Publicado em 16 de abril de 2025 às 18:39
A ex-primeira-dama do Peru Nadine Heredia chegou ao Brasil nesta quarta-feira (16/4), um dia após ser condenada junto ao marido, o ex-presidente Ollanta Humala, por lavagem de dinheiro num processo envolvendo o governo da Venezuela e a construtora brasileira Odebrecht. >
Heredia, que acompanhou o julgamento por videoconferência, havia recebido na terça-feira (15) a concessão de asilo diplomático do Brasil e se abrigou na Embaixada brasileira em Lima, logo após a Corte superior do país determinar a sentença de 15 anos de prisão para o antigo casal presidencial. >
Em seguida, a ex-primeira-dama e um de seus filhos obtiveram um salvo-conduto do governo peruano para deixar o país.>
Mãe e filho pousaram no aeroporto de Brasília no fim da manhã desta quarta. Segundo seu advogado, ela seguiria para São Paulo.>
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Já o ex-presidente Ollanta Humala, que esteve presente no tribunal durante o julgamento, foi encaminhado a uma prisão nos arredores de Lima que já abriga outros ex-mandatários do país, como os ex-presidentes Pedro Castillo e Alejandro Toledo. >
O Terceiro Tribunal Colegiado do Tribunal Superior Nacional concluiu que Humala e Heredia aceitaram fundos de origem ilícita da Venezuela e da Odebrecht para financiar suas campanhas eleitorais de 2006 e 2011. >
A sentença fica aquém da punição solicitada pela Promotoria, que havia pedido 20 anos de prisão para ele e 26 anos e meio para ela - porque Heredia teria tido um papel maior na ocultação dos recursos ilícitos e na lavagem do dinheiro. >
Os promotores afirmam que Humala e Nadine receberam US$ 3 milhões em contribuições ilegais da Odebrecht, usados para financiar sua campanha presidencial de 2011.>
Eles também são acusados de terem recebido US$ 200 mil do então presidente venezuelano Hugo Chávez, de quem eram próximos, para bancar a campanha de 2006, quando Humala acabou derrotado.>
Tanto o ex-presidente quanto a ex-primeira-dama negam qualquer irregularidade e argumentam que houve perseguição política nas investigações no Peru, assim como ocorreu, na visão deles, com a Lava Jato no Brasil.>
A decisão foi tomada após um julgamento que se arrastou por mais de três anos e deixou o Peru com mais um ex-presidente condenado por corrupção, uma situação que se tornou comum para os presidentes do país nos últimos anos.>
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil reforçou que a situação de Nadine Heredia acontece "nos termos da Convenção de Asilo Diplomático, assinada em Caracas, em 28 de março de 1954, da qual ambos os países são parte".>
O acordo foi assinado entre os governos dos Estados membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e permite a concessão de asilo a perseguidos políticos.>
Conhecida no Peru por sua influência sobre o marido enquanto ele era presidente (chegou a ser apelidada de "presidenta Nadine"), Heredia, hoje com 48 anos, foi presidente do Partido Nacionalista e embaixadora da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) das Nações Unidas, promovendo a quinoa, alimento bastante apreciado no Peru.>
Ela chegou a ser cotada para ser uma possível sucessora do marido à Presidência do Peru. >
Na época, Nadine Heredia se defendia dizendo que "ser primeira-dama não é ser uma funcionária pública com funções e atribuições estritamente definidas, o papel tem múltiplos aspectos e algumas esposas de presidentes escolheram ter maior protagonismo e outras, menos. Isso é assim, não só na história do Peru".>
Formada em comunicação e pós-graduada em sociologia, ela conheceu Ollanta Humala em Paris, enquanto os dois viviam na França.>
O casal era próximo a líderes de esquerda da América Latina, como o então presidente venezuelano Hugo Chávez. >
Humala (e Heredia) assumiu o poder sob a constante suspeita de que seu governo enveredaria por um caminho de esquerda chavista (algo que nunca aconteceu, embora eles não tenham conseguido se desvincular totalmente desse rótulo).>
A investigação contra Ollanta Humala e Nadine Heredia começou logo após o fim do mandato presidencial dele, em 2016.>
De acordo com a promotoria, Heredia desempenhou um papel central na lavagem de dinheiro relacionada às campanhas presidenciais de Humala em 2006 e 2011. >
O Judiciário peruano determinou que os líderes do Partido Nacionalista tinham "um modus operandi" para encobrir as contribuições de campanha de Humala, que incluía a inclusão de falsos doadores.>
Heredia seria uma das líderes da organização criminosa que utilizou o Partido Nacionalista como instrumento para legitimar recursos ilícitos provenientes do governo da Venezuela e da Odebrecht. >
Além disso, Heredia foi acusada de ocultar bens adquiridos com esses fundos ilegais - motivo pelo qual, inicialmente, a promotoria pediu uma pena maior a ela do que ao ex-presidente.>
O irmão dela, Ilan Heredia, também foi condenado no esquema.>
Heredia chegou a ser presa em julho de 2017, mas foi liberada em abril de 2018.>
