Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 15:12
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu mais um ultimato ao Irã na quinta-feira (19/2).>
O anúncio ocorreu durante a primeira reunião do Conselho de Paz, a coalizão formada por Trump para estabilizar o Oriente Médio, a mesma região onde ele poderá mergulhar em breve em uma nova guerra.>
A ironia da convocação de paz realizada simultaneamente com a ameaça de ações militares destacou os impulsos divergentes que norteiam a política externa de Trump, durante seu segundo mandato.>
O ponto em que esta contradição pode ser observada mais claramente talvez seja o impasse entre Washington e Teerã. >
>
A tensão entre os dois países vem se intensificando rapidamente e, agora, ela poderá levar à maior campanha aérea dos Estados Unidos nos últimos anos. >
Trump declarou que prefere uma solução diplomática, na forma de um acordo que ponha fim ao programa de armas nucleares do Irã. >
Uma autoridade da Casa Branca declarou na quarta-feira (18/2) que seria "muito inteligente", por parte do Irã, chegar a esse acordo.>
Mas, apesar de todas as declarações em favor da diplomacia, Trump elevou sua retórica contra a República Islâmica nas últimas semanas. >
Ele ordenou o que analistas consideram ser o maior deslocamento militar americano no Oriente Médio desde a Guerra do Iraque, em 2023.>
Este é mais um exemplo marcante da disposição de Trump de usar a força militar com mais frequência do que seus apoiadores esperavam durante seu segundo mandato, sem aprovação prévia do Congresso americano.>
A ameaça de Trump de atacar o Irã não pode ser simplesmente menosprezada como uma tática de negociação. Afinal, na última vez em que ele ameaçou um adversário com ações militares, os Estados Unidos atacaram a Venezuela.>
Aquela operação tinha um objetivo militar restrito, pelo menos segundo declarou o governo americano. E terminou com a captura do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no início de janeiro.>
Em relação ao Irã, a lógica que leva a outra campanha militar é muito menos evidente.>
Trump não quer que Teerã desenvolva armas nucleares, uma prioridade compartilhada pelos aliados dos Estados Unidos.>
O Irã está enfraquecido pelas sanções econômicas e pelos protestos em massa contra o regime liderado pelo líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. O país sinalizou que está aberto à negociação sobre a questão do enriquecimento de urânio.>
As conversações indiretas entre os Estados Unidos e o Irã chegaram a um impasse. >
O governo americano defende que Teerã também restrinja seu programa de mísseis balísticos e o apoio a grupos aliados na região.>
>
As negociações podem estar paralisadas, mas Trump não informou por que um novo ataque ao Irã neste momento atingiria seus objetivos, menos de um ano depois do bombardeio de junho passado.>
Trump insiste que o ataque dos Estados Unidos ao Irã em 2025 "obliterou" as instalações nucleares do regime. >
O presidente americano não explicou por que é necessário um novo ataque, se for o caso, ou quais podem ser os novos alvos.>
E, ao contrário da Venezuela, os objetivos mais amplos de Trump no Irã permanecem envoltos em mistério.>
O governo americano quer forçar uma mudança de regime no Irã? Os Estados Unidos estão preparados para uma reação militar iraniana contra bases militares americanas na região?>
Como um conflito prolongado afetaria outros objetivos estratégicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, como o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, liderado pelo Conselho de Paz?>
Trump ofereceu poucos detalhes sobre suas ideias de possíveis cenários após a ação militar. E o papel de Israel em um possível ataque também permanece incerto.>
Israel se uniu aos Estados Unidos no ataque do ano passado e sua participação é novamente esperada, caso Trump lance uma segunda ação militar.>
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se reuniu com Trump na Casa Branca na semana passada para discutir a situação.>
O primeiro discurso oficial do Estado da União do segundo mandato de Donald Trump está programado para a próxima semana. >
Com isso, o presidente americano também enfrenta mais pressões para esclarecer como um possível ataque ao Irã se enquadra na sua agenda política doméstica.>
Trump concorreu à presidência em 2024 com a promessa de retirar os Estados Unidos de conflitos externos. Esta postura é popular entre sua base de apoio e entre muitos republicanos no Congresso que se opõem à intervenção americana em países como a Ucrânia.>
Mas, desde que tomou posse, Trump lançou diversos ataques militares. Eles incluíram ações contra a Síria, Irã e Venezuela, além de navios no mar do Caribe, supostamente carregados com drogas.>
Uma extensa campanha aérea no Irã arriscaria a perda de alguns apoiadores, antes das eleições americanas de meio de mandato, em novembro — justamente em um momento em que as pesquisas de opinião indicam que os eleitores estão cada vez mais frustrados com as ações de Trump em questões como a imigração e a economia. E o presidente também vem atraindo críticas devido ao seu foco na política externa.>
Um grande ataque ao Irã também representaria uma contradição à corrida de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz. Ele declarou que merece a premiação por ter posto fim a oito guerras, desde o início do seu segundo mandato, o que é largamente contestado.>
Não há precedentes de um presidente americano que defenda ativamente sua candidatura para o mais prestigiado prêmio da paz do mundo e, simultaneamente, empunhe o poderio militar do país no exterior.>
Todas estas incertezas deixaram o resto do mundo em dúvida sobre as motivações de Trump ao levar os Estados Unidos para mais perto de uma guerra contra o Irã.>
Mas esta talvez seja exatamente a intenção do presidente americano. Afinal, desde que voltou à Casa Branca, no ano passado, Trump parece apreciar seu papel de negociador-chefe do planeta.>
Ele presidiu diversas cerimônias de assinatura de acordos e cúpulas internacionais, como a reunião do Conselho de Paz em Washington, na quinta-feira.>
Seu regime de tarifas de importação também forçou outros países a buscar acordos comerciais mais favoráveis com os Estados Unidos, o que colocou Trump no centro de importantes negociações para a economia global.>
Em janeiro, Trump atraiu a atenção mundial com o ataque à Venezuela e ao reivindicar que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia, um outro caso em que as nações tiveram dificuldade para interpretar as reais intenções do presidente americano.>
Em relação ao Irã, Trump declarou na quinta-feira que o mundo precisará esperar para ver o que ele poderá fazer.>
"Precisamos chegar a um acordo substancial", ele disse. "Caso contrário, coisas ruins irão acontecer.">
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta