Publicado em 19 de novembro de 2025 às 08:04
Após o Congresso americano votar para obrigar o Departamento de Justiça a publicar seus arquivos sobre Jeffrey Epstein, financista condenado por crimes sexuais morto em 2019, o texto chega agora à mesa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.>
Se Trump assinar o texto, como é esperado, esse será o ato final de uma mudança notável e abrupta em sua posição.>
Por meses, Trump rejeitou pedidos para divulgar todo o acervo de documentos do governo sobre Epstein, que também foi condenado por crimes contra uma menor de idade. Em julho, ele descreveu o caso como uma "coisa bem chata".>
Era assim que Trump lidava com a situação até domingo (16/11), quando, em meio a um número crescente de republicanos na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira) sinalizando que votariam pela divulgação, Trump cedeu e os incentivou a apoiar a medida. A guinada abriu caminho para a aprovação massiva de 427 a 1 na terça-feira (18/11).>
>
A reversão de Trump representa um caso raro em que políticos republicanos o pressionam a agir — e a mudar publicamente de posição —, em vez de ser o contrário, o que costuma acontecer.>
Independentemente do que novos arquivos sobre Epstein possam revelar, a disputa expõe fraturas no Partido Republicano e destaca a força da base Make America Great Again (Maga, "Faça a América Grande Novamente", em tradução livre) de Trump.>
Também mostra que, apesar do esforço, Trump teria dificuldade para desviar a atenção dos arquivos de Epstein se não tivesse apoiado a votação.>
"Acho que ele vê que esse é um tema no qual está em desvantagem entre republicanos médios", disse Martha Zoller, apresentadora conservadora de rádio e estrategista na Geórgia, no sudeste dos EUA. >
"Acho que Trump precisava fazer isso neste momento porque quer voltar ao lado certo.">
Uma pesquisa das redes NPR, PBS News e Marist feita no fim de setembro — quando Trump ainda não apoiava a divulgação dos arquivos — indicou que 67% dos eleitores republicanos registrados defendiam a liberação de todos os documentos de Epstein, com os nomes das vítimas ocultados. Outros 18% apoiavam divulgar parte dos arquivos com o mesmo tipo de ocultação.>
"A transparência sobre o que ocorreu é extremamente importante para os eleitores", disse Chris Ager, ex-presidente do Partido Republicano de New Hampshire (no nordeste dos EUA), em entrevista à BBC.>
Ele elogiou a mudança de postura de Trump e afirmou que é sinal de um partido saudável "que pode haver divergência sobre um tema e se chegar a uma conclusão em que essencialmente todos concordam: vamos divulgar os arquivos".>
Durante boa parte do ano, porém, houve divergências duras sobre o tema. A reversão de posição de Trump ocorreu quando crescia a possibilidade de ele enfrentar uma rebelião na Câmara.>
A "desertora" mais conhecida, a congressista republicana Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, afirmou em entrevista na terça-feira (18/11) ao lado de vítimas de Epstein que a disputa "despedaçou o Maga".>
Por causa da oposição contundente de Greene, Trump a chamou de "traidora" na rede social Truth Social. Normalmente, um ataque público do presidente silenciaria a dissidência de um republicano, sobretudo de alguém que busca a reeleição. Mas, num sinal da força política do caso Epstein, Greene reagiu.>
"Ele me chamou de traidora por apoiar essas mulheres e me recusar a retirar meu nome desta petição de liberação", disse Greene. >
A Câmara aprovaria o projeto, afirmou Greene, "porque o povo americano, a quem servimos como representantes aqui no Congresso, exigiu que essa votação acontecesse".>
Greene, que rompeu com Trump pela primeira vez no início do ano, tornou-se a face pública da dissidência crescente dentro do movimento Maga — não apenas sobre Epstein, mas também em outros temas, como os bombardeios dos EUA a instalações nucleares iranianas em junho e o foco contínuo do presidente em guerras no exterior.>
Mas, especificamente no caso Epstein, Greene e outros integrantes do movimento exigiram maior transparência, apesar do desejo de Trump de se concentrar em outros assuntos. Após a aprovação no Congresso, eles podem reivindicar uma vitória concreta.>
"A saga revela o quanto a base republicana exerce poder atualmente", disse a estrategista do partido Rina Shah à NPR. "Os eleitores do Maga estão furiosos.">
"Essa pressão está forçando até os aliados mais fiéis de Trump a se rebelarem. E sinaliza um Partido Republicano cada vez mais populista, no qual a base pode pressionar líderes a agir, ou eles terão de pagar um preço.">
A votação sobre o caso Epstein também ofuscou outras iniciativas da Casa Branca. Na semana passada, Trump anunciou que reduziria tarifas sobre produtos como café, bananas e carne bovina, diante da crescente preocupação dos americanos com o custo de vida.>
"Acho que ele prefere que as pessoas falem sobre esses temas em vez de Epstein", disse Zoller, estrategista republicana na Geórgia.>
Um alto funcionário do governo Trump disse ao site jornalístico Axios que o presidente americano decidiu abandonar a oposição à liberação dos arquivos de Epstein porque a repercussão se mostrava "uma grande distração".>
A própria Greene afirmou que a Casa Branca seguia na direção errada ao resistir à divulgação de mais arquivos de Epstein, em vez de se concentrar em outros temas.>
