Publicado em 16 de setembro de 2025 às 05:32
Além das eventuais medidas que os Estados Unidos podem adotar contra o Brasil após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), uma possibilidade é o governo americano classificar facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.>
Essa possibilidade foi citada pela consultoria Eurasia Group em uma lista de sanções potenciais elaborada ainda antes do fim do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).>
Em seu relatório, a Eurasia lembra que a Casa Branca impôs uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e sancionou o ministro do STF Alexandre de Moraes sob a Lei Global Magnitsky.>
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já deixou claro que considera o julgamento de Bolsonaro uma "caça às bruxas" e citou o tratamento ao ex-presidente quando anunciou a sobretaxa às importações brasileiras, que entraram em vigor no mês passado, com algumas isenções.>
>
Na segunda-feira (15/09), o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que o país deve anunciar novas medidas contra o Brasil em breve. >
Na terça-feira da semana passada (09/09), em meio ao julgamento de Bolsonaro, a porta-voz da Casa Branca afirmou que os EUA podem usar seu poder militar e econômico para defender a liberdade de expressão no Brasil e no mundo. O governo brasileiro repudiou a declaração.>
Entre possíveis medidas citadas pela Eurasia também estão suspensões adicionais de vistos para funcionários do governo brasileiro e a aplicação da Lei Magnitsky para outros ministros do STF além de Moraes.>
Em entrevista à BBC News Brasil, o diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, Christopher Garman, disse que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas não parece ser uma decisão iminente, mas pode ocorrer nos próximos meses.>
"O desafio de quando você denomina PCC e CV como organização terrorista é que tem que identificar quais grupos estão ajudando essas organizações. E, dado o tamanho, a sofisticação e a entrada desses grupos no setor privado, não é fácil", observa Garman.>
"Se estendermos o horizonte nos próximos seis a oito meses, acho que a probabilidade aumenta", afirma.>
Tido como a maior organização criminosa do país, o PCC é suspeito de estar por trás do assassinato a tiros, na segunda-feira (15/09), do ex-delegado-geral de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, em Praia Grande, na Baixada Santista. Fontes era tido com um dos principais inimigos do PCC.>
O debate no governo americano sobre designar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas não é novo, e uma eventual decisão não seria motivada exclusivamente pelo resultado no STF, apesar de ter relação com o julgamento.>
"Podemos associar isso como uma sanção relacionada ao julgamento de Bolsonaro", diz à BBC News Brasil o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin.>
"Mas também como uma medida que iria acontecer de qualquer forma, por conta das prioridades dos Estados Unidos", ressalta, destacando o endurecimento do governo americano em relação ao tráfico de drogas.>
O governo Trump já inclui em sua lista de organizações terroristas outros grupos criminosos latino-americanos, como o venezuelano Tren de Aragua e seis cartéis mexicanos.>
Garman, da Eurasia, salienta que o governo Trump está muito focado no combate ao narcotráfico na região, um tema que também é relevante para fins eleitorais domésticos. >
"A presença naval na costa da Venezuela é sinal disso", ressalta.>
Há duas semanas, Trump anunciou que forças americanas atacaram um barco que vinha da Venezuela e transportava drogas ilegais em águas internacionais, matando 11 "narcoterroristas". Na segunda-feira (15/09), anunciou que houve mais um ataque do tipo.>
O governo americano também ordenou o envio de 10 jatos F-35 para Porto Rico a fim de realizar operações contra organizações "narcoterroristas" na região do Caribe. >
O sul do Caribe já tem forte presença militar dos Estados Unidos, incluindo navios de guerra.>
Na segunda-feira (8/9), em reunião virtual entre líderes do grupo Brics, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o envio de forças militares americanas para o Mar do Caribe.>
"[O terrorismo] não pode ser confundido com os desafios de segurança pública que muitos países enfrentam. São fenômenos distintos e que não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito internacional", disse o presidente brasileiro.>
"A presença de forças armadas da maior potência do mundo no Mar do Caribe é fator de tensão incompatível com a vocação pacífica da região", afirmou Lula.>
Em caráter reservado, diplomatas mencionam o temor de que os Estados Unidos utilizem o combate ao narcotráfico e a classificação de grupos como terroristas para justificar operações militares na região.>
>
Em visita a Brasília em maio, o responsável pelo setor de sanções do Departamento de Estado, David Gamble, solicitou formalmente que o Brasil adotasse a designação.>
Em reuniões com representantes do Ministério da Justiça, Gamble argumentou que essas facções criminosas têm conexões com cartéis internacionais e representam uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.>
O governo brasileiro, porém, rejeitou o pedido. O argumento citado na época pelo secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, em entrevistas à imprensa, foi o de que facções como PCC e CV não se enquadram na definição de terrorismo da legislação brasileira.>
A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) brasileira considera terrorismo atos "cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".>
Mas a mesma lei diz que esses atos devem ter "razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião". >
A questão da motivação faz com que essas facções, apesar de suas atividades criminais, não se enquadrem na definição, segundo argumentou o governo brasileiro.>
Esses grupos buscam lucro financeiro por meio de atividades ilícitas, como tráfico de drogas, armas e crimes financeiros, mas não teriam como motivação xenofobia, discriminação ou preconceito. >
Nessa interpretação, sua finalidade seria econômica — não política ou ideológica.>
Na ocasião, Sarrubbo defendeu que o governo brasileiro estava combatendo essas organizações, mesmo sem a designação de organização terrorista.>
"Essa recusa [do Brasil] reflete preocupações de ordem jurídica, política, de segurança e de soberania", diz Brustolin, lembrando que o governo brasileiro reforçou que prefere tratar a questão com políticas internas e cooperação regional.>
"Designar essas facções como terroristas significaria para o Brasil uma ingerência externa no sistema jurídico e de segurança nacional, enfraquecendo a soberania", afirma Brustolin.>
"Essa classificação [também] poderia gerar narrativas políticas adversas, com setores internos criticando uma possível aceitação do governo de pressão externa", complementa.>
>
No entanto, os critérios para denominar um grupo como terrorista variam conforme o país, e os Estados Unidos podem incluir organizações estrangeiras em suas listas de terrorismo unilateralmente.>
Isso aumentaria a gama de sanções que o governo americano poderia adotar contra instituições financeiras que têm negócios com esses grupos.>
"O reconhecimento [das facções criminosas brasileiras] como organizações terroristas facilitaria a aplicação de sanções e cooperação internacional", diz Brustolin, acrescentando que isto poderia favorecer investigações e o congelamento de ativos.>
"Os correspondentes bancários teriam que limitar operações em dólares com instituições e clientes brasileiros considerados de risco, afetando o comércio e as transações financeiras", diz.>
Brustolin também cita sanções secundárias. >
"Empresas estrangeiras que mantivessem negócios com alvos poderiam ser penalizadas pelos Estados Unidos.">
Garman, da Eurasia, lembra que uma eventual designação como organização terrorista criaria "um passivo jurídico para integrantes de instituições financeiras e empresas brasileiras que possivelmente têm negócios com empresas de fachada do crime organizado".>
"É claro que o governo brasileiro está também combatendo o crime organizado", diz Garman. >
"Não é que o governo não queira tomar medidas contra o crime. Mas só a listagem de uma instituição que está fazendo negócios com o crime [já] pode ter implicações reputacionais", acrescenta o analista, apontando para possíveis impactos na imagem de empresas e abalos no setor privado.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta