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 Christovam Tassar entre as filhas Monique e Ingrid
Christovam Tassar entre as filhas Monique e Ingrid . Crédito: Fernando Madeira

Pais depois dos 40 contam como os filhos transformaram suas vidas

Planejado ou não, o desejo de ser pai mais tarde tem feito com que homens mudem sua rotina para encarar a paternidade

Publicado em 02/08/2019 às 13h04

“O amor de pai é comparável ao único amor inalterável para a mulher: o amor de mãe”, diz o procurador federal aposentado Christovam Tassar, defensor da paternidade tardia, aos seus recém-completados 80 anos. Planejada ou acontecida, o desejo de ser pai depois dos 40 anos tem transformado a forma que homens encaram a paternidade. Eles superam o papel de coadjuvante na formação dos filhos e fortalecem o sentimento de responsabilidade, presença, cuidado e o amor.

Esse amor de ser pai ao que Christovam se refere, foi conhecido por ele aos 47 anos, quando teve a primeira filha, Ingrid. A segunda, Monique, veio logo em seguida, aos 50. O aposentado esperou ter uma vida financeira estável para formar uma família. “Fui incentivado pela minha mãe a só ter uma família quando tivesse condição de sustentar. Fiquei viúvo do primeiro casamento e no segundo tive esse desejo da paternidade”, conta ele, que considera o feito algo transformador. “É a coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida. Me transformou em uma pessoa boa, me esforcei para passar todas as qualidades morais para minhas filhas”.

A forma madura de lidar com os sentimentos contribuiu para que ele estivesse presente em todos os momentos da vida das filhas: brincadeiras de bonecas, realização de festas de aniversário, passeios em clubes, praias, estudo e até presenciando os primeiros namorados.

Hoje são as filhas que se dedicam no cuidado do pai. “Ele sempre teve muita paciência. Ajudava a gente em tudo. Perguntava as coisas para ele e ele respondia tudo. E também sabia consertar tudo”, relembra Ingrid.

Construção da paternidade

Se a idade não confere ao ser humano a certeza da maturidade, a psicóloga e colunista da Revista.ag Bianca Martins, ressalta que a paternidade tardia não é nenhuma garantia de ser um bom pai. Cada homem vai construir a forma de se relacionar com os filhos pela experiência que teve na vida.

“Na maioria das vezes, o homem de 40 anos já tem uma bagagem de vida e é alguém que, teoricamente, está mais constituído profissional e emocionalmente”, ressalta a especialista. Para Bianca, não existe uma receita que sucinte a experiência humana. “Cada homem vai lidar com a chegada desse filho de uma forma diferente. Não é a idade que vai fazer com que ele seja mais ativo ou não no cuidado com os filhos”.

De acordo com a psicóloga existem sim diferenças entre as idades. “Quando temos 20 anos, nossas preocupações são de uma ordem; quando temos 30 ou 40, são de outra. Mas, a forma como recebemos os filhos está ligada ao momento da vida que estamos vivendo, tanto para o bom quanto para o ruim”.

Ela explica ainda que a melhor época para ter filho é quando a pessoa se sente emocional, social e financeiramente preparada para receber a criança e entender as necessidades que ela tem. “Tem pais incríveis aos 20 anos e não tão incríveis aos 40. O fato da família estar disposta a receber o filho e atender as necessidades dele é o fundamental”.

A psicóloga ainda ressalta que o cuidado paterno com os filhos é uma característica da contemporaneidade, no qual os homens se mostram mais ativos no cuidado com as crianças e também nas rotinas domésticas. “É perceptível a mudança da função do homem na sociedade. Na participação dos pais na consulta pré-natal, no momento do parto, e isso há 30 anos, era algo muito distante da experiência masculina. Isso ajuda na relação do bebê e da construção da figura paterna de cuidado”, explicou.

Alexandre Curtiss se tronou pai do Benjamin aos 48 anos. "Comecei a me preocupar com o futuro do mundo". . Crédito: Bernardo Coutinho
Alexandre Curtiss se tronou pai do Benjamin aos 48 anos. "Comecei a me preocupar com o futuro do mundo". . Crédito: Bernardo Coutinho

Experiência única

Se o ditado diz que ser mãe é padecer no paraíso, o ideal de amor paterno - igualado com o materno - é compartilhado pelo professor universitário Alexandre Curtiss, 57 anos, pai do Benjamin, de 9 anos. Curtiss cresceu em uma família com mais cinco irmãos onde as tarefas de cuidado com os filhos e casa eram igualmente dividido entre os gêneros.

“Na nossa cultura, o amor de mãe é muito famoso. Na minha opinião, o amor de pai deve ser na mesma medida responsável e incondicional. Ninguém tem a obrigação de ter filho, mas quando decide ter, a paternidade deve ser assumida como um compromisso muito sério. Tem que ser feito de coração. É um trabalho duro que eu não abro mão. É uma experiência única e invisível. Um aprendizado sobre a vida. Quando o homem quer ser pai, é uma experiência fantástica”, diz.

