Publicado em 2 de dezembro de 2025 às 11:44
O ar que paira sobre as águas cristalinas de Palau cheira a sal e fruta-pão. Em manhãs calmas em Koror, centro comercial do arquipélago, o ronco dos motores das embarcações de mergulho ecoa pela baía.>
Há alguns anos, essas embarcações transportavam turistas — muitos da China — atraídos pelas lagoas e cavernas de calcário de Palau. Os hotéis estavam lotados, os restaurantes movimentados e os pescadores mal atendiam à demanda. Mas esse cenário mudou.>
O boom — e o colapso brusco — não foi acidental. Entre 2015 e 2017, os turistas chineses representavam cerca de metade das visitas ao país. Em 2017, porém, Pequim teria ordenado que operadores turísticos deixassem de vender pacotes para Palau, cortando a principal fonte de visitantes das ilhas à época.>
"Comprei novas embarcações para atender ao aumento repentino de turistas", disse um dono de loja de mergulho em Koror. Mas, após o pico do turismo, afirmou ele, esses barcos ficaram "parados na baía", e ele levou anos para recuperar apenas o dinheiro investido.>
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Para as autoridades de Palau, a mensagem era clara. Segundo elas, a China usou seu vasto mercado de turismo internacional como parte de uma campanha para afastar Palau do reconhecimento de Taiwan e aproximar o país de Pequim.>
A BBC procurou o Ministério das Relações Exteriores da China para comentar o assunto, mas não recebeu resposta. A China, porém, já negou diversas vezes usar o turismo como instrumento político.>
Palau é um dos poucos países que ainda reconhecem Taiwan como Estado soberano. Esse reconhecimento desafia um dos pilares da política externa chinesa, o "princípio de uma só China", no qual Pequim reivindica soberania sobre Taiwan.>
Mas a disputa não é apenas diplomática.>
A localização de Palau torna o arquipélago um alvo estratégico para as grandes potências. Ele integra a chamada "Second Island Chain" (segunda cadeia de ilhas, em tradução livre), conjunto de postos avançados que os Estados Unidos consideram crucial para conter a expansão militar da China e responder a eventuais agressões na região ocidental do Pacífico.>
Palau e os EUA mantêm uma parceria antiga: antes de sua independência, em 1994, Palau era território administrado pelos EUA.>
Pelo acordo conhecido como Acordo de Livre Associação, Palau concede aos americanos acesso militar exclusivo em troca de ajuda do governo americano, que inclui o direito de cidadãos de Palau viverem e trabalharem livremente nos EUA.>
Com base nesse acordo, os EUA ampliam agora a sua presença militar no arquipélago.>
A disputa geopolítica entre China, Taiwan e EUA já afeta o cotidiano do pequeno país, que tem menos de 20 mil habitantes.>
"Não importa o que façamos, Palau vai ser o centro de qualquer atividade militar por causa da nossa localização", disse à BBC o presidente do Palau, Surangel Whipps Jr.>
A relação de Palau com Taiwan é profunda.>
Quando Palau se tornou independente, em 1994, Taiwan agiu rápido para garantir um aliado diplomático, afirmou Cheng-Cheng Li, professor assistente da National Dong Hwa University, em Hualien (Taiwan) que pesquisou profundamente as relações entre os dois países.>
A ajuda taiwanesa foi prática: especialistas agrícolas trabalhando lado a lado com os locais, equipes médicas atuam em pequenas clínicas, há financiamento para empreendedores locais e bolsas de estudo para estudantes do Palau em Taiwan.>
Em um país de população pequena, onde o serviço comunitário tem papel central, autoridades de Palau descrevem Taiwan como "parceiro confiável" e "amigo leal".>
A embaixadora de Taiwan em Palau, Jessica Lee, disse à BBC que líderes locais asseguraram que a relação é "sólida como uma rocha até que a morte nos separe".>
Ainda assim, Taiwan tem motivos para se preocupar. Nos últimos anos, a China afastou vários dos antigos aliados de Taiwan. Só na região do Pacífico, Ilhas Salomão, Kiribati e Nauru romperam laços diplomáticos com Taiwan e se aproximaram da China desde 2019.>
O governo chinês vê a ilha governada democraticamente de Taiwan como uma província rebelde que, eventualmente, fará parte do país, e não descarta o uso da força para isso.>
Segundo os analistas, controlar Taiwan é essencial para o objetivo do líder chinês, Xi Jinping, de reverter o que ele chamou de "século de humilhação" da China pelas potências coloniais, segundo analistas.>
