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Veronica Oliveira começou a fazer faxina após ficar desempregada. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras
Veronica Oliveira

Faxineira vira influencer e cria rede de apoio para as diaristas do país

Após perder o emprego e viver com uma renda de R$ 680 tendo que sustentar dois filhos, ela  chegou a  desistir da vida.  Mas se reinventou, virou  digital influencer e criou uma página onde dá dicas  para faxineiras de todo  o país. "Observo o quanto o serviço doméstico é análogo ao trabalho escravo em alguns estados brasileiros"

Veronica Oliveira começou a fazer faxina após ficar desempregada. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras
Publicado em 28/05/2020 às 17h05
Atualizado em 28/05/2020 às 20h10

A baiana Veronica Oliveira, que mora em São Paulo, viu a rota da vida mudar algumas vezes. A primeira foi quando perdeu o emprego fixo e a estabilidade financeira que estava acostumada a viver. "Acabei aceitando um emprego no atendimento de um laboratório onde o salário era de mil reais. Com os descontos do plano de saúde tinha que viver com R$ 680. mas só de aluguel eu pagava R$ 500", lembra. A barra pesou e ela tentou suicídio. "Tive uma overdose de medicamentos e passei cerca de três semanas internada em um hospital psiquiátrico". Quando saiu, decidiu que mudaria de vida. Começou a fazer faxina depois de dez anos trabalhando com telemarketing. Virou referência. Criou, então, a página 'Faxina boa" no Facebook onde dá dicas para diaristas de todo o país sobre como melhorar o trabalho, como negociar valores, como fazer a melhor limpeza e até como exigir melhores condições de trabalho. Aos 38 anos, com 2 filhos, ela se tornou uma influenciadora digital na área e hoje tem orgulho de sua trajetória. 

Você sempre trabalhou como operadora de telemarketing, tinha uma vida boa. Por que você começou a fazer faxinas?

Trabalhei em grandes empresas, o que me garantia bom salário e benefícios, mas com a falência da empresa onde eu trabalhava em 2015 não encontrei outra que oferecesse o mesmo tipo de remuneração. Foi quando acabei aceitando um emprego no atendimento de um laboratório com salário de mil reais, em 2016.

Durante esse período sua renda era de R$ 80 a R$ 100 por mês para três pessoas...

Nesse laboratório, caso optássemos pela inclusão da assistência médica oferecida pela empresa, teríamos que pagar R$ 100  para cada beneficiário do plano. Coloquei meus dois filhos, o que fazia com que meu salário fosse de R$ 680, mas eu pagava R$ 500 de aluguel e quase R$ 100 de água e luz por mês. O restante, como comida, medicamentos, lazer e todas as outras necessidades da família eram "supridas" por esses R$ 80. Eu costumava usar o limite do banco e ter um pouco mais de grana (e muito mais de dívidas). Além disso, alguns amigos ajudavam, sempre foi uma força tarefa, sou muito grata a todo mundo que sempre me ajudou .

Durante quantos anos fez faxina?

Comecei com as faxinas no final de 2016 e fiz até o final de 2019. Foi um período  que fiz amigos maravilhosos. Uma história que me marcou foi a de um homem que deixou de cuidar da casa depois que o amigo que morava com ele faleceu. Cheguei lá  e a casa estava em total estado de abandono. Depois de limpar tudo e vê-lo chorar e dizer que estava tudo "tão diferente", ele disse que estava se sentindo bem melhor. Isso fez valer a pena todo o esforço, porque foi bem tenso (risos).

Você já  sofreu preconceito?

Sim. Já senti o preconceito em coisas bestas, como um olhar torto, ou no  julgamento de que seria menos inteligente. Certa vez, quando cheguei na casa de  uma cliente de carro,  me deixou muito indignada sentir que ela achava que eu "não precisava" trabalhar com faxinas porque tinha um carro. Acredito que todo trabalho é válido, quando feito honestamente.  Com certeza aquela cliente também trabalha para conquistar as coisas dela e não é julgada por isso.

