Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 09:10
Depois de lançar um ataque no estilo "choque e pavor" na Venezuela, Donald Trump agora parece estar entrando no ramo da reconstrução nacional.>
Em uma coletiva de imprensa extraordinária realizada na manhã de sábado em seu resort em Mar-a-Lago, o presidente anunciou que forças americanas haviam capturado com sucesso o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa durante uma operação noturna em Caracas.>
Em seguida, Trump afirmou que uma equipe que inclui o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, trabalhando com venezuelanos, passaria a assumir o controle do país em crise.>
"Nós vamos administrar o país até que seja possível fazer uma transição segura, adequada e criteriosa", disse.>
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O que exatamente significa "administrar o país" ainda não está claro, mas a promessa representa uma mudança abrupta de rumo do presidente, repleta de contradições e obstáculos intimidadores.>
Um presidente que fez campanha contra "guerras eternas", que criticou duramente esforços anteriores dos EUA de mudança de regime e que prometeu implementar uma política externa de "America First" ("EUA em primeiro lugar") agora aposta sua presidência no sucesso da reconstrução de uma nação sul-americana cuja economia está em frangalhos e cuja estabilidade política foi minada por décadas de governo autoritário.>
Ainda assim, Trump mostrou-se implacavelmente otimista.>
Ele afirmou que seu governo tem um "histórico perfeito de vitórias" — e que desta vez não seria diferente. Prometeu recrutar empresas americanas do setor de energia para reconstruir a infraestrutura industrial em colapso da Venezuela, gerando recursos para os esforços de reconstrução dos EUA e beneficiando o povo venezuelano.>
Trump não descartou o envio de soldados americanos à Venezuela para avançar nesses esforços. "Não temos medo de enviar tropas terrestres... ontem já as enviamos", disse.>
Trump, um vigoroso crítico da invasão americana ao Iraque, agora terá que prestar atenção às palavras de um dos artífices da Guerra do Iraque, o ex-secretário de Estado Colin Powell (morto no ano passado): "Se você quebra, você paga".>
Os Estados Unidos remodelaram o futuro da Venezuela — para melhor ou para pior.>
Trump assumiu o cargo há quase um ano prometendo ser um pacificador, mas ao longo desse período demonstrou estar mais do que disposto a usar força militar ao redor do mundo.>
Na última semana, ordenou ataques aéreos na Síria e na Nigéria. Em 2025, mirou instalações nucleares no Irã, embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe, forças rebeldes no Iêmen, grupos armados na Somália e militantes islâmicos no Iraque.>
Diferentemente dessas ações anteriores — que em grande parte envolveram mísseis e aeronaves, reduzindo a exposição das forças americanas a riscos — o ataque de Trump à Venezuela, assim como seus compromissos com o futuro do país, são claramente distintos.>
Seu objetivo, disse ele durante a coletiva de imprensa, é "tornar a Venezuela grande novamente".>
Essa adaptação do slogan de Trump "Make America Great Again" — ou Maga — pode ser difícil de engolir para alguns de seus apoiadores.>
A deputada Marjorie Taylor Greene, ex-aliada fiel de Trump que rompeu com o presidente após acusá-lo de abandonar sua base política, foi rápida em condenar a ação nas redes sociais.>
"O repúdio dos americanos à agressão militar interminável do nosso próprio governo e ao apoio a guerras estrangeiras é justificado, porque somos forçados a pagar por isso, e ambos os partidos, republicanos e democratas, sempre mantêm a máquina militar de Washington financiada e em funcionamento", escreveu. "Isso é o que muitos no Maga achavam que tinham votado para acabar. Como estávamos enganados.">
Outro crítico proeminente de Trump, o deputado republicano Thomas Massie, do Kentucky, contrastou a justificativa legal para a prisão de Maduro — por acusações de tráfico de armas e cocaína — com a explicação de Trump de que a operação tinha como objetivo recuperar petróleo americano confiscado e interromper a produção de fentanil.>
A maioria dos parlamentares republicanos se alinhou ao presidente, com o presidente da Câmara, Mike Johnson, descrevendo a ação militar contra um "regime criminoso" como "decisiva e justificada".>
Durante a coletiva de imprensa, o presidente afirmou que a operação na Venezuela avançou suas prioridades de "America First" porque garantiu a segurança regional dos EUA e forneceu uma fonte estável de petróleo.>
Ele resgatou a Doutrina Monroe — uma política externa americana do início do século 19 que defendia que o Hemisfério Ocidental deveria estar livre da influência de potências europeias — e a rebatizou de "Doutrina Donroe".>
A ação na Venezuela, disse Trump, mostra que "a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada".>
O objetivo da nova estratégia de segurança nacional dos EUA, afirmou, é "proteger o comércio, o território e os recursos que são centrais para a nossa segurança nacional". Ele classificou o Hemisfério Ocidental como a "região de origem" dos Estados Unidos.>
A decisão de Trump de capturar Maduro, no entanto, levanta preocupações mais amplas na política global e nas relações dos EUA com outras grandes potências militares do mundo.>
O Ministério das Relações Exteriores da China divulgou um comunicado expressando choque e condenando o que classificou como um ataque imprudente contra uma nação soberana.>
Durante o governo Biden, os EUA fizeram condenações semelhantes à Rússia após a invasão da Ucrânia. Agora, o governo Trump tenta mediar um acordo de paz entre os dois países — um esforço que frequentemente pareceu mais favorável ao lado russo.>
Don Bacon, deputado republicano de perfil centrista que se aposentará ao fim deste ano, expressou preocupação com a mensagem que as ações de Trump podem transmitir.>
"Minha principal preocupação é que agora a Rússia use isso para justificar suas ações militares ilegais e bárbaras contra a Ucrânia, ou que a China use para justificar uma invasão de Taiwan.">
Os críticos democratas de Trump foram mais diretos.>
"Os Estados Unidos não deveriam administrar outros países sob nenhuma circunstância", disse Brian Schatz, do Havaí, que integra o Comitê de Relações Exteriores do Senado. "Já deveríamos ter aprendido a não nos envolver em guerras intermináveis e missões de mudança de regime que trazem consequências catastróficas para os americanos.">
O deputado Hakeem Jeffries, que pode se tornar presidente da Câmara caso os democratas retomem o controle da Casa após as eleições legislativas de meio de mandato em novembro, afirmou que Maduro é um criminoso e um ditador com um histórico de violações de direitos humanos. Ainda assim, condenou a decisão de Trump de não consultar líderes do Legislativo antes de lançar o ataque.>
"Donald Trump tem a responsabilidade constitucional de cumprir a lei e proteger as normas democráticas nos Estados Unidos", disse. "É isso que colocar a América em primeiro lugar exige.">
Trump afirmou na coletiva de imprensa que optou por não informar o Congresso porque temia que parlamentares "vazassem" detalhes da operação antes do ataque.>
A operação militar foi considerada um sucesso — sem mortes de americanos e com danos limitados a equipamentos dos EUA. Trump, com sua bravata habitual, descreveu a ação como um "ataque espetacular" e "uma das demonstrações mais impressionantes, eficazes e poderosas da força e da competência militar americana na história dos Estados Unidos".>
Agora, ele aposta sua presidência na continuidade desse sucesso, enquanto os EUA dizem que irão assumir a administração e a reconstrução da Venezuela — embora ainda não esteja claro o que isso significa, na prática. Trump e sua equipe terão de fortalecer um país que vive em turbulência há décadas, ao mesmo tempo em que tentam estabilizar uma região que certamente observará com cautela o que a política externa de Trump reserva para ela.>
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