"Tanto os EUA quanto Taiwan estão paranoicos e tensos com a possibilidade de Palau mudar de lado", disse Graeme Smith, pesquisador sênior da Australian National University. "Eles vão investir muitos recursos para evitar que isso aconteça.">
As autoridades de Palau e Taiwan afirmam que o governo chinês acionou vários mecanismos para influenciar a posição diplomática do arquipélago.>
Após assumir o cargo, em 2021, o presidente do Palau afirmou publicamente que a China ofereceu "um milhão" de turistas em troca de mudanças na política do país. Ele recusou.>
Em 2024, o ministério das Relações Exteriores da China emitiu um alerta de segurança, e aconselhou cidadãos chineses a "ter cautela" ao viajar para o Palau.>
"Se a China usa o turismo como arma, então é um mercado instável do qual não devemos depender", disse à BBC o presidente de Palau. "Se a China quer ter relação com Palau, pode ter, mas não pode nos dizer que não podemos ter relação com Taiwan.">
A China negou usar o turismo como instrumento político.>
Em um artigo de opinião publicado no ano passado no People's Daily, órgão oficial do Partido Comunista da China, o jornal afirmou que a intenção da China ao emitir o alerta era proteger os seus cidadãos no exterior diante do "crescente número de casos de segurança pública em Palau".>
Disse ainda que as acusações do presidente eram uma tentativa de difamar a China e interferir em assuntos internos.>
Quando questionado em 2017 sobre a proibição de grupos de turistas, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou "não ter ouvido falar da situação".>
Mas em 2024, ao responder sobre o reconhecimento contínuo de Taiwan por Palau, o ministério instou o país a "tomar as decisões corretas que estejam de acordo com seus próprios interesses".>
Embora a China não tenha comentado a suposta oferta de um milhão de turistas, nem todos concordam com a avaliação do presidente Whipps Jr. Muitos moradores ouvidos pela BBC não compartilham a visão de que o turismo foi usado como arma.>
"Ele é muito duro com a China", disse Pai Lee, dono taiwanês de um hotel em Koror. "Não acho correto dizer que a China 'armou' o turismo, eles estão apenas usando isso como moeda de troca, como no xadrez. Países fazem isso o tempo todo.">
Em todo o caso, os efeitos da oscilação repentina no fluxo turístico seguem visíveis.>
O choque econômico após a suspensão dos grupos de viagem foi intenso, mas o impacto ambiental do aumento súbito de visitantes também foi. Segundo organizações de proteção ambiental, Palau não estava preparada para o turismo de massa.>
"Depois do fim da explosão do turismo chinês, fui até lá e os corais estavam mortos", disse Ann Singeo, diretora da Ebiil Society, uma ONG local.>
"Você via [centenas de] pessoas naquela pequena enseada, todas pisando nos corais. Esse foi o preço que pagamos por não ter regras para usar esses recursos de forma respeitosa.">
O turismo é só uma parte da suposta estratégia da China. Pequim também tenta estreitar relações com líderes locais: as autoridades de Palau afirmam ter sido convidadas repetidas vezes para visitas à capital chinesa.>
Em uma dessas visitas, um ex-governante de Palau disse ter perguntado por que Taiwan não poderia se tornar independente.>
"Taiwan faz parte da China", respondeu um funcionário do Partido Comunista Chinês, visivelmente irritado.>
Com a intensificação das atividades militares da China em torno de Taiwan, incluindo patrulhas aéreas e marítimas, os EUA afirmaram que a China está preparando seus militares para serem capazes de invadir a ilha.>
Para conter a possível agressão da China contra Taiwan e monitorar as atividades militares no Pacífico Ocidental, os EUA ampliam sua infraestrutura militar em Palau.>
Ao longo dos anos, os EUA vêm modernizando as pistas de pouso, construindo o sistema de radar tático multimissão de longo alcance (Tacmor, na sigla em inglês) usado para monitorar as atividades militares no Pacífico, e a planeja expandir o porto de Malakal, principal porto de Palau, para receber maiores embarcações militares.>
Porém, os EUA manifestam preocupação com uma vulnerabilidade específica: a aquisição de terras.>
Documentos obtidos pela BBC mostram que várias empresas chinesas arrendaram terrenos e construíram propriedades próximas a essas instalações, desde áreas não desenvolvidas até hotéis com vista para o porto e para o aeroporto principal de Palau.>
