Publicado em 29 de outubro de 2025 às 14:33
O consumo de cocaína nunca foi tão grande no mundo — e esse aumento na demanda pela droga está fortalecendo as facções criminosas por trás do negócio em países como o Brasil, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil e relatórios produzidos por grupos especializados.>
No Brasil, o tráfico de cocaína está entre as principais atividades de grupos criminosos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). >
Este último foi alvo de uma megaoperação das Polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro no complexo do Alemão, na capital fluminense, que resultou em dezenas de mortes e prisões.>
Segundo a ONU, o tráfico de drogas "continua impulsionando o crime organizado e gerando lucros aos criminosos", e a violência associada a essa atividade aumentou drasticamente nos países de origem, trânsito e destino dos tóxicos.>
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Um dos grandes propulsores nos últimos anos tem sido o aumento na demanda por cocaína em todo o mundo — sobretudo na Europa. >
Nos dez anos de 2013 a 2023, houve aumento de 47% no número de usuários globais de cocaína.>
Segundo a ONU, quase todos os indicadores relacionados à cocaína apresentaram aumento — seja de produção, apreensões ou consumo.>
Os dados mais recentes são de 2023 e estão presentes no Relatório Mundial sobre Drogas 2025, produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a agência especializada da ONU, com sede em Viena.>
"O número de usuários de cocaína em todo o mundo também continuou a crescer: estima-se que 25 milhões de pessoas usaram a droga em 2023, contra 17 milhões em 2013. Isso representa um aumento na prevalência do uso de cocaína entre pessoas com idades entre 15 e 64 anos, de 0,36% para 0,47% no mesmo período", afirma o relatório da ONU.>
"A América do Norte, a Europa Ocidental e Central e a América do Sul continuam a constituir os maiores mercados de cocaína, com base no número de pessoas que usaram drogas no último ano e em dados derivados da análise de águas residuais.">
A ONU destaca que os principais fluxos de tráfico de cocaína continuam a ser dos países andinos para a América do Norte e para a Europa, seja diretamente ou, em menor escala, através da África Ocidental e Central. >
"As apreensões de cocaína relatadas na Europa Ocidental e Central em 2023 excederam as relatadas na América do Norte pelo quinto ano consecutivo.">
Mas o Brasil serviria como uma importante ponte entre os países produtores e os grandes mercados consumidores.>
Existe uma relação direta entre o aumento do consumo mundial e a violência e poder das organizações criminosas como as que operam na América Latina, segundo a ONU.>
"O tráfico de drogas continua a impulsionar o crime organizado e a gerar lucros criminosos, e a violência associada aumentou rapidamente em alguns casos, inclusive em países de origem, trânsito e destino", diz o relatório da ONU.>
"A violência relacionada ao tráfico de cocaína tem sido particularmente visível entre grupos criminosos que operam nas Américas.">
Um capítulo especial do relatório da ONU cita as duas principais facções criminosas brasileiras: o PCC e o CV.>
Enquanto grandes grupos criminosos costumam ter uma hierarquia de poder mais rígida, os dois seriam exemplos de estruturas diferentes de gestão.>
"Outros estudos indicam que grupos de narcotráfico como o PCC e o CV no Brasil exibem um certo grau de hierarquia vertical em toda a organização, com filiais locais operando com estruturas variadas e independência limitada, que alguns consideram semelhante a um modelo de franquia", afirma o relatório.>
Outro relatório mostra a importância do Brasil no suprimento de drogas para a Europa.>
O Brasil serve hoje como uma espécie de ponte entre países andinos que produzem cocaína e a Europa, onde está grande parte do mercado consumidor, segundo o relatório "A rota do tráfico de cocaína para a Europa", produzido pela publicação especializada InSight Crime e pela Global Initiative Against Transnational Organized Crime, uma ONG com sede na Suíça.>
"As conexões diretas do Brasil com zonas de produção na Colômbia, Peru e Bolívia, os numerosos portos de contêineres no litoral atlântico e um cenário de crime organizado poderoso e em rápida evolução tornaram o país uma perspectiva atraente para traficantes em busca de novas rotas para a Europa", diz o relatório.>
"O porto de Santos tornou-se um ponto crítico, seguido por outros como Paranaguá e Itajaí. As apreensões, segundo dados da alfândega brasileira, dispararam de 4,5 toneladas em 2010 para 66 toneladas em 2019.">
O estudo de 2021 afirma que "hoje, a principal ponte de tráfico para a Europa não é mais a Venezuela, mas o Brasil".>
"O dinheiro da cocaína transformou o submundo", afirma o relatório, que destaca o papel do PCC no tráfico internacional da droga.>
