Publicado em 13 de setembro de 2025 às 07:32
A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado deve gerar uma reação nos EUA: mais ameaças e sanções como as que foram adotadas contra Alexandre de Moraes sendo agora estendidas aos demais ministros do Supremo Tribunal Federal.>
A avaliação é de Christopher Sabatini, pesquisador sênior do Programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House, um dos principais think tank britânicos, com sede em Londres.>
"Eu acho que o que veremos são mais sanções e ameaças contra os outros ministros da Suprema Corte. E provavelmente veremos mais ameaças até mesmo contra integrantes do governo Lula, incluindo sanções que os impedirão de viajar para os EUA", afirma Sabatini.>
O pesquisador americano avalia que a crise entre Brasil e EUA deve se aprofundar ainda mais depois da condenação de Bolsonaro — com movimentos cada vez maiores do governo Trump para interferir em processos internos brasileiros.>
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Nas palavras do pesquisador, o governo Trump vai tentar "botar o dedo na balança para incliná-la para o lado de Bolsonaro".>
Sabatini acredita que pessoas próximas a Trump vão procurar ajudar o partido de Bolsonaro e os filhos do ex-presidente a conduzir a campanha eleitoral de 2026. O objetivo seria conquistar mais apoio dentro do Congresso para favorecer pautas bolsonaristas — o que poderia incluir, por exemplo, o impeachment de juízes que votaram contra Bolsonaro no STF.>
Para o pesquisador, o voto do ministro Luiz Fux contrário à condenação de Bolsonaro deu ainda mais munição à retórica do governo americano de que o julgamento do ex-presidente foi injusto.>
Sabatini condena o uso por parte dos EUA de sanções e medidas contra o Brasil, que ele chama de abusos contra a soberania nacional.>
"Isso se parece mais com a Rússia de Vladimir Putin e o que ele faz na Geórgia, Romênia, Ucrânia e Belarus", diz ele.>
Confira abaixo trechos da entrevista com o pesquisador.>
BBC News Brasil - Como a condenação de Bolsonaro está sendo vista por outros países?>
Christopher Sabatini - Infelizmente, tudo isso está sendo visto pelo prisma definido hoje pela extrema direita populista.>
Algumas pessoas estão vendo isso [a condenação de Bolsonaro] como uma vitória para a democracia. É a primeira vez, em muitos aspectos, no Brasil, desde o seu governo militar em que houve um processo para punir oficiais militares.>
Isso é realmente visto como um divisor de águas para democratas, cientistas políticos e historiadores.>
Mas vivemos agora na era Trump, bem como na era da ascensão de Nigel Farage no Reino Unido e em outros lugares. E isso é visto agora através do prisma de uma espécie de "lawfare", o uso da lei e do sistema judicial para processar inimigos políticos, independentemente dos fatos.>
Os fatos demonstram claramente, e isso foi mostrado no processo, que Bolsonaro conspirou com pelo menos sete pessoas para derrubar as eleições, e antes disso lançou dúvidas sobre o processo eleitoral sem qualquer prova.>
Isso tudo é visto globalmente agora através de um prisma que é influenciado por Donald Trump e muitos movimentos semelhantes em todo o mundo. E isso é lamentável, francamente.>
BBC News Brasil - O que esperar de reação dos EUA agora que acabou o julgamento? Haverá mais sanções?>
Sabatini - Acho que podemos esperar mais, se você olhar os tuítes do Secretário de Estado Marco Rubio e de seu vice, Christopher Landau, que, aliás, se formou como o primeiro da turma na faculdade de Direito de Harvard.>
Ele aspirava ser juiz da Suprema Corte dos EUA. Seus comentários no X demonstram que ele não aprendeu muita coisa na faculdade de direito sobre independência judicial.>
Não há evidências de que isso [a condenação de Bolsonaro] tenha motivação política.>
Não temos necessariamente que concordar com Alexander de Moraes, e podemos até achar que ele se excedeu em momentos. Mas a reação dos EUA às suas divergências com ele — e talvez essas divergências sejam legítimas — não justifica o tipo de retórica que eles estão usando, de que isso é um abuso de direitos humanos, de que existe um juiz que está promovendo uma caça às bruxas contra um ex-presidente.>
