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Filme "MC Jess", de Carla Villa-Lobos, foi considerado o melhor filme pelo Júri Técnico na edição de 2018  da Mostra Mulheres do Festival de Cinema de Vitória. Crédito: Divulgação/Andressa Guerra

Festival de Vitória: um recorte do cinema feito por mulheres

Até o dia 14 de setembro, no YouTube, a Mostra Itinerância Feminina exibe filmes das cinco edições da Mostra Mulheres no Cinema

Publicado em 04/09/2021 às 02h00
  • Saskia Sá

    É roteirista, diretora, escritora e ilustradora

Mulheres lutaram e ainda lutam muito para que seus olhares rompam as fronteiras de um território, ocupado majoritariamente por homens brancos, cis, héteros e habitante do lado norte do planeta. O que somos vem sendo moldado por esse território audiovisual há mais de um século.

Novas perspectivas de realizadoras mulheres diversas nos mostram o quanto estivemos limitadas neste enquadramento por olhares que não os nossos. As mulheres que fazem cinemas falam com outras vozes, olham com outros olhares, enquadram outros planos e narram outras vidas possíveis. Mesmo entre mulheres não sofremos as mesmas dores nem lutamos as mesmas lutas.

Desde a primeira edição da Mostra Mulheres no Cinema do Festival de Cinema de Vitória, nossa curadoria sempre se pautou por um olhar diverso. Já há alguns anos ela é realizada por mim, Hégli Lotério e Bárbara Cazé, e buscamos descobrir qual é o olhar predominante de cada leva de filmes que nos conduz a selecionar o que será exibido.

Na 1ª edição da Mostra, em um grito de basta ao olhar fetichizador masculino sobre a violência contra a mulher, o vencedor foi “Dentro de casa” de Yasmin Nolasco, com uma protagonista negra que sofre gaslight do companheiro.

Na 2ª edição, questões de identidade racial, memória e pertencimento tiveram relevo. O vencedor de 2017 foi “Revejo” de Láisa Freitas, no qual a diretora investiga a sua experiência de negritude.

Documentário
Filme "Revejo", de Láisa Freitas. Crédito: Divulgação/Festival de Cinema de Vitória

Em 2018 a diversidade predominou. O melhor filme pelo Júri Técnico foi “Mc Jess” de Carla Villa-Lobos, sobre uma poeta negra e sapatão. Receberam menções honrosas os filmes “Em busca de Lélia” de Beatriz Vieirah, sobre sua busca pela ancestralidade inspirada por Lélia Gonzales, e “Fofa” de Flora Pappalardo, sobre ressignificação de corpos gordos.

2019 foi marcado pela diversidade regional. A curadoria selecionou curtas que olhavam para mulheres em relação com suas comunidades. O vencedor do júri técnico “Deus te dê boa sorte” de Jaqueline Farias, traz um recorte da vida das parteiras da comunidade indígena Pankaru. “Afeto” de Gabriela Gaia Meirelles e Tainá Medina, olha a arquitetura das cidades no embate com os corpos femininos.

Festival de Cinema de Vitória
Filme "Deus te dê boa sorte", de Jaqueline Farias. Crédito: Divulgação/Festival de Cinema de Vitória

Em 2020 com a pandemia que nos impôs o isolamento e o luto, os filmes nos mostraram questões tão diversas quanto suas perspectivas narrativas: “Angela” de Marília Nogueira, traz a solidão das mulheres na terceira idade e o alívio da amizade. “Seremos ouvidas” de Larissa Nepomuceno, mostra a urgência de políticas de apoio às mulheres surdas contra as violências que sofrem.

“Minha história é outra” de Mariana Campos, sobre a autoestima e o amor entre mulheres negras, vencedor pelo júri técnico. “Esmalte Vermelho Sangue” de Gabriela Ataf, apropria-se do discurso publicitário em um paralelo entre a violenta modelagem dos corpos para adequação aos padrões e os relacionamentos abusivos, foi melhor filme pelo júri popular e recebeu menção honrosa.

Festival de Cinema de Vitória
Filme "Esmalte Vermelho de Sangue", de Gabriela Ataf. Crédito: Divulgação/Festival de Cinema de Vitória

Na seleção especial da Mostra Itinerância Feminina trouxemos oito filmes vencedores das cinco edições: “Dentro de casa” de Yasmin Nolasco, “Revejo” de Láisa Freitas, “Mc Jess” de Carla Villa-Lobos, “Em busca de Lélia” de Beatriz Vieirah, “Fofa” de Flora Pappalardo, “Deus te dê boa sorte” de Jaqueline Farias, “Afeto” de Gabriela Gaia Meirelles e Tainá Medina e “Esmalte Vermelho Sangue” de Gabriela Ataf.

As histórias das e pelas mulheres dos filmes das cinco edições da Mostra Mulheres no Cinema são armas potentes de uma pedagogia profana ao revelar novas escritas territoriais das mulheres. É preciso manter olhos e ouvidos receptivos às narrativas dos cinemas explosivos de todas as mulheres, desnaturalizando as violências de um sistema que vira as costas para nossas vidas há tempo demais.

Queremos mais filmes feitos por mulheres que apontam novos rumos a serem trilhados com bússolas inéditas. Outros corpos, outras dores, outras alegrias e outras formas de amar são possíveis e reais e ainda sofrem opressões arcaicas num país que continua a exterminar as diferenças de fome, desesperança, peste e bala.

Com realização da Galpão Produções Artísticas e Culturais e do Instituto Brasil de Cultura e Arte – IBCA, o projeto conta com recursos da Lei Aldir Blanc, via Edital de Seleção de Projetos e Concessão de Prêmio “Cultura Digital” – Apoio à Produção de Conteúdos Digitais no Estado do Espírito Santo, por intermédio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult ES), direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, governo federal.

A Mostra Itinerância Feminina está disponível até o dia 14 de setembro no Canal de YouTube do Festival de Cinema de Vitória no endereço https://www.youtube.com/user/ibcavix .

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