O desejo pela paternidade, segundo Curtiss, sempre existiu, mas só se concretizou aos 48 anos. “A paternidade tardia é vendida como possuidora de vantagens como estabilidade financeira, emocional, paciência e experiência”, alega Curtiss ao dizer que acreditou nesse mito. Atualmente, não acredita mais. “Cada fase de vida é uma e ter filho aos 20 anos também dá certo, vai depender do comprometimento que tem com isso”.

O mergulho na paternidade possibilitou mudanças profundas na vida do professor. “Comecei a me preocupar com o futuro dele e com o futuro do mundo. E a perceber que os meus comportamentos refletem no outro”, explica o professor, ao observar o desenvolvimento de Benjamin na forma como a criança descobre as coisas da vida.

“Gosto de acompanhar o crescimento dele, as descobertas e de estar junto em brincadeiras, apresentando culturas, ajudando nos deveres da escola. Eu costumava fazer crônicas dos nossos diálogos”. O pai revela que os diálogos têm ficado mais extensos com o passar dos anos e que ainda não conseguiu fazer com que Benjamin goste de estudar, uma pequena frustração para ele que é professor.

O músico Fábio Carvalho foi pai de Maria Flor aos 48 anos. Neste Dia dos Pais, ela completa um ano . Crédito: Fabio Carvalho/ Divulgação
O músico Fábio Carvalho foi pai de Maria Flor aos 48 anos. Neste Dia dos Pais, ela completa um ano . Crédito: Fabio Carvalho/ Divulgação

Amor e medo

Na vida do músico Fábio Carvalho, a paternidade aconteceu aos 48 anos. Sua filha, Maria Flor, vai completar um ano neste Dia dos Pais. “Não foi planejado. Ela aconteceu na minha vida e na da mãe dela. Eu tive e tenho muito medo. A emoção de ser pai é tão grande que quando penso nela, eu choro. Tenho medo de não corresponder à expectativa do que é ser pai”, revela o músico que cresceu sem a presença do genitor.

Envolvido com projetos sociais, Fábio sempre teve afinidade com crianças e o desejo de ter filhos. Apesar de também acreditar em uma idade mínima para ser um bom pai, a paternidade tardia conferiu uma maturidade para encarar o assunto que não tinha aos 20 anos.

“Cada momento é um. Se eu fosse mais novo talvez eu não tivesse a mesma percepção ao ser pai. Eu recebi a Maria Flor com mais maturidade, cuidado e atenção. É a maior loucura. Ela veio para me transformar e sinto que estou começando a minha vida de novo. Agradeço por ela ter me escolhido para ser seu pai”.

A menina nasceu prematura e a mãe decidiu mudar com a criança para o interior do Espírito Santo. Fábio, porém, tenta não deixar que a distância atrapalhe o relacionamento com Maria Flor. “Eu falo com ela todos os dias. Canto para ela, faço chamada de vídeo. É uma coisa incrível. Me tornei uma pessoa melhor depois que ela nasceu, fiquei mais amoroso e tranquilo”. Se há algo fundamental para quem decide ser pai depois dos 40, Fábio responde: “é preciso estar com os joelhos em dia”, diz rindo.

Este será o primeiro Dia dos Pais de Renato Bermudes, que realizou o sonho aos 48 anos. "A chegada de Renato Luiz me transformou. Crédito: Fernando Madeira
Este será o primeiro Dia dos Pais de Renato Bermudes, que realizou o sonho aos 48 anos. "A chegada de Renato Luiz me transformou. Crédito: Fernando Madeira

Coração fora do peito

Esse também é o primeiro dia dos pais do corretor de imóveis Renato Bermudes, 48. Casado há 8 anos, ele diz que o pequeno Renato Luiz, de 7 meses, veio no momento em que decidiu ter uma família, que só surgiu depois dos 35. “Foi o momento que me senti preparado e era a coisa que mais desejava no mundo naquela hora. Quero curtir tudo com ele! Dos sete meses dele, não fiquei nenhum dia longe. A minha satisfação é ver o sorriso do meu bebê, saber que ele está começando a engatinhar, descobrindo sabores e o som das coisas... O desenvolver dele é prazeroso. Quero estar lá no dia que o primeiro dente aparecer”, conta Renato sobre as possibilidades de vivenciar a paternidade e aproveitar o dia a dia com a criança.

O corretor também chama atenção para a participação do pai nas funções domésticas. Para ele, é necessário que o homem tenha em mente que o filho é do casal e as responsabilidades sobre atividades do cotidiano também. “Isso não tem relação com a idade que se torna pai, é com a educação. É muito trabalhoso para uma mulher cumprir sozinha as atividades com os filhos. O homem, além da obrigação, deve sentir prazer em dividir os afazeres do bebê com a parceira”.

Há sete meses ele diz que o coração tem batido também fora do peito. “As pessoas precisam passar por isso para entender. É um amor muito grande que só quem é pai e mãe entende. É um coração que bate fora do peito da gente”, relata Renato que considera a paternidade transformadora. “Ser pai muda muita coisa. O meu dia a dia, conceitos, os valores de certas coisas. É preciso ter um planejamento de vida, porque não estou mais sozinho e o bebê é um ser que depende de você. Um filho muda tudo radicalmente. E pra melhor”.

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