Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 20:10
Nicolás Maduro caiu e os venezuelanos não festejaram. Pelo menos, não na Venezuela.>
O presidente venezuelano foi capturado pelos Estados Unidos, mas não houve grandes reações no seu país. As pessoas retomaram seus afazeres, as ruas permaneceram vazias e o júbilo brilhou pela sua ausência. Houve apenas longas filas no comércio para conseguir produtos básicos.>
Paralelamente, milhares de migrantes venezuelanos no exterior se reuniram em praças e bares, para comemorar com bandeiras e cornetas a queda do mandatário que eles responsabilizam pela crise que os expulsou da sua terra natal.>
Na sexta-feira (2/1), o exército americano bombardeou (para muitos, ilegalmente) diversos pontos do território venezuelano e conseguiu capturar Maduro, após enfrentamentos que deixaram dezenas de mortos.>
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No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que trabalharia com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, em busca de soluções para o país e para a sua poderosa, mas decadente indústria petrolífera.>
Com isso, Trump ignorou a oposição venezuelana.>
Até aqui fiel escudeira de Maduro, Rodríguez assumiu a presidência com o aval das instituições judiciais, políticas e, o mais importante, militares — que os venezuelanos culpam pela deterioração da qualidade de vida, pela precariedade dos serviços básicos e pelo empobrecimento do trabalho no país.>
Maduro, pelo menos, estava algemado e derrotado. O presidente que zombou dos migrantes, perseguiu os dissidentes e liderou a destruição de uma das economias mais pujantes da América Latina havia sido castigado.>
Mas, nas ruas da Venezuela, onde as pessoas passaram anos protestando até se cansarem ou serem detidas pela polícia, tudo seguiu seu curso normal.>
O que é normal na Venezuela?>
Como se explica que uma cultura tão vinculada a festas e à alegria não tenha comemorado a queda do presidente que muitos quiseram derrubar?>
Sociólogos e ativistas venezuelanos afirmam que grande parte desta reação está relacionada às eleições presidenciais de 28 de julho de 2024.>
O pleito deu a vitória a Maduro, mas a oposição, liderada pela ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, apresentou ao mundo evidências de que seu candidato, Edmundo González, teria vencido com larga vantagem.>
Desde aquele dia, o aparato repressivo do governo mostrou sua face mais vigorosa, detendo milhares de pessoas que atuaram como testemunhas e perseguindo qualquer um que manifestasse seu descontentamento nas ruas, na sua vida privada ou nas redes sociais.>
Por isso, como ato de autodefesa, as pessoas decidiram deixar de se manifestar, em público e em privado.>
Katiuska Camargo é líder comunitária popular e experiente do bairro de Petare, na capital venezuelana, Caracas. Ela é o tipo de pessoa que conversa com três dezenas de pessoas nas ruas, todos os dias.>
Para ela, "daquele dia em diante, ficou consolidado o aparato repressivo mais cruel, mais duro, mais brutal e isso resume por que não estamos nas ruas.">
Liguei para ela na segunda-feira (5/1). Camargo caminhava pelo emblemático bairro popular da capital.>
Ela relatou que, nas ruas, havia "homens encapuzados com grandes armas patrulhando e revisando os status das pessoas no WhatsApp".>
Dezenas de barreiras militares proliferaram em Caracas. Jornalistas estrangeiros não podem entrar.>
O Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa relatou que 14 jornalistas foram detidos na manhã de segunda-feira e libertados em seguida.>
Parece haver uma certeza na Venezuela: a repressão não desapareceu com a captura de Maduro. Ela se agravou. E já vinha se agravando.>
O sociólogo venezuelano e ativista dos direitos humanos Rafael Uzcátegui lidera atualmente o centro de estudos Laboratórios de Paz. Poucas pessoas conhecem tanto a mentalidade atual dos venezuelanos quanto ele.>
Para Uzcátegui, "o autoritarismo conseguiu impor um medo estrutural. A prudência não é apatia; é aprendizado social sob repressão.">
"As pessoas geraram um nível importante de consciência e amadurecimento político, baseado nas suas experiências anteriores, quando a mudança também parecia possível", segundo ele.>
Ao longo de 25 anos de chavismo, diversos momentos sugeriram que haveria uma transição. Cada um deles é um mundo à parte.>
Houve a tentativa de golpe contra o então presidente Hugo Chávez (1954-2013), em 2002; a greve dos petroleiros, em 2003; o referendo em que Chávez saiu derrotado, em 2007; a doença e a morte de Hugo Chávez, em 2013; os protestos contra Maduro, em 2014 e 2017; as eleições parlamentares vencidas pela oposição, em 2015; a tentativa de destituição de Maduro pela oposição, em 2019; e as eleições presidenciais de 2024.>
Todos estes cenários geraram a esperança de mudanças, que logo ficaram truncadas.>
É claro que a captura de Maduro é diferente. Trata-se da queda do líder inexperiente, que não era Chávez, que precisou recorrer à repressão e ao isolamento para se manter.>
Sua captura é a evidência mais contundente, em 25 anos, de que pode haver uma transição de governo na Venezuela.>
Mas, a julgar pelas detenções de segunda-feira (5/1), pela presença de patrulhas nas ruas e pelas declarações de Trump, Rodríguez e seus aliados, existem fundamentos para falar em uma "transição sem transição", como definiu o centro de estudos Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, na sigla em inglês).>
Esta seria, portanto, outra transição frustrada, mas com uma diferença. Desta vez, o venezuelano não parece desprevenido.>
Pelo contrário, o cidadão venezuelano aprendeu a gerenciar suas expectativas, sem cair na euforia triunfalista do passado. E, sem ter expectativas, é provável que, desta vez, também não haja decepção, segundo os especialistas.>
"A esperança se mantém, mas, como mecanismo de proteção, o que impera é um hiperceticismo racional", descreve Uzcátegui.>
A antropóloga venezuelana Mariana Vahlis, pesquisadora em doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha, acrescenta que "a quantidade de tentativas de produzir uma abertura democrática gera uma memória histórica do fracasso".>
Para ela, "estas ações em busca de mudanças foram anuladas e, por isso, surge o manejo mais prudente das expectativas".>
Além disso, Vahlis afirma que a crise foi tão forte que desenvolveu uma cultura de sobrevivência, que tenta concentrar a atenção no que é básico.>
"O apego ao cotidiano faz com que as pessoas concentrem sua energia em conduzir as coisas elementares do dia a dia", segundo a antropóloga. "A necessidade de subsistência prevalece sobre todo o resto.">
Nos últimos 25 anos, a Venezuela se transformou em um país dos arranjos, da informalidade, das distorções econômicas, do clientelismo. E os que ficaram se adaptaram. Eles "se viraram", segundo dizem.>
Com isso, surgiu um país, uma economia, uma sociedade à margem da política, enquanto a política fracassava.>
Agora, Maduro caiu e o venezuelano não está nas ruas, nem nas praias. Não comemora.>
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