Eles não estão olhando para as provas do que o presidente fez neste caso. O que eles estão fazendo é tentar atacar um sistema judicial independente em uma democracia por causa de um juiz que pode ou não ter ultrapassado limites.>
Eu sou americano e eu não gostaria que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou até mesmo um futuro presidente bolsonarista impusesse tarifas aos EUA ou sanções aos juízes da Suprema Corte dos EUA.>
Isso está simplesmente fora do normal do discurso típico sobre nação, Estados e respeito à soberania nacional, de sistemas judiciais independentes.>
Os EUA agora, eu acho, estarão de olho.>
Acho que a divergência de um dos juízes [no julgamento], Luiz Fux, vai dar um pouco mais de munição. Fux afirmou muito claramente que duvidava da jurisdição da Suprema Corte neste caso e que acreditava que a defesa não teve tempo suficiente para se preparar considerando os volumosos documentos fornecidos pela acusação. >
Isso vai dar combustível a eles [o governo americano]. Eu acho que o que veremos são mais sanções contra outros ministros da Suprema Corte. E provavelmente veremos mais ameaças até mesmo contra integrantes do governo Lula, incluindo sanções que os impedirão de viajar para os EUA. >
[Veremos mais] o uso explícito de sanções como armas — especialmente aquelas que, sob a concepção original da lei Magnitsky, tinham como objetivo basicamente punir autoridades corruptas e que ameaçavam os direitos humanos.>
Isso é um uso completamente indevido e abusivo dessas sanções, mas infelizmente veremos mais delas.>
BBC News Brasil - Os EUA falaram essa semana que Trump não têm medo de usar o poder econômico e até mesmo o militar contra países como o Brasil. Isso causou bastante surpresa. O senhor considera que isso é uma ameaça séria?>
Sabatini - Não, não acho que seja uma ameaça séria.>
Acho que elementos dentro da Casa Branca estão bastante intoxicados por essa demonstração de força na costa da Venezuela, que também é mal definida e baseada em distorções.>
Sim, Nicolás Maduro roubou as eleições do ano passado. Sim, há pessoas no seu governo que estão envolvidos no tráfico de drogas. Sim, é realmente um governo autocrático que reprimiu e prendeu ativistas democráticos independentes.>
Mas aumentar isso e chamá-los de narcoterroristas e usar permissão para matá-los é exagero.>
Eu não consigo imaginar nada disso se aplicando ao Brasil. Eu não consigo imaginar uma intervenção militar neste caso. Acho que é um exagero.>
Mas, dito isso, só o fato de que isso já foi dito e que as pessoas não reagiram dizendo "calma lá, vamos dar um passo para trás" é bastante revelador.>
O que hoje se tornou normal não é normal. Há tanto barulho por aí, tanto exagero, tantas mentiras, que deixamos passar quando as pessoas ultrapassam os limites.>
BBC News Brasil - Você mencionou que o voto de Luiz Fux, na sua opinião, dá alguma munição nos EUA. De que forma?>
Sabatini - Este é um governo que nunca tinha feito isso antes, pelo menos nos EUA. >
E eles [o governo Trump] estão fazendo isso no sistema judiciário dos EUA também. Eles selecionam juízes que votaram a favor e dizem "esse fomos nós que nomeamos". Ou pegam outro que votou contra e dizem: "esse juiz foi indicado por Barack Obama, ou por Joe Biden".>
Antigamente não víamos o sistema judiciário como partidário ou favorecendo alguém. Agora vemos que o governo Trump está loteando o sistema judiciário com juízes e promotores partidários, que carecem de muita ética profissional. E agora estão acusando o Brasil de fazer a mesma coisa.>
O fato de que eles apontarem para juízes individualmente é profundamente perigoso.>
BBC News Brasil - Moraes agora não é o único alvo dos americanos. Três outros juízes além dele votaram para condenar Bolsonaro. Essa guerra de sanções contra Moraes deve ser estendida aos demais juízes?>
Sabatini - Ela vai ser estendida a outros juízes. Alexandre de Moraes obviamente era um alvo fácil [aos EUA] por causa de suas batalhas anteriores sobre as questões de banir pessoas do X e suas batalhas com Elon Musk.>
Eles não terão a mesma facilidade adotando sanções contra os demais juízes, mas vimos que eles já sancionaram vários outros antes. Não tão veementemente, não tão criticamente como fizeram contra Alexander de Moraes.>
