Publicado em 30 de outubro de 2025 às 06:33
O uso por integrantes do Comando Vermelho (CV) de drones armados para atacar as forças de segurança durante a Operação Contenção no Rio de Janeiro na terça-feira (28/10) indica um ponto de inflexão no tipo de confronto urbano travado entre o Estado e o crime organizado, aponta o ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa.>
"O que aconteceu ontem no Brasil deixou evidente que o campo de batalha mudou, agora vai se disputar o céu", afirma Uchôa, que também é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.>
Segundo o especialista, o Estado não tem mais a supremacia do espaço aéreo urbano como no passado, com organizações criminosas com amplo acesso a drones e ao conhecimento técnico necessário para transformá-los em armas.>
Ainda de acordo com Uchôa, os traficantes estão próximos de dominar a tecnologia dos drones de primeira pessoa (First Person View – FPV), que permite ataques mais precisos e mortíferos.>
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"Já trabalhei na Polícia Civil e na Polícia Federal, mas não queria estar na rua nesse momento", diz o pesquisador. "Tenho preocupações sérias com essa nova realidade.">
"Esses equipamentos são fabricados majoritariamente na China e vendidos livremente. É muito fácil comprar ou importar. Mesmo que se tente restringir, há manuais online para fabricá-los com impressoras 3D", afirma.>
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Imagens divulgadas pela Polícia Civil mostram os veículos aéreos não tripulados sobrevoando os policiais e lançando granadas durante a ação nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio.>
A operação, que envolveu cerca de 2,5 mil policiais, deixou mais de 121 pessoas mortas, incluindo 4 policiais, e 113 presos, segundo os números oficiais das Polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro. A ação da terça-feira foi a operação policial mais letal já registrada no país. >
Movimentos de direitos humanos classificam a operação como chacina e questionam sua eficácia como política de segurança. >
O grande número de vítimas também foi criticado pelo Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas, que se disse "horrorizado" com a operação nas favelas.>
"É assim que a polícia do Rio de Janeiro é recebida por criminosos: com bombas lançadas por drones", declarou Cláudio Castro. Não há informações sobre feridos após os lançamentos.>
O uso de drones pelo CV já era monitorado pela polícia. Há registros de traficantes da organização criminosa usando o equipamento para monitorar e planejar um ataque à milícia do Jardim Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em julho.>
Antes disso, as autoridades já haviam identificado a utilização de drone para lançar uma granada por integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP), organização rival do CV, na comunidade da Congonha, em Turiaçu (RJ).>
Mas segundo Uchôa, essa foi a primeira vez que drones armados foram usados para atacar as forças de segurança. O pesquisador relaciona o ato com uma rápida e perigosa curva de aprendizado sobre técnicas de conflito.>
O processo começou há anos, mas atingiu um novo patamar com o uso de explosivos e passou por três grandes fases de evolução: primeiro, os drones eram usados para transporte de drogas ou objetos em presídios, ou através de fronteiras. >
Depois, para monitoramento de rivais e forças policiais; e agora, chegam à fase em que se tornam armas capazes de lançar granadas e bombas.>
A inspiração, explica o pesquisador, vem diretamente da guerra na Ucrânia.>
"Os ucranianos precisaram criar drones baratos e em larga escala para enfrentar o poder militar russo", afirma. "Mas hoje a tecnologia não demora mais para passar de um país a outro. Todo o conhecimento está disponível online.">
E o Brasil não é o único país da América Latina onde os equipamentos estão sendo aproveitados pelo crime. No México, cartéis como o Jalisco Nueva Generación (CJNG) e o de Sinaloa, escalaram rapidamente seu uso. >
O CJNG tornou-se pioneiro ao armar drones com explosivo plástico C4 e estilhaços improvisados para atacar rivais, chegando a institucionalizar essa capacidade com a criação de uma unidade especializada, os "Operadores Droneros".>
Uchôa ressalta, porém, que o uso de drones na Ucrânia já entrou em uma quarta e nova fase com o uso de drones "suicidas", de primeira pessoa guiados por óculos especiais.>
E, segundo ele, essa tecnologia deve chegar às organizações criminosas no Brasil em um futuro próximo.>
"Esses drones são guiados diretamente até o alvo e explodem no impacto. O medo é que passem a ser usados para derrubar helicópteros ou atacar bases policiais", alerta.>
Ele afirma que o avanço é preocupante porque rompe a superioridade aérea que o Estado mantinha. >
"Antes, o domínio era dos helicópteros da polícia. Agora, as facções entenderam que também podem usar o espaço aéreo como campo de ataque", diz.>
Segundo Uchôa, as forças de segurança ainda não têm respostas eficazes para lidar com esse tipo de ameaça. Existem tecnologias que interferem no sinal ou tomam o controle dos drones, mas todas apresentam riscos.>
"Se você derruba um drone carregado com granada, ele pode cair sobre uma casa e matar uma família. É muito diferente de um campo de guerra, que você pode derrubar e não se preocupar com o efeito colateral.">
Além disso, diz, já existem tecnologias que utilizam fibra ótica para barrar tentativas de interferência nos drones.>
O ex-policial defende que o Estado deve investir mais em inteligência e investigação, e não apenas em confronto direto. >
"Não adianta esperar a hora do confronto. É preciso monitorar o mercado, identificar se há pessoas comprando em grande escala", propõe.>
Uchôa vê ainda nas operações policiais de grande escala um retrato de um ciclo que se repete há décadas: confrontos que produzem dezenas de mortos, mas não alteram a estrutura do crime.>
"É o mesmo filme de 30 anos atrás, só que em uma escala maior", critica, afirmando que sempre que é necessário repetir uma operação como essa, é emitido um sinal de que a estratégia não está funcionando.>
Para ele, o verdadeiro motor do crime organizado continua sendo o armamento pesado e o controle de territórios, que permite às facções dominar serviços e até influenciar eleições locais.>
"O problema central do Brasil é a proliferação de armas de fogo. São elas que garantem o poder do crime e o terror nas comunidades", diz.>
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