Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 16:11
A operação de captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos durou poucas horas, mas analistas avaliam que o ato poderá ter consequências que vão bem além da América Latina.>
Estamos entrando em uma nova era global, em que grandes potências se sentirão mais livres para intervir em outros países conforme seus interesses?>
Como a operação em Caracas será lida pela Rússia e pela China, países que também têm buscado influenciar os rumos de nações vizinhas? >
E quais as consequências que a ação dos Estados Unidos podem ter para outros países latino-americanos, como o Brasil?>
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Uma doutrina citada pelo presidente americano Donald Trump horas após a captura de Maduro parece dar algumas pistas sobre essas questões.>
"A Doutrina Monroe é importante, mas nós a superamos em muito", disse Trump em uma coletiva de imprensa.>
"Sob nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.">
A Doutrina Monroe leva o nome de James Monroe, quinto presidente da história dos EUA, que governou entre 1817 e 1825.>
Trump vem indicando uma retomada dessa doutrina — rebatizada sob ele de "Donroe", uma combinação dos nomes Donald e Monroe.>
No documento publicado em novembro que detalha a nova Estratégia de Segurança Nacional americana, o governo Trump diz que "os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no Hemisfério Ocidental".>
A Doutrina Monroe foi concebida em uma época em que potências europeias ainda mantinham várias colônias nas Américas — o Brasil, por exemplo, se tornou independente de Portugal em 1822, durante a presidência de James Monroe.>
Essa doutrina enxergava o mundo a partir de "esferas de influência" exercidas por diferentes potências. Monroe via a América Latina como uma região que deveria ficar sob a influência dos Estados Unidos.>
Por isso, ele disse aos países europeus que encararia qualquer intervenção europeia na América Latina como uma agressão contra os Estados Unidos. Em contrapartida, Monroe se comprometeu a não intervir em conflitos na Europa.>
Em entrevista à rede CBS, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, justificou a operação na Venezuela usando uma expressão que remete às "esferas de influência" da Doutrina Monroe.>
"No século 21, sob a administração Trump, não teremos um país como a Venezuela em nosso Hemisfério, na esfera de controle e ponto estratégico do Hezbollah, do Irã e de todas as outras influências malignas no país e no mundo", disse Rubio.>
Com base na Doutrina Monroe, os Estados Unidos fizeram uma série de intervenções em países como Haiti, Nicarágua, Cuba e Colômbia a partir do século 19.>
Mas foi durante a presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909) que a aplicação desta doutrina alcançou outro patamar.>
Roosevelt argumentava que os Estados Unidos tinham o direito de exercer o papel de "polícia mundial" para conter turbulências ou trocar governos de países próximos que não estivessem alinhados com a Casa Branca.>
Essa interpretação mais ampla da Doutrina Monroe ficou conhecida como o Corolário Roosevelt. E, coincidência ou não, um conflito na Venezuela esteve na origem dessa política.>
Em 1902, potências europeias ameaçavam invadir a Venezuela para exigir o pagamento de dívidas e indenizações. Os Estados Unidos intervieram e evitaram que o conflito evoluísse para uma guerra.>
Por outro lado, a partir desse episódio, a Casa Branca passou a reivindicar o direito de agir para "estabilizar" países vizinhos endividados e evitar a interferência de potências europeias na região.>
O governo Roosevelt também ficou conhecido por outra estratégia que teve grandes implicações para países latino-americanos: a política do "grande porrete" (ou Big Stick, em inglês).>
Roosevelt atribuía a expressão a um provérbio africano, ainda que a origem real da frase jamais tenha sido confirmada: "Fale manso e carregue um grande porrete; você irá longe".>
Na prática, a política consistia em usar força militar para impor os interesses dos Estados Unidos. Uma das aplicações dessa política aconteceu durante a construção do Canal do Panamá (1904-1914), quando os Estados Unidos enviaram navios de guerra à região para garantir a execução da obra.>
Décadas depois, durante a Guerra Fria (1947-1991), houve uma nova onda de intervenções dos Estados Unidos na América Latina.>
Nos anos 1960 e 1970, a Casa Branca patrocinou ou apoiou uma série de golpes de Estado na região, inclusive o de 1964 no Brasil, que deu início a uma ditadura militar que só acabou mais de 20 anos depois.>
Ações semelhantes ocorreram em países como Chile, Argentina e Uruguai, e resultaram na instalação de regimes responsáveis pelo desaparecimento de milhares de opositores, tortura generalizada e outras graves violações de direitos humanos.>
Na época, os Estados Unidos viam os regimes militares na região como uma barreira contra a expansão do comunismo e do socialismo associados à União Soviética, seu grande adversário na Guerra Fria.>
A possível retomada de políticas intervencionistas por parte dos EUA deixou outros países e territórios em alerta.>
Nos dias seguintes à captura de Maduro, Rubio e Trump indicaram que Cuba, México, Colômbia e a Groenlândia podem entrar na sua mira, embora não tenham detalhado qualquer nova operação.>
