Publicado em 30 de setembro de 2025 às 05:32
Os super-ricos brasileiros, contribuintes com ganhos milionários, pagam proporcionalmente menos da metade do Imposto de Renda da classe média, mostra um levantamento inédito do Sindifisco Nacional, sindicato que representa os auditores-fiscais da Receita Federal.>
Os dados detalhados para a BBC News Brasil revelam que a tributação da renda dos contribuintes mais ricos apresentou tendência de queda nas duas últimas décadas, recuando quase 40% entre 2007 e 2023, devido aos ganhos mais elevados com dividendos — lucros distribuídos pelas empresas a acionistas que não são tributados no país desde 1996.>
Por outro lado, brasileiros de ganho intermediário estão pagando cada vez mais imposto, devido ao congelamento da tabela do IR, que tem ficado defasada em relação à inflação.>
Com isso, desde 2009, brasileiros milionários, com ganhos mensais acima de 320 salários mínimos, passaram a pagar proporcionalmente menos IR que a classe média — e a diferença entre os dois grupos vem aumentando ao longo dos anos (entenda melhor os números ao longo da reportagem).>
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O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta mudar essa realidade com uma reforma do Imposto de Renda prevista para ser votada na Câmara dos Deputados na quarta-feira (1/10). A proposta é criar um imposto mínimo de até 10% para brasileiros de renda elevada, ao mesmo tempo que aumenta o limite de isenção do IR para rendas mensais de até R$ 5 mil.>
Caso a proposta seja aprovada, brasileiros milionários passarão a pagar um patamar similar ao imposto de renda da classe média (grupo que não é afetado pela proposta de Lula), enquanto brasileiros com ganhos abaixo de R$ 5 mil deixarão de contribuir.>
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O levantamento do Sindifisco mostra que a tributação da classe média não para de subir desde 2010.>
A partir dos dados disponíveis da Receita Federal, o sindicato dos auditores fiscais pôde calcular a alíquota efetiva média de imposto paga por cada faixa de renda de 2007 a 2023.>
A alíquota efetiva é o percentual da renda total que de fato é consumida pelo IR. Por exemplo, se uma pessoa ganhou R$ 200 mil em um ano (cerca de R$ 16 mil por mês) e pagou R$ 20 mil de Imposto de Renda no mesmo período, sua alíquota média foi de 10%.>
Já se um contribuinte ganhou R$ 6 milhões em um ano e pagou R$ 300 mil de IR, sua alíquota efetiva foi de 5%. Ou seja, embora essa pessoa tenha contribuído para a Receita Federal com um valor absoluto maior que contribuintes de renda mais baixa, ela perdeu uma parcela menor de seus ganhos.>
O levantamento do Sindifisco mostra que contribuintes com ganhos acima de 320 salários mínimos por mês em 2023 — o equivalente a R$ 5,068 milhões de renda total naquele ano — pagaram, em média, uma alíquota efetiva de 4,34%.>
É menos da metade do que pagaram aqueles com ganhos mensais entre 5 e 30 salários mínimos (uma renda anual entre 79,2 mil a R$ 475,2 mil em 2023), que foram tributados, em média, em 9,85% no mesmo ano.>
Os dados históricos calculados pelo Sindifisco mostram que a situação era diferente em 2007, quando os dois grupos tinham alíquotas efetivas próximas, sendo que os mais ricos pagavam um pouco mais.>
Naquele ano, os contribuintes com ganho mensal acima de 320 salários mínimos pagavam, em média, alíquota efetiva de 6,9%. E o grupo com renda mensal entre 5 e 30 salários mínimos tinha uma taxa efetiva média de 6,3%.>
O salário mínimo em 2007 era de R$ 380, ou seja, uma renda de 320 salários mínimos significava um ganho anual de R$ 1,459 milhão naquela época. Atualizado pela inflação, seria o equivalente a quase R$ 4 milhões hoje.>
Já uma renda de 5 a 30 salários mínimos de 2007 equivaleria nos dias de hoje, já atualizado pela inflação, a um ganho anual em torno de R$ 61 mil a 370 mil.>
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Segundo o Sindifisco, o que explica o recuo da alíquota efetiva paga pelos milionários nos últimos anos é o aumento da sua parcela de renda que não sofre tributação, principalmente devido aos ganhos maiores com dividendos — parte dos lucros que as empresas distribuem para seus acionistas.>
Ou seja, parte da renda dos super-ricos é isenta de IR e esse tipo de ganho tem crescido.>
Segundo o auditor fiscal Dão Real, presidente do Sindifisco Nacional, o aumento dos ganhos com dividendos é um processo que já vinha ocorrendo antes, mas se intensificou recentemente, após a pandemia de covid-19.>
Ele diz que ainda não está claro a correlação desse processo com a pandemia, mas os dados mostram que, nesse período, os lucros das empresas cresceram mais que outras rendas.>
