relações e sintomas urinários podem revelar problemas que estavam afetando significativamente a qualidade de vida da paciente”.
As alternativas de tratamento são individualizadas e podem contemplar a terapia de reposição hormonal, seja ela local ou sistêmica, por meio da aplicação de cremes ou óvulos vaginais com baixas doses de estrogênio. Além disso, recomenda-se o uso de hidratantes e lubrificantes específicos, indicados tanto para o cuidado diário quanto para o momento da relação sexual, visando à manutenção do conforto e da umidade local.
*Este conteúdo foi produzido por Camila Leão, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação do editor Guilherme Sillva