Nos últimos anos, Heredia pediu algumas vezes autorizações para deixar o Peru por questões de saúde, sem sucesso. Ela dizia sofrer de hiperparatireoidismo primário. >
Humala foi eleito presidente do Peru em 2011, após uma primeira candidatura malsucedida em 2006.>
Em 2006, ele concorreu sem sucesso à Presidência com o apoio do falecido líder venezuelano Hugo Chávez. Seu rival na campanha na época, Alan García, acusou-o de querer "transformar o Peru em outra Venezuela".>
Ele tentou novamente em 2011, quando derrotou sua rival Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, e foi eleito presidente, após uma campanha mais moderada na qual apresentou o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em vez de Chávez, como seu modelo.>
Humala contou com o apoio de Chávez para sua candidatura em 2006, quando o líder bolivariano estava no auge de seu poder e mantinha uma política externa ativa contra os EUA e impulsionava a ascensão de forças nacionalistas de esquerda em toda a América Latina.>
De acordo com a sentença que condenou Humala, esse apoio foi mais do que político e assumiu a forma de contribuições financeiras irregulares para a campanha.>
Apesar de a lei peruana proibir contribuições estrangeiras para campanhas presidenciais, o Tribunal constatou que a Venezuela doou fundos para a campanha de Humala em 2006, o que, de acordo com o tribunal, "são fatos típicos e característicos de lavagem de dinheiro" com "origens ilícitas no país da Venezuela".>
Durante o anúncio da decisão, o juiz relembrou o depoimento de testemunhas que indicaram durante o julgamento que Nadine Heredia foi à embaixada venezuelana para receber pastas com dinheiro para financiar a campanha eleitoral de 2006.>
"Esse dinheiro, de nossa perspectiva probatória, tem uma origem ilícita", disse o juiz.>
De acordo com informações publicadas na época, uma empresa venezuelana ligada a Chávez, a Kaysamak C.A., transferiu US$ 87.000 para a comitiva de sua esposa pouco antes do início da campanha de 2006. Esses pagamentos levaram o Ministério Público peruano a abrir uma investigação.>
Humala então reconheceu a existência do dinheiro, mas negou que fosse ilegal.>
No julgamento, o promotor Germán Juárez disse em seus argumentos finais que "há uma grande quantidade de provas" que estabelecem que o dinheiro veio por meio de malas diplomáticas e da empresa Kaysamak".>
"Não se trata de dinheiro que sai do bolso de Hugo Chávez, mas de dinheiro que sai dos cofres do governo venezuelano. Devido à grande quantia, presume-se que se trate de dinheiro ilícito, devido à forma secreta com que foi recebido", disse o promotor.>
Uma das testemunhas, Martín Belaunde Lossio, que trabalhou na campanha de Humala, testemunhou que o dinheiro veio do pagamento de propinas por empresários venezuelanos ao governo de Hugo Chávez para obter contratos com a empresa estatal Petróleos de Venezuela SA (PDVSA).>
De acordo com o Ministério Público, esse dinheiro foi introduzido no sistema bancário peruano "para cobrir os gastos da campanha eleitoral, como publicidade, ingressos, comícios, etc.".>
O tribunal alega ter detectado esforços do casal Humala e de sua comitiva para dar uma aparência de legalidade aos pagamentos da Venezuela que violavam a lei peruana.>
Durante o julgamento, 57 testemunhas negaram ter contribuído para as campanhas presidenciais de 2006 e 2011, apesar de estarem listadas como supostos doadores nas contas.>
No período que antecedeu as eleições presidenciais de 2011, Chávez fez declarações elogiosas sobre Humala, das quais ele tentou se desvincular.>
"Quero ser enfático e claro ao dizer que rejeitamos qualquer apoio de qualquer governo estrangeiro. O problema da campanha nacional no Peru será resolvido pelos peruanos e acho que, nesse caso, os estrangeiros, como se diz no jargão, são da mesma laia", disse ele na época.>
O escândalo da Odebrecht foi um caso de corrupção em massa que abalou a América Latina e atingiu vários governos da região.>
A construtora brasileira estabeleceu uma rede de suborno e financiamento ilegal de campanhas políticas para garantir contratos e obras públicas, às vezes com custos inflacionados.>
O escândalo foi descoberto em 2014 no Brasil com a chamada Operação Lava Jato, uma investigação de lavagem de dinheiro envolvendo inicialmente a empresa estatal de petróleo Petrobras, que acabou levando a uma cascata de investigações e revelações em toda a região.>
O então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi condenado por receber pagamentos da empresa de construção, assim como o ex-vice-presidente do Equador, Jorge Glas. Os processos contra ele foram posteriormente anulados.>
No Peru, o ex-presidente Alejandro Toledo foi condenado e permanece preso por receber propinas da construtora em troca de uma concessão de rodovia. Outro ex-presidente, Pedro Pablo Kuczynski, também é acusado de ligação com o esquema da Odebrecht.>
De acordo com o tribunal que o condenou, estima-se que Humala tenha recebido financiamento da Odebrecht no valor de cerca de US$ 3 milhõe>
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