BBC News Brasil - Por que tudo isso é tão importante para Trump e para o governo americano? Por que eles estão indo tão longe nas ações contra o Brasil?>
Sabatini - É uma boa pergunta. Por quê? Muitas vezes os EUA não prestam muita atenção à América Latina. E essa não é a atenção correta a se dar.>
Donald Trump vê uma certa dose de irmandade com Bolsonaro. Alguém que está sendo perseguido incorretamente. Há uma dose de solidariedade.>
Acho que o outro argumento é que Alexandre de Moraes baniu um site de mídia social de propriedade de Trump.>
Em todo o governo, o que estamos vendo é que outras pessoas se alinham [a Trump]. O subsecretário de Estado, Christopher Landau, por exemplo, é um diplomata sério, um jurista sério. Mas Trump é tão errático, personalista e raivoso, que todo o resto do governo acaba se enquadrando [no que ele pede].>
Muitas pessoas veem isso como um momento de criação de um movimento político global com a mesma verve política de Donald Trump.>
BBC News Brasil - Qual é o risco de todas essas ações dos EUA influenciarem a política interna no Brasil? Há conversas no Congresso brasileiro para aprovação de uma anistia que beneficie Bolsonaro. E pessoas falando em um indulto presidencial no caso de uma vitória de um candidato bolsonarista nas próximas eleições. As pressões americanas podem ajudar essas iniciativas?>
Sabatini - Sim, acho que sim. É isso que veremos. Donald Trump tem um exército de conselheiros, incluindo Donald Trump Junior, Steve Bannon, e outros que irão ao Brasil para aconselhar o PL e os filhos de Bolsonaro sobre como montar uma campanha para se concentrar em 2026.>
Eles podem não conseguir ganhar a Presidência. Veremos o que acontece e quem concorre pelo PL. Mas se eles conseguirem uma maioria significativa no Congresso, eles poderão pressionar não só por anistia, mas também pelo impeachment de juízes que votaram contra Bolsonaro.>
Isso não é apenas lawfare, mas batalhas eleitorais partidárias abertas nas quais o governo Trump vai colocar o dedo na balança para incliná-la a favor de Bolsonaro e tentar reverter essa decisão.>
BBC News Brasil - Uma ação assim seria uma intervenção de uma grande potência no processo eleitoral de outro país.>
Sabatini - Sim. Os EUA têm uma longa e triste história de intervenção na América Latina. Essa intervenção veio por meio de intervenções militares ou guerras por procuração como na Baía dos Porcos, tentativas de golpe ou apoio a golpistas.>
Muitas pessoas pensavam que, com o colapso da União Soviética, a era da intervenção havia terminado e que o objetivo seria defender processos democráticos locais.>
Não importava tanto quem vencia eleições e o que os tribunais faziam, desde que fossem independentes.>
Agora, cruzamos um novo limite e esta é uma forma diferente de intervenção. Isso é abertamente partidário.>
Sendo sincero, isso se parece mais com a Rússia de Vladimir Putin e o que ele faz na Geórgia, Romênia, Ucrânia e Belarus.>
Isso parece uma tentativa de distorcer instituições democráticas, quebrá-las, gerar desconfiança, semear confusão e desinformação, para construir um conjunto de aliados partidários que não estão apenas comprometidos com os valores dos EUA ou com os valores da democracia liberal, como esperávamos na década de 1990.>
Mas comprometidos com uma visão muito específica de Donald Trump, que é anti-woke, antiesquerdista e uma desconsideração pelas instituições e pelos freios e contrapesos do poder executivo.>
BBC News Brasil - O julgamento de Bolsonaro acabou e espera-se mais pressão dos EUA. No ano que vem, há eleições no Brasil. Para onde a crise entre Brasil e EUA está indo? >
Sabatini - Isso tudo é inédito. Continuo dizendo isso, não me canso de repetir. Eu acho que não sabemos exatamente para onde estamos indo.>
Há várias coisas que sabemos que nos ajuda a entender o que vai acontecer. A primeira coisa é que sabemos que Donald Trump odeia perder. Ele não vai desistir. Nós percebemos isso no tom e na retórica.>
Veremos agora um esforço maior nas eleições de 2026. O foco agora é manter bola rolando e um esforço sobre as eleições, para tentar construir um movimento eleitoral para tentar controlar o Supremo Tribunal Federal, para que ele esteja mais alinhado.>
Eu não acho que Trump vai recuar.>
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