Mas que tal se também cancelássemos nosso preconceito sobre uma cultura que, de tão marginalizada, vira a primeira alternativa para salvar a população de uma tragédia?
Temos outros cancelamentos também para propor: salários exorbitantes que beiram o escatológico frente à pobreza extrema do nosso povo. Ainda podemos cancelar a nossa corrupção diária furando filas e dando “jeitinho” em tudo. Podemos cancelar também a nossa falta de educação e cuidado com o lixo que atrapalha o curso das águas.
Acho legal também cancelar nossa irresponsabilidade na hora das construções irregulares. Podemos cancelar, neste momento de dor, nossa hipocrisia de achar que cancelar o carnaval vai salvar o povo. Poderíamos cancelar também nosso discurso contra cultura: o carnaval também é via de protesto.
Nosso carnaval não está aqui da noite para o dia para ser cancelado ao bel-prazer da sua opinião. O carnaval gera emprego e renda e sua existência não vai sobrepujar a dor de ninguém. Desculpem-me, repito, mas cancelar o carnaval não vai salvar ninguém.
O samba pode, neste momento, servir como ferramenta de acalanto. Amansem esse discurso de cancelamento do carnaval, nós sabemos que ele está impregnado de ódio e o que mais precisamos agora é de amor, compaixão e respeito uns aos outros.
Respeito é bom e todo mundo gosta, não adianta cancelar o carnaval e desabrigar os que estão sob essa cultura, que sobrevivem da sua existência. Negar-se a importância do carnaval é negar um traço cultural que une o Brasil.
Por fim, vamos cancelar nossa curta visão, o povo do carnaval também está sensibilizado com a tragédia que está acontecendo, que não é culpa do carnaval, apesar de não ser hora de achar culpados, estamos mobilizados para ajudar aos que mais precisam. Ainda uma última proposta: vamos sair das redes sociais e ajudar no recolhimento de doações, limpeza e reconstrução das cidades?
Vamos cancelar esse desamor e arregaçar as mangas?
*O autor é produtor cultural