Em Angaur, estado ao sul do arquipélago, os EUA constroem atualmente o local receptor do Tacmor, segundo um plano anunciado em 2017. Entretanto, em 2019 e 2020, investidores chineses arrendaram mais de 350 mil metros quadrados de terra após o anúncio da construção do radar.>
Zhuang Cizhong, um desses investidores, propôs a construção de um resort.>
"Fomos visitar a empresa dele na China, e ele apresentou um plano para uma casa de repouso para chineses ricos", disse Marvin Ngirutang, ex-governador de Angaur, que acredita que o governo de Palau deveria trabalhar mais de perto com a China. "Havia folhetos com plantas — parecia legítimo.">
O projeto nunca saiu do papel. Zhuang atribuiu a paralisação à covid-19, mas o governo americano segue em alerta. O embaixador dos EUA em Palau não pôde ser contatado pela BBC, mas já expressou preocupações anteriormente.>
"Em toda a região há vários terrenos agora arrendados a interesses chineses", disse o embaixador Joel Ehrendreich à agência de notícias Reuters. "Não creio que seja coincidência que fiquem fisicamente próximos aos nossos projetos.">
Preocupações semelhantes existem localmente.>
"O receio é que esses investimentos ou arrendamentos não sejam negócios legítimos", disse Jennifer Anson, conselheira de segurança nacional de Palau. "Pode parecer assim externamente, mas, se a China invadir Taiwan, eles poderiam ser transformados em instalações militares.">
Por outro lado, reportagens da mídia chinesa indicam que havia motivos legítimos para incentivar investimentos em Palau. Em 2019, a Phoenix News, emissora ligada ao Estado, destacou as vantagens de adquirir propriedades no país, citando os recursos turísticos abundantes e a legislação flexível.>
A BBC não conseguiu contato com Zhuang. O Ministério das Relações Exteriores da China não respondeu a pedidos de comentário sobre os arrendamentos de terras.>
O crime organizado vinculado à China também se proliferou desde 2018, segundo autoridades de Palau. O presidente afirmou que há uma "batalha constante" e apontou crimes relacionados à China, incluindo golpes, cassinos ilegais e ataques cibernéticos.>
Alguns oficiais afirmam que criminosos exploram a ausência de relações diplomáticas entre China e Palau.>
Wan Kuok Koi, conhecido como "Broken Tooth" ("Dente Quebrado", em tradução livre), líder da infame tríade 14k, com base em Macau, entrou em Palau como investidor estrangeiro em 2018. Posteriormente, o grupo criminoso envolveu-se em suborno, corrupção e jogos de azar online em países, incluindo Palau.>
Além disso, em 2025, o Tesouro dos EUA sancionou várias pessoas em Palau por vínculos com o Prince Group, conglomerado chinês acusado de golpes, lavagem de dinheiro e tráfico humano em larga escala, entre outros crimes.>
O Prince Group não respondeu à solicitação de comentário da BBC, mas havia negado "categoricamente" qualquer envolvimento em "atividades ilícitas", segundo nota divulgada após as sanções dos EUA.>
Muitos desses indivíduos foram incluídos na "lista de estrangeiros indesejáveis" de Palau. Segundo Jennifer Anson, do escritório de segurança nacional, eles contam com a incapacidade da China de rastreá-los devido à ausência de relações diplomáticas.>
"Quando você pesquisa sites da diáspora chinesa no Camboja, onde às vezes se debate a conveniência de se mudar para Palau, os criminosos são atraídos pela falta de presença diplomática da República Popular da China lá", disse Smith, da Australian National University.>
Para muitos palauanos, a disputa geopolítica de alto nível parece distante, mas seus efeitos estão por toda parte. A expansão militar dos EUA, os investimentos chineses e rumores sobre agendas ocultas alimentam um crescente sentimento de apreensão.>
"Esta administração é muito dura com a China, e acho isso ridículo", disse o ex-governador de Angaur, contrário à construção do sistema de radares Tacmor. "Devemos nos concentrar no meio ambiente e menos nas relações China-EUA.">
Uma petição que circula nos últimos meses pede que os EUA detalhem seus planos de contingência em caso de guerra, sinal de como a ansiedade é profunda. O documento solicita que os EUA "tranquilizem o povo de Palau" sobre a proteção de civis caso um conflito estoure.>
"Sabemos como é a geopolítica entre China e EUA", disse um morador. "E temos medo de que nossa ilha seja destruída por uma guerra da qual não queremos fazer parte.">
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