Para quem gosta de conhecer a história do Espírito Santo ou é apenas um curioso, ou até mesmo precisa estudar isso, mas quer fazer de uma maneira mais prazerosa e não convencional, o livro “Lembranças do Rio Marinho – Aspectos da história e memória de um rio capixaba”, de Juliano Motta da Silva (Editora Milfontes, 2019), é uma boa pedida.
O livro começa com o resgate das informações históricas e a importância do Rio Marinho no século XVIII quando da chegada dos padres jesuítas que promoveram a ligação, através de um canal, com o rio Jucu, tornando possível a navegação e o transporte de mercadorias, bens e equipamentos, das fazendas produtoras de gêneros agrícolas até o Colégio de São Thiago, hoje a sede do governo estadual, o Palácio Anchieta, em Vitória.
Além da navegação, o Rio Marinho colaborou para o abastecimento de água em Vitória nos fins do século XIX. Em meados do século XX, com obras de saneamento, suas águas eram tratadas para servir de fonte de abastecimento para a Grande Vitória. Até a década de 1970, quando este sistema foi abandonado. Os moradores ribeirinhos utilizavam-no para pesca de subsistência, lavar roupas ou para fins de recreação.
Com uma narrativa detalhada, abordagem interessante das histórias de vida de alguns personagens que viveram parte dessa história, contadas em leves entrevistas, bem como as memórias escritas de tempos remotos, como a de viajantes estrangeiros que percorreram o litoral brasileiro e os quase oito quilômetros de extensão desse pequeno rio capixaba, que percorre o território capixaba no sentido sul-norte, desde a confluência entre os rios Formate e Jucu, até a foz na Baía de Vitória, promovendo o limite entre os municípios de Cariacica e Vila Velha.
A leitura da história do Marinho, resultado da reunião de fragmentos desconectados de informações que faziam referência ao rio, permitiu ao autor, de maneira muito competente, estruturar cronologicamente a história deste importante rio urbano, por meio da subdivisão dos fatos históricos em períodos marcados pela transformação da paisagem empreendida pelo homem.
Além disso, fazendo uso da história oral, com deliciosas entrevistas de quem viveu tempos marcantes dessa trajetória. Lembranças de antigos moradores que no passado mantinham relações com o rio, a fim de verificar perdas, permanências e potencialidades.
FUTURO DOS RIOS
A edição desta obra é bem oportuna, uma reflexão sobre os problemas e possíveis soluções para as cidades cortadas por rios. No Brasil, inúmeros são os exemplos de rios em meio urbano, a exemplo do Marinho, que foram descaracterizados, poluídos. Fonte de problemas constantes, especialmente ao se tratar de enchentes urbanas, como as que assolaram em especial o Sul do Espírito Santo, cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, em janeiro deste ano.
A inauguração da Rodovia Carlos Lindenberg, ligando o centro de Vila Velha à cidade de Vitória, primeira rodovia asfaltada do Estado, inaugurada pelo presidente Getúlio Vargas em setembro de 1951, fez alavancar o crescimento urbano, com a formação de novos bairros adjacentes à via, entre eles Cobilândia, que foi lançado no mesmo dia da inauguração da rodovia.
Cobilândia, a futura “Manchester Brasileira”, slogan do lançamento. O que motivou a escolha desse nome, deixarei para o leitor descobrir. Outras curiosidades importantes e históricas estão muito bem narradas pelo autor Motta Silva, e, posso garantir, excelentes.
Através do seu olhar apurado, o autor Juliano Motta Silva, mestre em arquitetura e urbanismo, com espírito de pesquisador e sentimento de pertencimento, deixa muito bem registrado o seu desejo e de muitos de que o Rio Marinho possa ter a sua dignidade recuperada.
Disseminando aos capixabas a esperança de que o Rio Marinho, no futuro, permita às novas gerações a plena reconciliação, voltando a ser navegável, com farta presença de peixes, e que volte a ser ouvida em suas margens a algazarra das famílias se banhando em suas águas límpidas como de outrora.
SERVIÇO:
- Palestra sobre o livro com o autor, o mestre em Arquitetura e Urbanismo Juliano Motta Silva, capixaba de Cobilândia, Vila Velha.
- Dia 29 de abril, às 19h, na Academia de Letras de Vila Velha, na Prainha de Vila Velha.
- Serão distribuídos por senha, gratuitamente, 40 exemplares da obra autografada pelo autor.
- Produção: Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha-IHGVV. Apoio: Academia de Letras de Vila Velha