"É uma direção completamente errada", disse Greene ao site jornalístico Politico. "O incêndio mais urgente é a saúde e a acessibilidade financeira para os americanos. É nisso que o foco deveria estar.">
Enquanto isso, a Casa Branca declarou à BBC que, "ao divulgar milhares de páginas de documentos, cooperar com o pedido de intimação da Comissão de Supervisão da Câmara e com o recente apelo do presidente Trump por investigações adicionais sobre os amigos democratas de Epstein, o governo Trump fez mais pelas vítimas do que os democratas jamais fizeram.">
Mesmo além de Epstein, a influência de Trump no Partido Republicano foi testada — e até contestada nesta semana. Há também sinais de possíveis fissuras.>
Seus esforços públicos para incentivar os líderes de Indiana, no meio-oeste dos EUA, a redesenhar os mapas dos distritos eleitorais para favorecer os próprios republicanos nas eleições de 2026 encontraram resistência no mesmo dia da votação sobre Epstein.>
O Senado de Indiana, controlado pelos republicanos, votou na terça-feira para suspender a sessão até janeiro, sinalizando que não tratará do tema do redesenho eleitoral. A decisão ocorreu apesar da forte pressão de Trump e do governador (também republicano), que pediu aos parlamentares que trabalhassem no redesenho dos distritos.>
Trump chegou a ameaçar apoiar rivais nas primárias contra senadores que se opusessem ao redesenho. Mas, assim como no caso Epstein, houve resistência dentro do partido.>
"Sou parlamentar há 42 anos. Não vou mudar meu voto", disse a senadora republicana Vaneta Becker em entrevista à emissora CNN.>
Referindo-se ao apelido dado aos habitantes de Indiana, Becker afirmou: "Os hoosiers não estão acostumados a ficar em uma posição de chantagem. Isso não é um bom sinal".>
Mas, como observam pessoas próximas a Trump, o presidente americano já lidou com consequências e oposição interna no passado. Apesar da resistência em vários temas, Trump continua sendo a figura mais poderosa do partido.>
"Acho que o presidente será elogiado pelo fato de que a informação será divulgada e estará disponível. No fim das contas, são os resultados que contam, não o processo que nos levou até lá", disse Ager, ex-presidente do Partido Republicano de New Hampshire, em referência aos arquivos de Epstein.>
Trump fez comentário similar em sua rede social na terça-feira à noite, afirmando que não se importa quando os republicanos no Senado aprovam projetos de lei. "Só não quero que os republicanos tirem os olhos de todas as vitórias que tivemos.">
Na quarta-feira (12/11), parlamentares do Partido Democrata na Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes tornaram públicas três trocas de e-mails entre Epstein e sua antiga associada Ghislaine Maxwell — atualmente presa e condenada a 20 anos por tráfico sexual — e entre Epstein e o escritor Michael Wolff, autor de diversos livros sobre Trump.>
O primeiro e-mail divulgado pelos democratas é de 2011 e mostra uma troca entre Epstein e Maxwell.>
Epstein escreve: "Quero que você perceba que o 'cachorro que não latiu' é o Trump... a [nome omitido da vítima] passou horas na minha casa com ele.">
Epstein prossegue, afirmando que Trump "nunca foi mencionado uma única vez", nem mesmo por um "chefe de polícia".>
Maxwell responde: "Tenho pensado sobre isso...">
Um outro e-mail divulgado pelos democratas é de janeiro de 2019, durante o primeiro mandato de Trump, o qual mostra Epstein dizendo ao escritor Michael Wolff: "Trump disse que me pediu para renunciar", aparentemente em referência à suposta filiação ao clube do presidente, Mar-a-Lago. Epstein afirma no email nunca ter sido membro e acrescenta: "Claro que ele sabia sobre as garotas, já que pediu a Ghislaine para parar.">
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que os e-mails foram "vazados seletivamente" por democratas "à mídia liberal, para fabricar uma narrativa falsa e manchar o presidente Trump".>
Trump diz que foi amigo de Epstein por vários anos, mas que os dois romperam relações no início dos anos 2000, dois anos antes da primeira prisão do milionário. O presidente tem negado qualquer envolvimento em crimes ligados a Epstein.>
Em setembro, parlamentares divulgaram uma cópia de um "livro de aniversário" entregue em 2003 a Epstein. O material, entregue ao Congresso por advogados do espólio de Epstein, inclui uma nota supostamente escrita e assinada por Trump.>
Eis o conteúdo da suposta carta, traduzido:>
Narração: Deve haver mais na vida do que ter tudo.>
Donald: Sim, há, mas não direi o que é.>
Jeffrey: Nem eu, já que também sei o que é.>
Donald: Temos certas coisas em comum, Jeffrey.>
Jeffrey: Sim, temos, pensando bem.>
Donald: Enigmas nunca envelhecem, você reparou isso?>
Jeffrey: De fato, isso ficou claro para mim na última vez que te vi.>
Donald: Um amigo é algo maravilhoso. Feliz aniversário — e que cada dia seja outro segredo maravilhoso.>
Donald J. Trump>
Quando a existência da nota atribuída a Trump foi revelada pelo Wall Street Journal em julho de 2025, o presidente americano disse que ela era "falsa" e negou ser o seu autor.>
Trump processou judicialmente repórteres, editores e executivos do jornal, incluindo Rupert Murdoch, dono da News Corp, pedindo indenização de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões). Ainda não houve decisão final sobre o processo.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta