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Vida

Os homens de senso comum são mais felizes que os outros

Eles acabam dotados de um certo descompromisso com precisão, detalhes, dados, estatísticas, metodologia e toda a parafernália que dificulta a vida dos mais eruditos

Publicado em 09 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

09 jan 2020 às 04:00
Danilo Carneiro

Colunista

Danilo Carneiro Danilo Carneiro
Senso comum Crédito: Divulgação

Em um jantar de confraternização para advogados nos idos de 2005, um querido amigo, depois de algumas taças de vinho, anunciou que revelaria ao nosso pequeno grupo o segredo da felicidade. Feito o silêncio necessário para tão preciosa revelação ele, em um tom messiânico e didático, explicou que para ser realmente feliz é preciso a combinação de três fatores: nascer rico, viver ignorante e morrer de repente!

Não sei exatamente por que, mais essa alegoria ficou na minha cabeça por anos. Até que, em 2016, fui visitar o mesmo amigo num hospital em que era submetido a um tratamento inócuo na tentativa de conter agressivo câncer de pulmão. Obviamente, não ousei lembrá-lo do “segredo da felicidade”. Àquela altura ele teria apenas mais quatro meses de vida. Por ironia cruel, sendo ele grande intelectual e atravessando uma “morte lenta”, restava-lhe, na trilogia da felicidade, o fato de ser muito rico; uma única perna em um tripé bastante improvável para a maioria dos mortais.

Quando entrei no quarto, um tanto constrangido, ele me disse: senta aí, acabei de trocar um parecer jurídico por um misto quente com aquele enfermeiro que saiu agora. Por recomendações médicas, eles não podem me servir essas coisas, mas você sabe que sou persuasivo. Disse-me, ainda, que gostava muito de conversar com aquele enfermeiro, pois ele era um “homem de senso comum” e isso lhe trazia certa paz.

Seguiu-se daí uma conversa cheia de cuidados e platitudes. Despedi-me dizendo que o próximo encontro seria para celebrar o fim daquele tratamento com um belíssimo vinho escolhido por ele e pago por mim. Não foi possível. Desde então, sempre reflito sobre a filosofia escondida naquela recomendação de felicidade.

Por que nascer rico, viver ignorante e morrer de repente seriam, juntos, segredo para a felicidade? Tal receita evitaria o sofrimento e impediria uma reflexão mais profunda sobre os problemas da vida? É isto? Não sei. Seria ousadia demais uma opinião conclusiva. Entretanto, suspeito, como o meu amigo, que os homens de senso comum sejam mais felizes. A falta de profundidade sobre temas afetos à ciência, religião, artes, economia, filosofia e outros atrelados a conhecimentos mais sofisticados, confere a estes homens uma proteção contra maiores perturbações.

Eles acabam dotados de um certo descompromisso com precisão, detalhes, dados, estatísticas, metodologia e toda a parafernália que dificulta a vida dos mais eruditos. Sem fazer qualquer juízo de natureza moral, é possível dizer que Lula, Jair Bolsonaro e Donald Trump são homens de senso comum. Pessoas assim repetem coisas como “o problema do pobre é a pobreza, bandido bom é bandido morto, terrorismo se combate com terrorismo e etc...".

Poderiam também dizer que manga com leite faz mal e que contar estrelas causa verrugas. Para eles o mundo é simples, plano e binário. Estão sempre falando contra um tal de “sistema”. De toda essa confusão, sigo com uma dúvida genuína e incômoda: Será que não serão esses homens os portadores da razão? Pois o filósofo Wittgenstein disse, no século passado, o que o meu amigo descobriu no hospital: "Mesmo que todas as questões científicas possíveis sejam respondidas, os problemas da vida ainda não terão sido sequer tocados. Pois os problemas da vida são de escolha e de sentido.” Então… não nasci rico, tenho lutado por toda a vida contra a ignorância, não sei como vou morrer e detesto o senso comum. Como posso ser feliz!?

Danilo Carneiro

Danilo Carneiro Danilo Carneiro

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