Publicado em 31 de outubro de 2025 às 07:33
Seja por história, seja pelos estereótipos muitas vezes caricaturizados, quando se pensa em máfia inevitavelmente são os italianos que vêm à cabeça. Pois, de acordo com a ferramenta Global Organized Crime Index, a maneira como a Itália lida com o crime organizado é um exemplo internacional cujas lições podem ser aprendidas por outros países.>
É uma história que remonta a mais de quatro décadas e da qual o Brasil pode também se inspirar na luta contra o crime organizado. Para especialistas, o esforço precisa partir de uma união da sociedade civil com as autoridades.>
E para estancar a organização dos sindicatos do crime é preciso impedir que o dinheiro chegue a eles — ao mesmo tempo, fazer com que eles deixem de exercer um poder territorial sobre suas áreas de atuação.>
Em outras palavras, seria replicar no Brasil o "método Falcone", alcunha dada em referência ao juiz italiano Giovanni Falcone (1939-1992), que foi assassinado quando investigava a organização criminosa Cosa Nostra. Sua morte foi um dos fatores que desencadearam a famosa Operação Mãos Limpas, que ocorreu na Itália.>
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A morte de Falcone não foi um fato isolado no âmbito de investigações contra a máfia italiana. Em 1979, o magistrado Giorgio Ambrosoli (1933-1979) teve o mesmo destino.>
A primeira lição, lembra o economista Andrea Fantini, professor universitário aposentado da Universidade de Teramo, na Itália, é seguir o dinheiro — a expressão "follow the money", que resume técnica de investigação e foi popularizada no filme Todos os Homens do Presidente (1976) . >
"A luta contra a máfia que segue o dinheiro é um método investigativo que ficou famoso graças a Giovanni Falcone", recorda ele à BBC News Brasil. "Seu princípio fundamental era 'seguindo o dinheiro, encontra-se a máfia'.">
O economista explica que essa abordagem se baseia na análise de fluxos financeiros e dos capitais ilícitos e, a partir desses dados, parte para a reconstrução das conexões criminosas, das coberturas políticas às cumplicidades dos policiais corruptos. Segundo Fantini, "organizações mafiosas são, antes de tudo, estruturas econômicas, e não apenas bandos de criminosos violentos".>
Foi este o principal método usado por Falcone e seu grupo antimáfia para conseguir combater a Cosa Nostra.>
O passo a passo do magistrado era focar nos fluxos de dinheiro, com a "intuição de que, ao contrário da droga, que pode desaparecer, o dinheiro deixa um rastro por meio de movimentos bancários e investimentos", explica Fantini.>
Então ele passava a reconstruir o sistema criminoso. "Rastreando o dinheiro, é possível mapear a rede de interesses criminosos e demonstrar que as organizações mafiosas estão interligadas e visam à acumulação de poder e dinheiro", diz o economista.>
A partir de então, desenhava-se uma ferramenta investigativa, ou seja, a reconstrução dessas redes econômicas fornecia provas sólidas que acabaram levando a condenações importantes, combatendo a infiltração da máfia na economia legal.>
Falcone também ficou conhecido por usar delatores e informantes da máfia. O chefe mafioso arrependido mais famoso provavelmente é Tommaso Buscetta (1928-2000), considerado o primeiro ex-integrante da Cosa Nostra a se tornar colaborador da justiça, revelando a estrutura organizacional da máfia.>
Fantini lembra que houve outras figuras de destaque também nesse aspecto, pessoas que acabaram contribuindo "de forma fundamental para desmantelar a cúpula da Cosa Nostra".>
"As operações contra a máfia italiana são consensualmente atreladas à ineficiência do direito penal para atacar problemas estruturais", comenta à BBC News Brasil o advogado criminalista Thiago Turbay. >
"A mobilização do crime organizado, a diversidade de negócios e áreas de influência, as diversas formas de integração entre comunidade e espaços de atuação, a infiltração no Estado, revelam que o aparato de que dispõe o crime organizado é capaz de imunizar as ações policiais, geralmente momentâneas e desarticuladas. A resposta não está no direito penal, no aumento de penas e flexibilização de normas para prender mais.">