"Os lucros do tráfico para a Europa permitiram que o PCC concluísse sua transição de uma facção carcerária para um ator transnacional com influência no Brasil, Bolívia e Paraguai." >
"O PCC já era poderoso, administrando não apenas prisões, mas controlando enclaves criminosos e gerenciando economias criminosas (incluindo a venda de drogas) em vastas áreas do Brasil, especialmente em muitas das favelas.">
Segundo o relatório, o recente crescimento explosivo do PCC aconteceu, em grande parte, ao controle de vários corredores de cocaína, como o da Bolívia, passando pelo Paraguai, até o porto de Santos, "abrindo o que se tornou uma das artérias de tráfico mais importantes para a Europa, segundo a Europol".>
Os pesquisadores também dizem que máfias italianas, como a 'Ndrangheta, são o principal ponto de conexão com grupos organizados latino-americanos, como o PCC.>
A cocaína é traficada para a Europa a partir dos países produtores da América do Sul pelas vias aérea e marítima, utilizando diversos métodos e rotas, segundo dados do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), agência da União Europeia.>
As apreensões de drogas vindas da América do Sul vêm batendo recordes consecutivos a cada ano.>
Bélgica, Holanda e Espanha representam aproximadamente 73% do total de apreensões feitas.>
Segundo a OEDT, as maiores quantidades de cocaína encontradas em apreensões são contrabandeadas para a Europa escondidas em navios de carga, principalmente em contêineres marítimos. Esses navios geralmente partem de Brasil, Colômbia e Equador, e têm como destino grandes portos europeus, especialmente Antuérpia e Roterdã.>
"O consumo aumentou e isso, é claro, também fortaleceu as diferentes organizações", afirmou à BBC News Brasil Annette Idler, da Blavatnik School of Government, a faculdade de política pública da Universidade de Oxford, e diretora da Programa de Segurança Global do Pembroke College, também ligado à Oxford. Ele é autora de livros e artigos sobre a guerra às drogas na América Latina.>
"As facções se tornaram mais globais. O Comando Vermelho, por exemplo, que esteve envolvido nas ações que aconteceram no Rio de Janeiro, fazem parte de uma rede maior. Eles obtêm a cocaína principalmente da Bolívia, mas também fazem parcerias com organizações na África e na Europa. Portanto, eles são mais poderosos em termos de alcance. Isso, é claro, também tem a ver com o aumento do consumo.">
Ela destaca que o Brasil já não é apenas um mero ponto de trânsito de drogas — uma passagem entre países produtores e consumidores — mas também já desenvolveu um mercado consumidor robusto.>
"É aqui que vemos a violência. E as ações do Estado também produzem uma espiral de violência.">
Ela escreveu artigos que dizem que a chamada guerra às drogas fracassou. Em parte, segundo ele, porque a estrutura internacionalizada de rede faz com que novos grupos criminosos surjam sempre que um é combatido.>
"O que realmente precisa ser feito é transformar a guerra às drogas em algo focado em questão de saúde pública. Porque no final o problema maior é a demanda. A oferta também aumentou, com a produção. Precisamos pensar no que fazer na Europa e nos EUA para reduzir a demanda — e isso está muito ligado à educação. É preciso aumentar a conscientização sobre como o consumo de drogas está ligado à violência nesses outros países.">
Para Roberto Uchôa — ex-policial federal, pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — as facções brasileiras estão lucrando mais com a maior demanda por cocaína na Europa, mas as organizações já diversificaram bastante suas fontes de renda, ao ponto que a cocaína já não é mais a principal atividade dos grupos.>
"O consumo de cocaína aumentou muito na Europa e a produção de cocaína aumentou muito na Colômbia. A cocaína hoje está mais barata e numa pureza maior. E a demanda também tem crescido", disse Uchôa em entrevista à BBC News Brasil.>
Segundo ele, o PCC tem hoje uma presença maior do que o CV no fornecimento de cocaína para África, Europa e Oceania — e se tornou a facção que mais se beneficiou com o aumento da demanda por cocaína.>
"Hoje o tráfico de drogas em si não é a parte majoritária dos lucros dessas organizações criminosas. Já tem estudos dizendo que o tráfico de cocaína, por exemplo, seria 30 a 40% do rendimento", diz o pesquisador.>
"O Comando Vermelho hoje, por exemplo, também, ganha muito dinheiro no controle de territórios. Não é só tráfico de cocaína. É comércio de gás, gatos de luz, internet clandestina, transporte coletivo — que o Comando Vermelho aprendeu com as milícias.">
"Mas mesmo assim há uma disputa pelo controle dessas rotas de fornecimento de cocaína para a Europa. Tanto que você vê essas brigas no Norte e Nordeste, principalmente pelas rotas de escoamento do Solimões que vem da Amazônia e tudo mais.">
* Colaborou Julia Braun, de Londres>
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