Publicado em 6 de novembro de 2025 às 10:27
Promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o aumento da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil foi aprovado por unanimidade nesta quarta-feira (5/11) no Senado e entrará em vigor no próximo ano. >
A mudança já tinha sido aprovada na Câmara dos Deputados em outubro.>
A nova regra deve beneficiar cerca de 15 milhões com isenção ou redução do IR a partir de 2026, servindo como um trunfo eleitoral na tentativa de reeleição de Lula.>
Na outra ponta, brasileiros ricos serão mais tributados, principalmente milionários — segundo o governo, serão 141 mil contribuintes impactados pelo novo imposto mínimo de até 10%.>
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Uma categoria, porém, vai escapar da nova cobrança. A Câmara alterou a proposta enviada pelo governo Lula para excluir boa parte dos ganhos de produtores rurais ricos do futuro imposto mínimo, e o Senado manteve o benefício.>
Apesar da alteração, que diminuirá a arrecadação do governo com o novo imposto mínimo, o Ministério da Fazenda afirma que a reforma do IR terá impacto fiscal neutro — ou seja, a previsão é que a desoneração dos mais pobres será totalmente compensada pelo aumento de tributação dos mais ricos, sem gerar ganhos de receitas. >
Já a Instituição Fiscal Independente estima que haverá impacto negativo de R$ 1 bilhão ao ano, enquanto a consultoria de Orçamento do Senado aponta perda anual de R$ 4 bilhões. >
Para compensar essas possíveis perdas, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) apresentou um projeto de lei para aumentar a tributação das chamadas bets (plataformas de apostas online) e das fintechs (plataformas de serviços financeiros digitais), medida que tem apoio do governo Lula. A proposta, porém, sofre resistência no Congresso.>
Entenda melhor em três pontos as novas regras do IR e quem ganha e quem perde com a mudança.>
O limite atual de isenção para todos os brasileiros é de R$ 2.259. Com o mecanismo de "desconto simplificado" adotado pelo governo Lula desde 2023, na prática, a isenção já beneficia quem ganha até dois salários mínimos (R$ 3.036), cerca de 16 milhões de pessoas.>
Com o aumento da isenção para até R$ 5 mil, a projeção do Ministério da Fazenda é que mais 10 milhões de pessoas deixarão de pagar Imposto de Renda. >
Além disso, cerca de cinco milhões de pessoas com renda entre R$ 5 mil e até R$ 7.350 passarão a pagar menos IR.>
Segundo números apresentados pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao Senado, os 10 milhões que ficarão isentos no próximo ano deixarão de pagar, em média, R$ 3,5 mil de imposto por ano.>
"Eu vejo como um investimento, não como uma isenção ou uma perda de tributação. Pelo contrário, acho que vai aquecer a economia nos municípios e nos estados, especialmente no Nordeste", disse, durante audiência da CAE, em outubro.>
Por outro lado, a maioria da classe média não será beneficiada pela reforma, pois contribuintes com ganhos mensais entre R$ 7.350 e R$ 50 mil não terão redução ou aumento de tributo.>
Esse grupo continuará pagando de acordo com a tabela do Imposto de Renda, com alíquotas que vão de 7,5% a 27,5%.>
Essas alíquotas incidem de forma progressiva sobre as faixas de renda do contribuinte. Com isso, mesmo com o novo imposto mínimo de 10% sobre os mais ricos, parte da classe média continuará pagando uma alíquota efetiva de IR maior que a tributação dos milionários.>
A alíquota efetiva é o quanto da renda total é de fato consumida com o IR. Segundo um levantamento feito a pedido da BBC News Brasil, categorias como bombeiros, policiais militares e professores pagam, em média, mais de 10% de sua renda em IR.>
Os números foram levantados pelo Sindifisco Nacional, sindicato que representa os auditores-fiscais da Receita Federal, a partir dos dados oficiais do IR de 2023 (ano mais recente disponível).>
Segundo esses dados, professores de ensino médio, por exemplo, pagaram em média 10,5% de IR em 2023. Naquele ano, a categoria declarou, em média, uma renda total R$ 121,7 mil, ou seja, a soma dos salários, incluindo o 13º, e eventuais outros ganhos. O valor corresponde a cerca de R$ 10 mil ao mês.>
Outras categorias registram situações semelhantes em 2023, com rendas médias anuais inferiores a R$ 160 mil (cerca de R$ 13 mil ao mês) e alíquotas efetivas de IR acima de 10%.>
É o caso de policiais militares (renda de R$ 133,5 mil e alíquota de 10,67%), bombeiros militares (renda de R$ 157,1 mil e alíquota de 12,16%), técnicos em metalmecânica (renda de R$ 122,5 mil e alíquota de 11,25%), geógrafos (renda de R$ 148,8 mil e alíquota de 10,97%) e bibliotecários (renda de R$ 143 mil e alíquota de 11,07%).>
O imposto mínimo proposto terá uma alíquota progressiva, que começará em zero para os que ganham a partir de R$ 50 mil ao mês (R$ 600 mil ao ano) e chegará ao patamar máximo, de 10%, para os que ganham acima de R$ 100 mil ao mês (R$ 1,2 milhão ao ano).>
Funcionará assim: no ajuste anual do Imposto de Renda, será calculado quanto a pessoa pagou de fato de sua renda em IR.>
Caso o contribuinte tenha declarado renda de R$ 2 milhões, por exemplo, mas tenha pago apenas 5% de sua renda em imposto (R$ 100 mil), ele terá que pagar mais 5% para que sua alíquota efetiva chegue ao mínimo de 10%.>
