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Tesouros históricos passam despercebidos no bairro onde o ES nasceu

Tesouros históricos passam despercebidos no bairro onde o ES nasceu

Entre ruínas e pontos turísticos escondidos, a Prainha guarda memórias do passado capixaba, como ligação com o período escravagista e a lembrança de uma mulher que governou o ES

Ana Muniz

Residente em Jornalismo / [email protected]

Larissa Fontes

Residente em Jornalismo / [email protected]

Samara Ramos

Residente em Jornalismo / [email protected]

Publicado em 5 de setembro de 2025 às 17:38

Do alto do Convento da Penha, é possível enxergar o Parque da Prainha e a Terceira Ponte.
Do alto do Convento da Penha é possível ver o Parque da Prainha e a Terceira Ponte. Crédito: Acervo do IHGVV

Mais do que cenário de cartão-postal, a Prainha, em Vila Velha, também é local de marcos importantes da história capixaba. O bairro, considerado berço do Espírito Santo, abriga pontos turísticos emblemáticos, como o Convento da Penha e o Forte de São Francisco Xavier. Mas, muito além dos ícones que tornam o Estado conhecido nacionalmente, há verdadeiras pérolas históricas que, muitas vezes, passam despercebidas até mesmo pelos moradores.

Seguramente o cenário mais conhecido do território capixaba, o Convento da Penha, localizado em um penhasco a 154 metros de altura, é costumeiramente lembrado por sua relevância cultural, religiosa e histórica. Mas você sabia que em nenhum outro convento brasileiro houve maior emprego de mão de obra escravizada durante a construção?

O casal de aposentados Jorge Soares e Jorgelinda Sacramento, moradores de Vitória há cerca de 40 anos, costumam visitar o local pelo menos uma vez por mês. Para eles, o Convento é um símbolo de fé e paz interior. “Mas tem muita gente que vêm só pelo turismo”, pondera Jorgelinda. 

O Convento da Penha é um dos pontos turísticos mais conhecidos da Grande Vitória.
O Convento da Penha é um dos pontos turísticos mais conhecidos da Grande Vitória. Crédito: Ana Muniz

Já o técnico em Metalurgia Patrick Souza, que costuma usar as ladeiras que levam ao templo para praticar corrida, admite saber pouco sobre o lugar: “Só por alto. Sei da parte dos jesuítas e também da mão de obra escrava, mas não muito detalhadamente”.

O Convento da Penha começou a ser construído há mais de 460 anos, a princípio como uma capela dedicada a São Francisco de Assis. As primeiras obras foram realizadas por indígenas catequizados por jesuítas. Mais tarde, escravos deram continuidade à obra.

Ruínas do local onde os escravizados moravam podem ser vistas do Convento da Penha.
Ruínas do local onde os escravizados moravam podem ser vistas do Convento da Penha. Crédito: Ana Muniz

Luiz Paulo Rangel, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV), afirma que o local possuía em torno de 60 negros escravizados, número maior que o de qualquer outro convento. Ruínas do local onde essas pessoas eram abrigadas ainda podem ser vistas no entorno da edificação.

Fonte do Imperador

Fonte de Inhoá, localizada na Prainha, em Vila Velha, próxima à área da Marinha.
Fonte de Inhoá, localizada na Prainha, em Vila Velha, próxima à área da Marinha. Crédito: Acervo do IHGVV

Se você for à Prainha, provavelmente também ouvirá falar da Fonte do Inhoá, também chamada de Fonte do Imperador. Conhecida por ser um dos lugares que Dom Pedro II visitou em sua passagem pelo Espírito Santo, em 1860, a fonte teve um papel importante no período colonial. Foi responsável por abastecer Vila Velha, tornando-se a primeira fonte urbana do Estado, e funcionou até a chegada da água encanada, em 1910.

A fonte está localizada nos fundos da área da Marinha, com acesso pela Rua de Inhoá, no Centro canela-verde. Moradora da Prainha, a aposentada Rosanea Teixeira conta que passear com o neto pelos pontos turísticos e relembrar histórias é um hobby. Rosanea diz ter aprendido muitas delas em conversas com vizinhos, como a da passagem de Dom Pedro II pela Fonte do Inhoá.

“Acho um crime aquilo não ser divulgado nem ter infraestrutura para receber turistas e criar um ponto turístico”, defende a aposentada. O presidente do IHGVV afirma que há um projeto para a restauração da fonte e a criação de um parque de contemplação. A proposta já foi encaminhada ao comando da Marinha, responsável pela área.

Cais dos Padres localizado na Prainha, em Vila Velha, em 1910.
Cais dos Padres localizado na Prainha, em Vila Velha, em 1910. Crédito: Acervo do IHGVV

A “capitoa”

Algumas histórias, mesmo com iniciativas de preservação, escapam do conhecimento popular. Exemplo disso é Luiza Grinalda, a primeira e única mulher a governar uma capitania-hereditária no Espírito Santo e no Brasil. Era nora de Vasco Fernandes Coutinho e comandou o Estado entre 1589 e 1593.

Devido à sua relevância histórica, o nome de Luiza batizou uma rua da Prainha nas proximidades no convento. Em 2016, ela ganhou uma estátua em sua homenagem por iniciativa do IHGVV. Segundo Rangel, a obra é fruto da colaboração entre o escultor Hippólito Alves e a escritora Bernadette Lyra, autora de “A Capitoa”, livro que conta a história de Luiza mesclando historiografia e ficção. “A Bernadette ia no ateliê do Hippólito. Ele moldava e ela dava pitacos”, conta o historiador.

Estátua de Luiza Grinalda localizada na Casa da Memória.
Estátua de Luiza Grinalda localizada na Casa da Memória. Crédito: Larissa Fontes

O resultado desse processo criativo é uma estátua cheia de referências. Uma delas faz alusão ao momento em que Luiza expulsou o corsário inglês da rainha Elizabeth I, Thomas Cavendish. Para representar esse episódio, foi colocado o rosto de um leão em frente ao pé direito da “capitoa”. “Não é à toa que esse leão está lá.”, explica Luiz, acrescentando: “É porque ela colocou o reino dos leões aos pés dela”.

Apesar das homenagens, o presidente do IHGVV diz que a figura é pouco conhecida entre os capixabas. Marcos Vinícius Siqueira, 59 anos, marceneiro nascido em Vila Velha, foi criado em uma casa na Rua Luiza Grinalda. Mesmo assim, nunca ouviu falar da capitoa. “Nunca tive a curiosidade de buscar informações sobre ela”, revela.

*Esta matéria é uma produção das alunas do 28º Curso de Residência em Jornalismo, sob orientação da editora de conteúdo Mariana Gotardo e do coordenador do curso, Eduardo Fachetti.

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