Publicado em 29 de julho de 2025 às 20:25
Milhões de trabalhadores da indústria de vestuário na Ásia — que já enfrentavam dificuldades para garantir o seu sustento — temem, agora, pelos seus empregos, à medida que se aproxima o prazo para que seus países cheguem a um acordo comercial que evite as tarifas punitivas impostas pelos Estados Unidos.>
No dia 9 de julho, após uma pausa de 90 dias para que os países pudessem negociar os seus acordos, o presidente americano, Donald Trump, notificou diversas nações de várias partes do mundo (incluindo o Brasil) sobre as novas tarifas de importação, que devem entrar em vigor no dia 1° de agosto.>
Entre os países asiáticos que receberam cartas de Trump, encontram-se centros de produção de roupas, como o Camboja e o Sri Lanka.>
Estes países dependem profundamente dos Estados Unidos para exportar os seus produtos. E as cartas informavam que as duas nações enfrentariam tarifas de 36% e 30%, respectivamente.>
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Empresas como a Nike, Levi's e Lululemon são algumas das grandes marcas americanas que importam desses países grande parte dos seus produtos.>
"Você pode imaginar o que irá acontecer se perdermos nossos empregos?", questiona Nao Soklin, trabalhadora de uma fábrica de roupas no sudeste do Camboja.>
"Estou muito preocupada, especialmente com meus filhos. Eles precisam comer.">
Soklin e seu marido Kok Taok ganham a vida costurando bolsas 10 horas por dia. Juntos, eles ganham cerca de US$ 570 (cerca de R$ 3.150) por mês — apenas o suficiente para cobrir o aluguel e sustentar seus dois filhos pequenos e os pais idosos.>
"[Quero] mandar uma mensagem ao presidente Trump e dizer a ele que, por favor, suspenda a tarifa sobre o Camboja...", pediu ela à BBC. "Precisamos dos nossos empregos para sustentar nossas famílias.">
O Camboja passou a ser uma alternativa popular aos exportadores chineses, devido à sua mão de obra barata e abundante.>
O país exportou mais de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,6 bilhões) em roupas para os Estados Unidos no ano passado, segundo a Divisão de Estatísticas da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês).>
O setor emprega mais de 900 mil pessoas e representa mais de 10% do total de exportações do país.>
Já no Sri Lanka, as exportações para os Estados Unidos ajudaram a indústria de vestuário local a ganhar US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 10,5 bilhões) em 2024. O setor emprega cerca de 350 mil pessoas e é a terceira maior fonte de moeda estrangeira da nação.>
"Se [30%] for o número final, o Sri Lanka enfrentará problemas, pois nossos concorrentes, como o Vietnã, receberam tarifas mais baixas", declarou à agência de notícias Reuters o secretário-geral do Fórum Conjunto da Associação de Vestuário do Sri Lanka, Yohan Lawrence.>
As autoridades do Sri Lanka têm esperança de negociar uma nova redução das tarifas, mas não revelaram qual nível seria considerado aceitável.>
Alguns dos seus líderes observaram que o país recebeu a concessão mais alta até agora (14 pontos percentuais), como resultado das negociações iniciais.>
"Consideramos esta redução o princípio de uma situação muito boa", declarou na semana passada o ministro da Fazenda do país, Harshana Suriyapperuma.>
Já o Camboja conseguiu uma concessão de 13 pontos percentuais e também procura manter novas negociações.>
"Estamos fazendo todo o possível para proteger os interesses dos investidores e dos trabalhadores", declarou o vice-primeiro-ministro Sun Chanthol, que chefia a equipe de negociação.>
"Queremos que a tarifa seja zero", afirma ele. "Mas respeitamos a decisão deles e continuaremos tentando negociar uma alíquota mais baixa.">
Trump defende que as tarifas são necessárias para reduzir a diferença entre o valor total das mercadorias importadas pelos Estados Unidos e as vendidas para aqueles países.>
"Nosso relacionamento, infelizmente, tem sido longe de ser recíproco", disse o presidente americano em cartas enviadas para os governantes de várias nações e também postadas na sua plataforma Truth Social.>
Mas os analistas discordam. As tarifas impostas por Trump ignoram os benefícios oferecidos aos Estados Unidos pelos acordos comerciais existentes.>
Eles incluem a importação de roupas a preços mais baixos e maiores lucros para as empresas americanas que compram de países como o Sri Lanka ou o Camboja, destaca Mark Anner, reitor da Escola de Administração e Relações Trabalhistas da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos.>
A União Europeia, o Canadá e os Estados Unidos mantiveram em vigor por décadas um sistema de quotas, que reservava uma certa parcela de mercado para países em desenvolvimento, como o Sri Lanka.>
Até 2005, quando foi suprimido, este sistema ajudou o setor de vestuário do Sri Lanka a florescer, apesar da forte concorrência.>
"Agora, a imposição, pelos Estados Unidos, de tarifas proibitivas que efetivamente colocam essas nações fora de mercado contraria o caminho de desenvolvimento antes estabelecido pelo próprio país", explica Anner.>
Não é realista esperar que pequenas economias em desenvolvimento passem a manter déficit comercial em relação aos Estados Unidos, segundo o professor Sheng Lu, do Departamento de Estudos da Moda e Vestuário da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos.>
"Quantos aviões Boeing o Camboja ou o Sri Lanka precisam e podem comprar por ano?", pergunta ele.>
Lu acredita que a rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a China seja outro fator nas negociações comerciais. Afinal, esses países exportadores de roupas estão integrados a cadeias de fornecimento altamente dependentes de matérias-primas chinesas.>
Agora, é preciso "atingir um delicado equilíbrio" entre manter os laços econômicos com a China e atender às novas exigências americanas. Isso pode incluir a suspensão do uso de matérias-primas na produção, segundo o professor.>
As tarifas de Washington aumentam a pressão sobre as conhecidas dificuldades do setor, como a pobreza e a falta de direitos trabalhistas no Camboja e a crise econômica atual no Sri Lanka.>
As mulheres representam sete a cada 10 trabalhadores da indústria de vestuário da região. Elas provavelmente irão pagar o preço das tarifas americanas.>
O aumento da pressão sobre seus salários cronicamente baixos significa que seus filhos poderão passar fome e a possível ocorrência de demissões em massa seria ainda mais devastadora.>
Surangi Sandya trabalha em uma fábrica na cidade de Nawalapitiya, no Sri Lanka. Ela sente que um machado paira sobre sua cabeça.>
"As empresas não trabalham com prejuízo... Se os pedidos diminuírem, se houver perdas, pode haver a possibilidade de fechamento da companhia", receia ela.>
Sandya começou a trabalhar como costureira em 2011 e conseguiu ser promovida, até se tornar supervisora de uma equipe de 70 mulheres.>
Se as pressões aumentarem, alguns trabalhadores cambojanos afirmam que irão pensar em se mudar para a Tailândia em busca de empregos, mesmo se precisarem ir ilegalmente.>
"Nossa sobrevivência depende da fábrica de roupas. Não iremos sobreviver se nosso patrão fechar as portas", conta à BBC An Sopheak, no seu minúsculo quarto de 16 m² na capital cambojana, Phnom Penh.>
"Temos pouca formação", prossegue ela. "Não conseguimos encontrar outros empregos.">
"Rezamos todos os dias para que o presidente Trump suspenda as tarifas. Por favor, pense em nós e no nosso pobre país.">
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