Segundo estimativas do economista Sergio Gobetti, pesquisador do Ipea, os principais afetados serão os milionários, pois pessoas com renda acima de R$ 600 mil ao ano e abaixo de R$ 1 milhão, já pagam, em média, mais que a alíquota mínima a ser criada.>
De acordo com o Ministério da Fazenda, apenas 141,4 mil contribuintes terão aumento de alíquota para atingir o patamar mínimo. Isso representa 0,06% da população total do País.>
Esses contribuintes pagam atualmente uma alíquota efetiva média de apenas 2,54%>
Contribuintes ricos têm, em geral, alíquotas menores no Brasil, porque parte de sua renda é isenta. É o caso, por exemplo, dos dividendos (lucros distribuídos por empresas a seus acionistas), que deixaram de ser tributados no Brasil em 1996.>
No início do governo, a ideia do Ministério da Fazenda era fazer uma ampla reforma do Imposto de Renda para mudar isso. Mas, diante das dificuldades em aprovar uma reforma que mexeria com muitos interesses, a gestão Lula optou pelo imposto mínimo, como forma de taxar parte das rendas isentas das pessoas mais ricas.>
Uma parcela dos ricos, porém, conseguiu ficar de fora do futuro imposto mínimo. Conforme a BBC News Brasil revelou em julho, a proposta do governo foi alterada na Câmara para proteger grandes fazendeiros do novo tributo.>
Com a mudança no projeto de lei, produtores rurais que declaram seu IR como pessoa física na modalidade de lucro presumido continuarão pagando imposto apenas sobre 20% do seu faturamento, mantendo a maioria dos seus ganhos isentos, mesmo quando tiveram renda anual acima de R$ 600 mil.>
Dados do Sindifisco confirmam que a categoria tem uma tributação menor. Produtores rurais pagaram alíquota efetiva média de apenas 4,66% em 2023.>
Estimativas de economistas obtidas pela BBC News Brasil indicam que a mudança, caso aprovada também no Senado, evitará que esses fazendeiros paguem algo entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões em imposto no ano.>
A expectativa do governo é que o alívio direto no bolso de 15 milhões de brasileiros em 2026 seja um trunfo eleitoral na campanha de Lula pela reeleição.>
A isenção para quem ganha até R$ 5 mil foi uma promessa do petista na campanha de 2022, quando derrotou o então presidente Jair Bolsonaro, que tentava um segundo mandato. >
Bolsonaro, por sua vez, havia prometido, na campanha de 2018, elevar a isenção do IR para quem ganhava até cinco salários mínimos (o equivalente a R$ 4.770 na época). Após não implementar a medida, ele prometeu novamente a mudança ao tentar se reeleger.>
"O governo reeleito de Jair Bolsonaro continuará perseguindo a efetivação dessa proposta e a ampliação da desoneração ao trabalhador. Sem a pandemia e com o crescimento econômico, com responsabilidade fiscal, será possível perseguir o objetivo de isentar os trabalhadores que recebam até cinco salários mínimos durante a gestão 2023-2026", dizia o documento com suas propostas na campanha de 2022.>
Condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro não poderá disputar a presidência em 2026. Ele ainda não definiu qual candidato apoiará contra Lula.>
Para o cientista político Antonio Lavareda, professor colaborador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o atual presidente vai ser beneficiado eleitoralmente pelo aumento da isenção do IR.>
"Para qualquer governante e, sobretudo para os candidatos à reeleição, é bastante importante mostrar o cumprimento das promessas que fez quando obteve o voto do eleitor, no pleito passado. Ou seja, o Lula ter condição de cumprir sua promessa é bastante significativo", destaca.>
Apesar disso, Lavareda ressalta que Lula enfrentará desafios para sua reeleição, já que pesquisas de avaliação mostram que o país está dividido sobre a aprovação a seu governo. Isso indica que uma parcela relevante dos eleitores tende a buscar outro candidato.>
Segundo pesquisa do instituto Quaest de outubro, 37% dos entrevistados consideram a gestão Lula negativa, enquanto 33% consideram positiva. Para 27%, é um governo regular.>
"A gente não sabe hoje quem vai ser o principal candidato de oposição a Lula, mas a gente sabe que ele vai ter um bom tamanho por conta da desaprovação do governo", ressalta.>
Quando Lula anunciou a proposta de aumento da isenção do IR, a medida foi chamada de eleitoreira pelo economista Samuel Pessôa, pesquisador do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e chefe de pesquisa econômica do Julius Baer Family Office.>
Na sua visão, a medida veio num momento de desequilíbrio das contas públicas e tende a agravar esse quadro, provocando aumento de inflação no país.>
O governo, por sua vez, diz que a medida não afetará as contas públicas porque o aumento da tributação dos mais ricos compensará a perda de arrecadação com a desoneração do IR. O Ministério da Fazenda, porém, não divulgou dados detalhados do impacto das mudanças sobre a arrecadação após as alterações feitas na Câmara. >
Outros economistas que estudam desigualdade e tributação elogiam a mudança do IR proposta por Lula, como o pesquisador do Ipea Sergio Gobetti e o consultor do Senado Pedro Nery.>
Segundo eles, a reforma prestes a ser aprovada no Congresso contribui para tornar o sistema tributário mais justo, mas ainda mantém a taxação dos mais ricos em patamares baixos.>
"É uma reforma insuficiente, se a gente parar por aí. Eu vejo essa proposta [aprovada pelo Congresso] como o primeiro passo de uma reforma estrutural mais ampla", defende Gobetti.>
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