Ele é macio, colorido e tem tamanhos e formatos diferentes. O Pop It (também conhecido como fidget toys) virou o brinquedo sensação no Brasil, principalmente entre as crianças. O produto alcançou o auge da venda na pandemia após viralizar no aplicativo TikTok. O brinquedo de silicone com bolinhas é semelhante ao plástico bolha, que emite um som ao ser apertado.
Pop It - especialistas alertam para o uso consciente do brinquedo
E a fama não veio por acaso, já que ele promete fazer o usuário desestressar, aliviar a ansiedade e melhorar a concentração e o raciocínio lógico, além de auxiliar no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Mas será que um simples brinquedo de plástico pode influenciar na inquietação e na saúde mental das pessoas?
A psicanalista Renata Tavares Imperial explica que a ansiedade é um dos grandes problemas da atualidade e que tem afetado muito as crianças. Por isso, no dia a dia é preciso achar estratégias para lidar com ela, já que ninguém aguenta estar exposto a um nível elevado de ansiedade.
"Não é por acaso que a indústria lança produtos que oferecem alívio a ansiedade e ao estresse, como o brinquedo Pop It. Percebemos, no cotidiano, como as crianças gostam desse brinquedo e que ele corresponde a ser um meio de descarga da ansiedade, mas é importante considerar que não funcionará para todos. Em alguns casos, a ansiedade toma uma proporção de um quadro psicopatológico, que necessita de outros recursos externos como o tratamento com profissionais do campo psi (psicanalista, psiquiatra e psicólogo)".
Renata explica que o Pop It é um brinquedo, e deve ser utilizado com esse propósito, ou seja, de proporcionar prazer, de estimular a socialização e o lazer. "Considero fundamental que os pais não percam de vista a importância da criança ter momentos de puro lúdico, sem ficarem, a todo momento, preocupados em estimular alguma função cerebral, ou alguma competência social, pois isso ocorrerá como consequência, caso seja proporcionado a criança a chance dela ser criança, isto é, de brincar por brincar".
Ela ressalta que o uso excessivo de qualquer brinquedo é danoso. "O excesso é algo que traz prejuízos em vários campos da vida humana como no próprio corpo, no processo de aprendizagem, nas relações sociais e nas amorosas. É importante considerar que a criança ainda não possui um nível de discernimento do que lhe traz prejuízo, é o adulto que vai trazer essas referências para ela", diz Renata Tavares Imperial.
ALÍVIO PONTUAL
A psicanalista infantil Bianca Martins vê o produto como limitado, tendo a função apenas de ação motora. Para ela, é importante pensar o que levaria uma criança a usar excessivamente esse brinquedo. "Tudo em excesso causa mais prejuízo do que benefício. Como é um brinquedo bastante limitado, não proporciona a criança a expansão de outras habilidades como a invenção, o compartilhamento, é um objeto que num primeiro momento até pode cumprir o que promete, que é um pouco de concentração, mas logo, como é típico da infância a criança irá se desinteressar".
É preciso entender que o brinquedo funciona apenas como uma ferramenta de alívio, não podendo ser considerado como a solução para qualquer possível problema de saúde mental. "Ele gera um alívio pontual. É função da família ensinar as crianças a lidarem com as situações de estresse e ansiedade, para além do uso de um objeto. Infelizmente somos bombardeados por inúmeros objetos que prometem bem-estar. É necessário alfabetizar emocionalmente as crianças, ensinando-as a reconhecer suas emoções, as emoções das demais pessoas da família e construir com estratégias de lidar com as frustrações, que são as principais emoções que causam ansiedade de desorganização emocional na infância", ressalta Bianca Martins.
"Se uma criança está obsessivamente utilizando um brinquedo ou um objeto precisamos nos perguntar o que está havendo com ela, pois é típico de uma criança saudável que se interesse por muitos objetos ao mesmo tempo"
Bianca diz que o que promove efetivamente a redução de níveis de estresse e ansiedade na infância é o brincar livre, na natureza, e de preferência de maneira coletiva, com outras crianças. "O que promove a prevenção de degeneração cerebral é a criança estar inserida em um ambiente seguro e que proporcione experiências diferentes. A rotina exagerada e a ausência de novas experiências são engessadores do desenvolvimento cerebral infantil. As crianças precisam, diariamente, ter experiências que promovam a ampliação das sinapses cerebrais".
Por isso, os pais devem incentivar as brincadeiras livres, aquelas que utilizam a imaginação, a fantasia, que possam ser feitas coletivamente. "Os brinquedos ricos são aqueles que podem ser utilizado de muitas formas, esses sim são os bons objetos para se ter na infância. É importante ressaltar que brinquedos com pouca função são aqueles que estimulam pouco as habilidades essenciais importantes na infância como a invenção, a fantasia, a apreensão das regras, o manejo das frustrações e o reconhecimento dos limites nas ações consigo mesmo e com os demais", finaliza Bianca Martins.