"Há um crescimento muito expressivo. Quando comparamos o ano de 2020 com o ano de 2023, a gente vê que a renda de lucros e dividendos cresceu 43% e as rendas totais cresceram 31%. Então, a renda isenta cresce mais do que o crescimento normal das rendas totais", ressalta.>
Na outra ponta, nota ele, o fato de a tabela do Imposto de Renda estar há muitos anos sem ser atualizada pela inflação explica o aumento da alíquota efetiva para grupos de renda média e baixa.>
Como os salários costumam ter algum reajuste anual para compensar a inflação, trabalhadores acabam subindo de faixa de contribuição e passam a pagar mais IR, mesmo que seu poder de compra não tenha necessariamente aumentado.>
Desde 2009, a tabela brasileira tem cinco faixas de renda. Após a faixa isenta, a alíquota sobre gradativamente, de 7,5% até 27,5%. >
A taxa mais alta incide sobre ganhos mensais acima de R$ 4.664.68 — esse valor é o mesmo desde 2015, por exemplo.>
"O congelamento da tabela faz com que todas as rendas tributáveis paguem a cada ano um pouco mais de imposto", ressalta Dão Real.>
"No entanto, quando a gente coloca as rendas totais, a gente vê que a alíquota efetiva, que deveria subir sempre em um congelamento na tabela, está caindo para as altas rendas. E essa redução para as altas rendas se dá pela elevação da renda isenta", reforçou.>
Na lei, o limite atual de isenção para todos os brasileiros é de R$ 2.259 e, nos ganhos acima disso, são cobradas alíquotas progressivas até 27,5%.>
Com o mecanismo de "desconto simplificado" adotado pelo governo Lula desde 2023, na prática, a isenção já beneficia quem ganha até dois salários mínimos (R$ 3.036).>
A proposta encaminhada pelo presidente ao Congresso em março é ampliar a isenção do IR para rendas de até R$ 5 mil.>
A reforma prevê ainda reduzir a tributação dos que ganham entre R$ 5 mil e R$ 7 mil — esse limite depois foi ampliado para R$ 7.350 pela comissão especial da Câmara que aprovou o projeto de lei enviado pelo governo, etapa anterior à votação no plenário da Casa.>
Para compensar a perda de arrecadação com essas mudanças, a reforma estabelece um imposto mínimo de até 10% para contribuintes com ganhos a partir de R$ 50 mil ao mês (R$ 600 mil ao ano).>
A proposta do governo é que a alíquota subirá gradativamente de zero a 10%, de forma que o patamar máximo incidirá apenas sobre contribuintes com ganhos acima de R$ 1,2 milhão ao ano.>
O levantamento do Sindifisco indica, por exemplo, que pessoas com renda entre 80 e 320 salários mínimos em 2023 (de R$ 1,267 milhão a R$ 5,068 milhões em valores daquele ano) pagavam alíquota média efetiva de 6,11%.>
Caso a proposta do governo seja aprovada na Câmara e no Senado, essas pessoas passarão a pagar no mínimo 10%.>
Funcionará assim: o contribuinte com renda anual a partir de R$ 1,2 milhão que tiver pago menos do que o patamar mínimo, terá que pagar a diferença até completar a alíquota de 10%, no ajuste anual do IR.>
Se por acaso, a pessoa já tiver contribuído com mais de 10% de sua renda, não terá qualquer cobrança adicional.>
Para o presidente do Sindifisco, Dão Real, a reforma do governo "resolve parcialmente" as distorções da tributação de renda no Brasil.>
Segundo ele, o ideal era que as alíquotas efetivas fossem progressivas, ou seja, quanto maior a renda, maior o IR pago. Com a proposta do governo, porém, a classe média ainda pagará uma alíquota similar a dos ricos.>
Por outro lado, ressalta, a proposta interromperá a alta do IR sobre os contribuintes de menor renda, aumento também provocado pelo congelamento da tabela.>
Segundo o levantamento do Sindifisco, a alíquota efetiva média dos declarantes com renda de até 5 salários mínimos era de 2,66% em 2023, cerca de 12 vezes maior que a de 2007 (0,22%).>
Caso seja aprovada a isenção para rendas de até R$ 5 mil e a tributação menor para rendas de até 7.350, a alíquota média paga pelos que ganham até 5 salários mínimos (atualmente R$ 7.590) terá forte redução.>
"Ou seja, a proposta do governo vai mexer nos dois extremos: vai derrubar a alíquota efetiva dos que ganham até cinco salários mínimos e subir a dos mais ricos", destaca Dão Real.>
O Sindifisco defende que a mudança poderia ser ainda maior, com a correção da tabela do IR pela inflação passada, reduzindo a cobrança sobre a classe média.>
O sindicato apresentou ao Congresso uma proposta em que o imposto mínimo sobre os mais ricos teria alíquota maior, de até 15%, o que cobriria a desoneração de rendas intermediárias.>
O governo, porém, já enfrenta resistências para criar o imposto mínimo de 10%, o que indica ser difícil, no momento, aprovar uma alíquota ainda maior sobre os super-ricos.>
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