"A experiência italiana no enfrentamento à máfia ensina que o combate a organizações criminosas exige articulação interinstitucional, inteligência estratégica e independência funcional dos órgãos de persecução penal", pontua à BBC News Brasil o advogado criminalista Guilherme Augusto Mota, pesquisador na Universidade de Girona, na Espanha. >
"O legado de Falcone não reside apenas na repressão judicial, mas na consolidação de uma cultura institucional de enfrentamento ao crime organizado, com especial ênfase na investigação patrimonial e na quebra do vínculo entre o poder econômico ilícito e o aparato político.">
"A adoção da colaboração premiada como instrumento de obtenção de prova e a centralidade da atuação coordenada entre Judiciário, Ministério Público e polícia demonstraram-se elementos-chave para desarticular redes complexas de criminalidade", prossegue Mota.>
Não é tarefa para uma só instituição. Muito menos para uma só pessoa.>
"A primeira lição é que enfrentar o crime organizado exige mais do que operações espetaculares: exige um Estado de Direito forte, articulado, com corrupção atacada na raiz", acrescenta à BBC News Brasil o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Falcone mostrou que a máfia italiana não se vence com tiros ou pirotecnia midiática, mas com preparação investigativa, cooperação entre Ministério Público, polícia e Judiciário e, sobretudo, com o rastreamento financeiro, daqueles bens, contratos, empresas de fachada que alimentavam o poder mafioso.">
Mendes acredita que o sucesso da tática de Falcone estava no sistema de incentivo à delação e proteção a testemunhas. E que, para funcionar, era preciso combater também a "infiltração política e empresarial da máfia no Estado, para que o crime não virasse força paralela ou poder invisível que decide quem governa".>
"Em suma: mais que força bruta, instituições, finanças limpas e integridade pública", acrescenta o sociólogo.>
O economista Fantini ressalta ainda que o método Falcone tinha uma abordagem mais ampla, incluindo a organização do trabalho em grupos de magistrados e a colaboração internacional — práticas fundamentais para a sua eficácia.>
O italiano Fantini acredita que seja possível replicar no Brasil o consagrado método Falcone do "follow the money". "Imagino que está sendo percorrida esta tentativa, mas é preciso ter uma união de objetivos e forte colaboração entre juízes, policiais e poder político, o que me parece difícil numa situação crítica como o Rio de Janeiro", diz ele.>
Mendes argumenta que, para que um método assim funcione no Brasil, seria urgente "adotar a agenda financeira do combate ao crime", quebrando "a cadeia da lavagem de dinheiro", rastreando empresas-laranja, serviços de fachada, contratos públicos, recursos desviados. "Sem isso, todo combate ao tráfico ou milícia se limita à ponta visível, ignorando a engrenagem invisível", diz o sociólogo.>
Para Mota, essa estratégia de enfraquecer financeiramente as organizações criminosas é a "espinha dorsal" das estratégias repressivas eficazes. "A restrição ao fluxo de capitais ilícitos afeta diretamente a capacidade operacional, logística e corruptora dessas redes, razão pela qual as investigações patrimoniais e a atuação da Justiça especializada em lavagem de dinheiro assumem papel central", diz. "A desterritorialização, por sua vez, é instrumento complementar, voltado à quebra da hegemonia local e do domínio simbólico exercido por tais organizações sobre determinadas comunidades.">
"Outro pilar exportável é a metodologia de investigação duradoura, alianças institucionais, proteção a fontes, plano de longo prazo e não apenas megamanifestações de força policial", acrescenta ele.>
"A experiência italiana comprova que o enfrentamento ao crime organizado demanda mais do que vontade política ocasional ou operações pontuais", diz Mota. "Requer estrutura institucional robusta, continuidade de políticas públicas e capacitação permanente dos agentes estatais.">
