Publicado em 22 de outubro de 2025 às 15:32
Uma Batalha Após a Outra, do cineasta Paul Thomas Anderson, é um dos filmes mais aclamados do ano, com inúmeras críticas elogiosas que o classificam como uma obra-prima.>
E mais: os críticos concordam que não se trata daquele tipo de filme que você assiste mais por obrigação do que por diversão — e que costumam ser difíceis de assistir, mas trazem um certo conforto no final. >
Pelo contrário, o consenso da crítica é de que Uma Batalha Após a Outra proporciona uma experiência cheia de ação e extremamente divertida no cinema. >
"É impossível dizer o quanto esse filme é divertido", afirma Max Weiss na Baltimore Magazine. >
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"É uma viagem incrível", conclui Nick Bradshaw na Sight & Sound. >
Já Caryn James, da BBC, elogiou uma perseguição de carro no filme "que faz você se sentir como se estivesse em uma montanha-russa".>
Adicione a isso o poder do protagonista Leonardo DiCaprio, sem falar nos coadjuvantes Sean Penn e Benicio del Toro, que você terá todos os elementos para um sucesso de bilheteria. >
Ou talvez não. >
Na semana passada, a revista Variety informou que vários filmes recentes voltados para o público adulto não alcançaram o sucesso esperado, entre eles O Bom Bandido e Coração de Lutador. >
Mas o maior fracasso de todos foi Uma Batalha Após a Outra.>
"Embora a arrecadação global de US$ 140 milhões (cerca de R$ 750 milhões) seja impressionante para um filme que é original, com classificação para adultos e quase três horas de duração, Uma Batalha Após a Outra precisaria de aproximadamente US$ 300 milhões para atingir um ponto de equlíbrio", dizia o artigo. >
O orçamento do filme foi de US$ 130 milhões, de acordo com a Warner Bros, estúdio responsável pela obra. Apesar disso, algumas fontes estimam que o valor possa ultrapassar essa cifra em mais de US$ 10 milhões. >
Com os custos de marketing somados, a obra pode registrar "um prejuízo de cerca de US$ 100 milhões", afirma a Variety.>
O artigo inclui uma declaração da Warner Bros contestando os números apresentados pela Variety, mas ninguém diz que o filme esteja fazendo uma fortuna. >
Uma Batalha Após a Outra já está em cartaz há quatro fins de semana desde seu lançamento no fim de setembro, e segundo o site Box Office Mojo, sua arrecadação totaliza US$ 162 milhões. >
Para aqueles que gostariam de ver mais diversidade de filmes autorais nas salas de cinema, esses números parecem, à primeira vista, desanimadores e até mesmo confusos. >
Se o público não aparece para um "passeio de montanha-russa" com Leonardo DiCaprio, vai aparecer para o quê?>
A resposta mais simples é sombria: na era pós-pandemia, quando tantos filmes estão disponíveis nos serviços de streaming, parece que apenas as franquias de grandes sucessos de bilheteria e filmes de terror ainda conseguem levar multidões para o cinema. >
Mas essa é apenas uma parte da história. >
Sob outra perspectiva, a situação de Uma Batalha Após a Outra pode ser vista como motivo de comemoração. >
"Acho que o filme está indo fenomenalmente bem", afirma Charles Gant, editor da Screen International.>
"Justamente porque o público está adorando, o boca a boca é super positivo, e o filme se encaixa bem na experiência premium dos formatos de grande tela. Ele já arrecadou quase o dobro do sucesso anterior de Paul Thomas Anderson, e isso deve aumentar bastante". >
Um ponto a ser lembrado é que o filme certamente terá uma longa vida útil. >
Pode não alcançar os números dos Vingadores, mas fará mais dinheiro nos cinemas após as inevitáveis indicações ao Oscar. E, como filme aclamado que tende a perdurar, ainda vai gerar receitas significativas com relançamentos, streaming e TV. >
Isso não significa que vá se tornar uma mina de ouro para a Warner Bros, mas também não é um fracasso chocante. >
O fato é que Anderson é um cineasta essencialmente autoral e, por mais que os críticos tenham vendido o longa como uma "ação-comédia", Uma Batalha Após a Outra é um filme de arte. >
Seus ritmos frenéticos, a trilha sonora tensa, os personagens profundamente falhos, o conteúdo político intenso e a mistura excêntrica de seriedade e ironia marcam a obra de um roteirista-diretor que está determinado a seguir suas próprias ambições criativas, apesar de resultados não comerciais. >
As críticas e o boca a boca podem ser excelentes, mas o filme ainda é desafiador para quem está em busca de um sucesso de bilheteria na sexta à noite. >
O verdadeiro motivo pelo qual sua bilheteria parece decepcionante é o orçamento astronômico. >
"O alto custo da produção torna difícil alcançar a lucratividade, isso eu admito", disse Gant. >
O maior sucesso de Anderson até então era Sangue Negro, que arrecadou US$ 76,9 milhões em 2007. Na outra ponta, Vício Inerente — que assim como Uma Batalha Após a Outra foi inspirado em um romance de Thomas Pynchon — fez apenas US$ 14,5 milhões em 2014. >
Para a Warner Bros, portanto, assinar um cheque desse volume, mesmo antes de somar os custos de marketing, sempre foi uma grande aposta. >
Então, por que o estúdio acreditava que era um risco que valia a pena correr?>
Alguns filmes, ao que parece, têm valor de formas que não aparecem imediatamente nas planilhas de contabilidade. >
"É o tipo de filme os executivos apontam quando são criticados por não fazerem mais 'filmes de verdade'", diz John Bleasdale, autor de The Magic Hours: The Films and Hidden Life of Terrence Malick.>
"E também serve para atrair mais talentos para o estúdio, que é mais importante do que dinheiro.">
Por mais que os executivos da Warner esperassem por um estouro de bilheteria, é útil para o estúdio manter a reputação de "lar acolhedor" para projetos prestigiados de cineastas queridos. >
Christopher Nolan, por exemplo, trabalhou com a Warner Bros por quase 20 anos, até romper com o estúdio devido a divergências sobre a distribuição de Tenet, em 2020. >
Esse rompimento custou caro à Warner, já que levou Nolan para a Universal, onde ele fez Oppenheimer, um dos maiores sucessos internacionais de 2023. >
Isso explica porque a Warner estava tão ansiosa para assinar contrato com Ryan Coogler, diretor de Pantera Negra e Creed.>
Coogler acabou fazendo Pecadores (2025) com a Warner e o filme se tornou um sucesso de bilheteria. >
Com isso em mente, qualquer projeto que atraia cineastas desse calibre já pode ser visto como um bom investimento. >
"Quando Terry [Malick] fez Cinzas no Paraíso para a Paramout, Charles Bluhdorn, o presidente do estúdio, disse: 'Eu não me importo se nunca ganharmos um dólar com isso. Eu quero que você continue fazendo filmes com a gente'.">
É claro que esse tipo de estratégia a longo prazo só é possível se os outros filmes do estúdio forem lucrativos. >
Felizmente, para a Warner, alguns dos maiores sucessos de 2025 estão em seu catálogo: além de Pecadores, títulos como Um Filme Minecraft, Premonição 6: Laços de Sangue, F1, Super-Homem, A Hora do Mal, e Invocação do Mal 4.>
Se Uma Batalha Após a Outra não tem sido tão lucrativo, ao menos fortaleceu a reputação da Warner como um estúdio aberto a cineastas autorais, consolidou a parceria com Paul Thomas Anderson e rendeu um filme altamente respeitado — e forte candidato na temporada de premiações. >
Além disso, como observa Bleasdale, "eles conseguem fazer o Leonardo DiCaprio aparecer na festa de Natal do estúdio". >
Então, será que o estúdio fez bem em bancar o filme?>
"Considerando tudo que a Warner tem feito neste ano, é uma decisão óbvia", afirma Lucas Shaw em um episódio recente do podcast The Town, sobre a indústria do cinema. >
"Você tem um filme de um grande diretor contemporâneo, com ótimas críticas, e agora, com Pecadores, dois fortes concorrentes aos Oscar. Paul Thomas Anderson [que nunca ganhou um Oscar] pode finalmente levar sua estatueta e você pode chamar isso de vitória, já que outros sucessos cobriram o investimento. Veja, você dirige um estúdio de filmes, precisa estar disposto a dar saltos grandes.">
Toda essa situação lembra O Estúdio, série de comédia da Apple TV criada por Seth Rogen sobre os executivos de Hollywood. Um dos episódios é dedicado ao desespero do chefe de estúdio por alguém que o agradeça no palco do Globo de Ouro — a piada sugere que a indústria cinematográfica não se resume apenas a lucro. >
Há também a cena em que a personagem de Catherine O'Hara resume sua experiência de administrar um estúdio. >
"O trabalho te deixa estressada, em pânico, miserável. Mas quando tudo dá certo e você faz um bom filme, ele é bom para sempre.">
O Estúdio pode retratar Hollywood com certo romantismo, mas, se ainda existem executivos dispostos a gastar mais de US$ 130 milhões para fazer "um bom filme", isso já é motivo de comemoração. >
E talvez Uma Batalha Após a Outra nem tenha sido um grande risco. >
Se você produz uma animação, um filme de super-herói ou uma adaptação de videogame que fracassa, como Smurfs, Flash, não há como se consolar falando de arte e prestígio. >
Mas se você investe dinheiro em um filme de Paul Thomas Anderson, independentemente do que acontecer na bilheteria, você ainda tem um filme de Paul Thomas Anderson.>
E, muito provavelmente, vai se orgulhar disso. De certa forma, é a aposta mais segura que um executivo de estúdio pode fazer. >
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