Publicado em 18 de setembro de 2025 às 11:33
Enquanto a coroação da rainha Elizabeth 2ª era transmitida em salas de estar ao redor do mundo, um menino de seis anos de idade assistia atentamente a uma televisão preto e branco em sua casa, em Nova York.>
Sua mãe, de origem escocesa, estava fascinada diante da tela, sem sair do lugar o dia inteiro, naquele 2 de junho de 1953.>
Aquele garoto era Donald Trump.>
Anos depois, já como empresário do setor imobiliário, Trump relatou, em seu livro Donald Trump - A Arte da Negociação, o impacto que o amor de sua mãe pela família real britânica teve sobre ele.>
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Trump disse ter herdado "o senso de espetáculo" da mãe, a quem descreveu como "fascinada pela pompa e cerimônia, pela própria ideia de realeza e glamour".>
Essa profunda apreciação pela pompa e cerimônia — e seu próprio "senso de espetáculo" — estão em plena exibição durante sua segunda visita de Estado ao Reino Unido nesta semana, na qual Trump retornou ao Castelo de Windsor.>
Donald Trump e a primeira-dama americana, Melania, chegaram ao Castelo de Windsor na quarta-feira (17/09), onde foram recebidos por William e Kate, príncipe e princesa de Gales, respectivamente.>
O convite do rei Charles 3º foi entregue pessoalmente pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, no Salão Oval da Casa Branca, em fevereiro, em um gesto visto como um apelo direto ao amor de Trump pela ostentação. O momento também tinha sua razão de ser: o governo britânico buscava concessões comerciais cruciais em meio ao aumento de tarifas.>
A visita de Trump ao Reino Unido é histórica por si só — ele é o único presidente a ser convidado para duas visitas de Estado, a primeira em 2019.>
Em 2018, durante uma visita de trabalho ao Reino Unido, Trump conheceu a rainha Elizabeth 2ª no Castelo de Windsor, e disse que sua mãe, Mary Anne MacLeod Trump, estava sempre presente em seus pensamentos.>
Fiona Hill, ex-assessora de segurança nacional de Trump, observou em seu livro que o presidente americano frequentemente mencionava a admiração da mãe pela família real britânica. Segundo Hill, conhecer a rainha Elizabeth 2ª durante o primeiro mandato era uma obsessão dele, pois representava "o sinal máximo do que ele, Trump, havia conseguido na vida".>
Pouco depois desse encontro, Trump disse ao jornalista britânico Piers Morgan: "Eu estava chegando e perguntei [à primeira-dama Melania Trump]: 'Você consegue imaginar minha mãe vendo essa cena?' Castelo de Windsor.">
O fascínio de Trump pela realeza britânica também ficou evidente no início de sua carreira, segundo pessoas que o cercavam na época.>
Wes Blackman, planejador urbano que trabalhou com Trump por dez anos na década de 1990 e ajudou a transformar o complexo de luxo de Mar-a-Lago em Palm Beach, na Flórida, em um clube privado, lembra do empresário tentando "despertar" interesse no clube ao mencionar o nome da princesa Diana como possível associada.>
Na época, Trump era visto como um outsider, e o jornal The Palm Beach Daily News citou socialites que estavam céticas quanto ao suposto interesse real no projeto de Trump.>
"Parece uma manobra de Trump para ganhar membros", disse a condessa Helene Praschma, citada pelo jornal. Outros afirmaram que Trump poderia ter oferecido ao casal real o título de membro honorário para obter o glamour que eles representam.>
Uma fonte familiarizada com as iniciativas de marketing na época disse à BBC que Trump ofereceu ao príncipe Charles uma adesão gratuita de um ano a Mar-a-Lago. O príncipe respondeu com uma carta recusando educadamente a oferta, sugerindo, em vez disso, uma doação de caridade para causas ambientais dele. Segundo a fonte, Trump achou a carta "ótima".>
Blackman também lembra da carta e de como Trump ficou obcecado por ela.>
"Sempre foi muito importante para Donald Trump ser visto como alguém bem-sucedido e parte da história", disse. "Ele vive disso.">
Na década de 1980, quando Trump tentava se firmar como novo empreendedor imobiliário em Nova York, os tabloides noticiaram que o príncipe Charles e a princesa Diana estariam interessados em comprar um apartamento de US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 27,5 milhões) na Trump Tower. Segundo diversas fontes, o boato provavelmente foi iniciado pelo próprio Trump.>
Mais tarde, a agência de notícias Associated Press divulgou um desmentido do Palácio de Buckingham, afirmando que "não havia verdade" na reportagem original.>
Dickie Arbiter, porta-voz da rainha Elizabeth 2ª, disse que Trump não estava no radar da realeza naquela época.>
"As pessoas fazem isso desde o início, buscando publicidade por meio da realeza. Fazem comentários estapafúrdios e, a menos que sejam difamatórios, a realeza não reage. Nunca explica, nunca reclama — esse é o mantra deles", afirmou.>
O incidente foi abordado pelo próprio Trump em seu livro Donald Trump - A Arte da Negociação, mas com uma narrativa ligeiramente diferente. Trump escreveu que recebeu uma ligação de um repórter perguntando se era verdade que o príncipe Charles havia comprado um apartamento na Trump Tower.>
Ele destacou que era a semana do casamento do casal real, que considerava "o casal mais celebrado do mundo". Trump alegou ter se recusado a confirmar ou negar o boato, mas afirmou que a reportagem ajudou a promover a Trump Tower.>
Mais de duas décadas depois, Trump teria convidado o príncipe Charles para seu casamento com Melania Knauss, realizado em seu novo salão de baile de 1.800 m² em Mar-a-Lago, inspirado em outra família real. Ao planejar o espaço, Trump se baseou no Salão dos Espelhos de Luís 14, em Versalhes.>
Kristen Meinzer, podcaster que também cobre a realeza britânica, afirma que Trump passou décadas tentando se moldar segundo a realeza e criar uma aura ao seu redor, como se fosse da nobreza.>
"Quando ele comprou Mar-a-Lago (em 1985), basicamente adotou o brasão dos antigos donos", disse Meinzer. "Ele se apresenta como se fosse da aristocracia, como se fosse da realeza, e tem feito isso durante toda a carreira.">
Aos olhos de Trump, o trono britânico tem um status global que ele almeja, afirmam alguns observadores.>
"Eles [a família real britânica] são uma espécie de ápice da alta sociedade da qual ele sempre quis fazer parte, então estar com eles é obter aceitação e legitimidade", diz o cientista político Peter Harris, que escreveu sobre relações transatlânticas.>
"Além disso, ele quer a mídia sensacionalista… são os dois mundos em uma família", acrescenta Harris, professor associado da Universidade Estadual do Colorado.>
Trump pode ir até lá sabendo que receberá adulação, terá ótimas oportunidades para fotos, apertará a mão do rei e ninguém dirá nada de negativo na presença deles, observa Harris.>
Um membro da realeza, em especial, despertou o interesse de Trump.>
Em seu segundo livro, The Art of the Comeback ("A Arte do Retorno", em tradução livre), ele escreveu que seu único "arrependimento no quesito mulheres" era nunca ter tido a oportunidade de cortejar Lady Diana Spencer. Segundo Trump, ela "iluminava o ambiente" e era "uma dama dos sonhos".>
No entanto, de acordo com a ex-apresentadora da BBC Selina Scott, Trump teria tentado namorar a princesa Diana após seu divórcio do príncipe Charles, em 1996, considerando-a "a esposa troféu definitiva". Scott escreveu no jornal The Sunday Times que Diana dizia que Trump lhe causava "arrepios" e estava cada vez mais incomodada com a constante entrega de rosas e orquídeas ao seu apartamento.>
Pouco depois da morte da princesa, em entrevista de 1997 ao radialista Howard Stern, Trump afirmou que poderia ter dormido com Diana. Em 2016, entretanto, negou qualquer interesse romântico e a descreveu apenas como "adorável".>
Os comentários de Trump sobre outras mulheres da família real têm sido mais críticos.>
Em 2012, ele culpou Kate Middleton, hoje princesa de Gales, pelas fotos topless tiradas por paparazzi enquanto ela tomava sol de férias na França.>
Trump também classificou Meghan, duquesa de Sussex, como "terrível" e "desagradável", enquanto ela o descreveu como "divisivo" e "misógino" durante a campanha presidencial americana de 2016.>
Nada disso afetará a visita de Estado, diz Arbiter — a realeza está acostumada a receber todo tipo de líder, e comentários passados não vão intimidá-los.>
"O rei fará Trump se sentir bem-vindo, e Trump será como massinha de modelagem em suas mãos, porque gosta de toda a ideia de uma visita de Estado e da parte cerimonial.">
Quanto a Trump, ele assistiu, quando jovem, à mãe reverenciando a realeza — e agora, 70 anos depois, é ele quem divide os holofotes com eles.>
Reportagem adicional de Pratiksha Ghildial.>
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