Mas nem tudo dá para copiar e colar. O contexto social e político brasileiro é radicalmente distinto do italiano. "Na Sicília e no sul da Itália, a máfia operava em ambientes onde o Estado já existia, ainda que corrompido", compara o sociólogo. "Aqui, no Rio, estamos diante da falência funcional do Estado, da desigualdade extrema, da exclusão sistemática de territórios pobres.">
Outro aspecto a ser considerado, lembra o especialista, é a questão da territorialidade — ou seja, a maneira como o crime organizado está arraigado a um território e mantém controle sobre ele. "Tirar o narcotráfico das favelas, se lembro bem, facilitando oportunidades de renda alternativa aos jovens e garantindo a presença contínua da polícia, foi uma tentativa que teve sucesso nas décadas passadas. Mas depois acabou abandonada", afirma Fantini. "Será preciso entender as causas desse fracasso e analisar as possibilidades de desenvolvê-la de forma atualizada.">
Mendes lembra também que, se na Itália a máfia historicamente se entrelaçou com o setor agroalimentar, no Brasil, especialmente no Rio, o cenário é diferente: as facções se originam no cárcere e nas periferias, expandindo o poder pela exploração de serviços urbanos informais — transporte alternativo, gás, construção, "segurança privada" do crime, milícia urbana, além do tráfico de drogas. Em outras palavras, o sociólogo comenta que no Brasil a máfia está intimamente ligada ao que ele chama de "geografia da pobreza".>
"No Brasil, a replicação de tais estratégias deve considerar a complexidade territorial e social do país, exigindo adaptações operacionais e políticas públicas combinadas, repressivas e preventivas, voltadas à retomada do espaço urbano e ao fortalecimento do controle estatal em áreas vulneráveis", afirma Mota.>
Para ele, é desafiador o fato de que o crime no Brasil é plural e tem penetrações em diferentes esferas. "A resposta não pode ser unidimensional: deve conjugar repressão qualificada, gestão do sistema prisional, cooperação interinstitucional e, sobretudo, políticas públicas que reduzam a vulnerabilidade social que sustenta o poder dessas facções. A Itália ofereceu um modelo de enfrentamento possível; cabe ao Brasil construir o seu, com base em suas especificidades e complexidades próprias", diz ele.>
Mas é claro que operação nenhuma conseguiu acabar de vez com a máfia na Itália.>
"O enfraquecimento da máfia italiana é inegável, mas a persistência de sua atuação, ainda que em novos formatos, revela limitações estruturais do modelo repressivo", afirma Mota. "Dentre os fatores que fragilizam as ações de longo prazo, destacam-se a ausência de continuidade política, a falta de proteção sistêmica aos agentes públicos e a desarticulação entre políticas de repressão e inclusão.">
Hoje em dia, contudo, essas organizações não são tão letais como eram no passado, ressalta Fantini. A atividade criminosa é desenvolvida sobretudo em nível financeiro, muitas vezes por meio de grandes obras de construção ligadas à infraestrutura pública, em outros casos no controle de esquemas de distribuição agroalimentar.>
"As falhas da antimáfia italiana dependeram e dependem ainda da corrupção dos policiais e dos políticos e também da cumplicidade e do uso instrumental que sempre ligaram os serviços secretos aos criminais mafiosos. Recentemente (...) as proteções aos arrependidos da máfia foram reduzidas, o que provocou uma crise neste método que utiliza os mafiosos", afirma Fantini.>
Turbay acrescenta que a Itália foi exemplo de erros judiciais severos e o açodamento prejudicial custou a desconfiança da população nas instituições. "À exemplo do pacote anticrime no Brasil, o congelamento de bens de maneira antecipada, como primeira linha de abordagem, foi incapaz de desarticular conglomerados financeiros do crime organizado, cada vez mais diverso e aperfeiçoado", ressalta ele.>
"A máfia tem interesse em qualquer setor que pode garantir lucro", completa o economista italiano. Ele lembra que a máfia italiana usa o agronegócio muitas vezes para a lavagem de dinheiro e também se aproveita do grande número de imigrantes na Itália, explorando essa mão de obra em geral barata e frágil quanto aos direitos trabalhistas.>
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