Cuba, México e Colômbia são hoje comandados por governos de esquerda que condenaram a operação de captura de Maduro — e já foram alvos de intervenções americanas no passado.>
Em uma entrevista ao programa Today, da BBC Radio 4, o ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA Ben Rhodes disse que já via sinais da nova postura da Casa Branca mesmo antes da intervenção na Venezuela.>
Para Rhodes, há um "retorno dos Estados Unidos à esfera de influência na América Latina e em todo o Hemisfério Ocidental, onde, essencialmente, ele [Trump] escolhe os líderes de que gosta e os de que não gosta".>
Rhodes cita os empréstimos que, sob Trump, os EUA concederam ao governo aliado de Javier Milei, na Argentina, bem como o apoio que o republicano declarou a "vários líderes autoritários latino-americanos, enquanto ameaça retomar o Canal do Panamá e bombardear o México e a Colômbia".>
O ex-conselheiro compara o momento atual ao "período anterior à Primeira Guerra Mundial, quando os Estados Unidos, da mesma forma que a Rússia reivindica essa esfera de influência na antiga União Soviética, estão de volta às operações de mudança de regime no Hemisfério Ocidental, o que não terminou bem no passado".>
O Brasil está em uma situação peculiar, segundo analistas.>
Assim como os líderes de Cuba, México e Colômbia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também criticou a operação na Venezuela: disse que os bombardeios e a captura de Maduro "ultrapassam uma linha inaceitável" e "lembram os piores momentos de interferência na política da América Latina".>
Mas, ao mesmo tempo, Lula vinha tendo um bom momento na relação com Trump.>
No ano passado, Trump chegou a impor sanções contra o Brasil e a pedir a anulação do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas, depois de uma série de conversas com Lula, o americano passou a elogiar o líder brasileiro e suspendeu várias destas sanções.>
Para Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia, a captura de Maduro pode atrasar o processo de reaproximação — especialmente negociações nas áreas de tarifas e minerais críticos, que são dois temas em que Lula e Trump vinham dialogando.>
Ele cita outro ponto de atenção: uma possível decisão do governo americano de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Trump tem agido assim em relação a outros cartéis de drogas latino-americanos, como fez com o Tren de Arágua, da Venezuela.>
Cascione diz que, se as facções brasileiras entrarem nessa lista, o risco não seria de ações militares americanas contra o Brasil, mas sim de maiores pressões financeiras e regulatórias sobre o país, algo que também pode complicar a reaproximação, segundo ele.>
O analista lembra que este é um ano de eleição presidencial no Brasil. Em um relatório recente, a consultoria Eurasia afirma que os EUA acompanharão de perto o pleito brasileiro.>
"O risco mais significativo envolve potenciais reações dos EUA a ações do Supremo Tribunal Federal brasileiro percebidas como politicamente tendenciosas contra candidatos de direita", diz a consultoria no documento.>
Segundo a Eurasia, se o Judiciário brasileiro agir de forma agressiva contra candidatos de direita, os EUA podem se sentir encorajados a apoiá-los. >
Ao mesmo tempo, a consultoria afirma que "qualquer resposta [dos EUA] que seja vista como interferência flagrante ou indevida pode ter a consequência não intencional de beneficiar a candidatura de reeleição de Lula".>
Analistas também apontam para possíveis consequências da operação na Venezuela que vão bem além da América Latina.>
Jeremy Bowen, editor internacional da BBC News, escreveu um artigo dizendo que a ação de Trump pode "criar um precedente para potências autoritárias", referindo-se principalmente a China e Rússia.>
Os dois países eram aliados do governo Maduro, criticaram a operação dos Estados Unidos e pediram a libertação do venezuelano.>
Mas Bowen afirmou que, mesmo condenando em público a atitude dos Estados Unidos, China e Rússia podem considerar que a intervenção dá a eles uma brecha para que também usem a força em suas vizinhanças. >
Afinal, "a operação contra Maduro também representa mais um golpe sério na ideia de que a melhor forma de governar o mundo é seguir um conjunto de regras acordadas, conforme estabelecido no direito internacional".>
A Rússia já vem usando a força para impor seus interesses desde que invadiu a Ucrânia, em 2022 — e há temores de que possa realizar novos ataques contra outras nações europeias no futuro.>
A China, por sua vez, pode avaliar que a ação americana na Venezuela legitima uma intervenção chinesa em Taiwan, diz Bowen.>
"Pequim considera Taiwan uma província dissidente e já declarou que devolver o território ao controle chinês é uma prioridade nacional", afirmou.>
A preocupação de que a operação na Venezuela encoraje Rússia e China a iniciativas semelhantes foi citada pelo senador democrata Mark Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado.>
"Se os Estados Unidos afirmam ter o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede Vladimir Putin de apresentar justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia?", questionou o senador, que integra a oposição a Trump.>
"Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a ruir, e regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la." >
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