Nova fase de Veronica Oliveira

Veronica dá palestras pelo país falando sobre sua trajetória
Veronica dá palestras pelo país falando sobre sua trajetória. Divulgação
Veronica dá palestras pelo país falando sobre sua trajetória
Veronica dá palestras pelo país falando sobre sua trajetória. Daniell Marafon
Veronica Oliveira começou a fazer faxina após fiar desemprega. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras
Veronica Oliveira começou a fazer faxina após fiar desemprega. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras. Daniell Marafon
Veronica Oliveira começou a fazer faxina após fiar desemprega. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras
Veronica Oliveira começou a fazer faxina após fiar desemprega. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras
Veronica Oliveira começou a fazer faxina após fiar desemprega. Hoje sua página na rede social 7 mil faxineiras

É verdade que você tentou o suicídio?

Sim. Quando não vi uma forma de sair daquele ciclo de coisas ruins: trabalho que não pagava bem, um quarto de pensão com meus dois filhos passando fome e cheia de dívidas, senti que não estava fazendo pela minha família aquilo que era esperado de mim. E que se eles estivessem com qualquer outra pessoa estariam melhores. Então tive uma overdose de medicamentos e passei cerca de três semanas internada em um hospital psiquiátrico.

Em que momento as coisas mudaram em sua vida?

Ao sair do hospital eu só sabia que queria mudar de vida, mas ainda não sabia o que fazer.

Como surgiu a página 'Faxina boa'?

Após a saída da internação eu fui visitar uma amiga e durante o dia, enquanto conversávamos, fui limpando um pouco aqui, um pouco ali, e quando vi estava fazendo uma faxina completa. Ao final do dia essa minha amiga me ofereceu um pagamento pelo serviço prestado. Ali eu decidi que essa seria minha nova profissão.

Você tem um grupo no Facebook com 7 mil faxineiras de todo o Brasil e até de outros países do mundo. Como funciona esse grupo?

A gente troca experiência e sempre me pedem  dicas. As mais diversas, sobre como melhorar o trabalho, como fazer a melhor limpeza, como negociar valores e até como exigir melhores condições de trabalho. Também tem muitas histórias engraçadas, é bem divertido.

Veronica Oliveira

Influencer

"Nesta pandemia muitas empregadas domésticas fixas ou diaristas que possuem vínculo também acabaram dispensadas sem nenhum tipo de suporte financeiro ou amparo"

Qual o seu trabalho atualmente?

Hoje em dia faço palestras em universidades, empresas e agências de publicidade sobre a minha trajetória e sobre o uso da internet para alavancar um negócio. Além disso, crio conteúdo para marcas e faço trabalhos publicitários.

Qual a situação dessas profissionais com a pandemia do  coronavírus?

Quem trabalha como faxineira normalmente não tem clientes fixos, faz diárias esporádicas. Por conta disso, está sendo bem difícil para  essas pessoas, pois não existe nenhum vínculo. Mas também percebemos que muitas diaristas que possuem vínculo - com idas semanais ou quinzenais ao trabalho - e até empregadas domésticas fixas acabaram dispensadas sem nenhum tipo de suporte financeiro ou amparo. Hoje, essas pessoas estão dependendo de doações vindas de ONG's ou de campanhas específicas.

Você acha que a profissão pode ser mais valorizada?

Com certeza! E tem que começar na forma como as pessoas se relacionam com quem presta serviços gerais. Muitas vezes a gente não recebe nem um "bom dia". Também precisamos ter uma valorização em termos de grana mesmo, o que é essencial. Observo nos depoimentos dados no nosso  grupo, na internet, o quanto o serviço doméstico é análogo ao trabalho escravo em alguns estados brasileiros. Isso é preocupante.

Quais são seus planos para o futuro?

Estou apaixonada pela criação de conteúdo para a internet, adoro poder falar para as pessoas de uma forma real e simples, sem frescuras e com erros e acertos, sem muita produção, mas com muita dedicação. Quando alguém diz que se sente inspirado pela minha trajetória penso que tudo o que passei valeu a pena!

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