Publicado em 30 de março de 2025 às 17:44
"É simplesmente estranho falar sobre questões sexuais com seus pais", diz Ben*, de 15 anos.>
Seus pais, Sophie e Martin, na faixa dos 40 anos, concordam compreensivamente. >
Eles estão discutindo "grandes questões" sobre o uso das redes sociais por Ben, para quem as conversas sobre sexo e pornografia com os pais são "as piores".>
A família – sem a irmã mais nova de Ben, que é muito jovem para participar da discussão – está reunida na sala de estar para dissecar o grande sucesso da Netflix, a série Adolescência, que assistiram na noite anterior.>
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A série acompanha a história de Jamie, um protagonista de 13 anos acusado de assassinar uma colega após ser exposto a conteúdos misóginos online e sofrer cyberbullying.>
Os pais estão preocupados com o impacto do conteúdo a que seu filho é exposto, e Ben, que também se preocupa, está tentando impor limites ao seu próprio uso do celular.>
Diante dessas preocupações e da forma como elas se relacionam com os temas de Adolescência, a família concordou em assistir ao programa junta e permitiu que a BBC News acompanhasse sua discussão, que abordou desde a relevância do influenciador misógino Andrew Tate até se meninos e meninas podem ser amigos.>
Ben está sentado no sofá da sala, rolando o feed no celular antes da conversa começar.>
Seus pais se acomodam, parecendo relaxados, apesar dos assuntos difíceis que estão prestes a discutir. Fotos de familiares enfeitam as prateleiras da sala, e um piano está encostado na parede.>
O casal se esforçara para criar um ambiente "muito aberto", diz Sophie, onde "todos os temas estão sobre a mesa". Enquanto assistia à série, ela fez uma lista de tópicos para discutir com Ben.>
Ben, um adolescente confiante e expressivo, é popular entre os colegas de sua escola pública só para meninos. >
No entanto, as mesmas características que o tornam querido entre os amigos frequentemente o colocam em apuros com os professores, que o punem com detenções ou o mandam para isolamento por fazer o que sua mãe descreve como "comentários inadequados".>
Na série, Jamie e seus colegas usam uma linguagem associada à "machosfera" – sites e fóruns online que promovem misoginia e oposição ao feminismo – e à cultura incel. >
Incels, abreviação de involuntary celibates (celibatários involuntários), são homens que culpam as mulheres por sua incapacidade de encontrar uma parceira sexual. Essa ideologia tem sido associada a ataques terroristas e assassinatos nos últimos anos.>
Para surpresa de seus pais, "incel" não era um termo familiar para Ben, e seu pai, Martin, precisou explicá-lo enquanto assistiam ao programa.>
"As pessoas só chamam umas às outras de 'virgens'. Nunca tinha ouvido 'incel' antes", diz Ben. Ele sugere que o termo pode ter "sumido" das redes sociais dos jovens nos últimos anos, refletindo a rapidez com que as conversas online evoluem.>
Ben conta aos pais que reconhece alguns elementos da série, como as brigas e o cyberbullying na escola. No entanto, ele acha que a série apenas dá um "retrato aproximado" da vida de um adolescente hoje em dia e que foi feita, principalmente, para "um adulto que não está online".>
Por exemplo, segundo ele, o programa ignora o lado positivo das redes sociais. Além disso, alguns detalhes – como os supostos códigos secretos de emojis usados por crianças – parecem irreais.>
Por essa razão, Martin, que diz ter gostado da tensão dramática da série, também sente que o programa explora o "pior pesadelo" dos pais em relação ao uso do celular pelos filhos, favorecendo o choque e o drama em detrimento do realismo para provocar uma reação nos adultos.>
Andrew Tate, influenciador e figura central no obscuro mundo online da machosfera, é mencionado pelo nome na série e tem sido motivo de grande preocupação entre pais e professores. >
No entanto, Ben diz que, embora Tate tenha sido "popular" em sua escola há cerca de dois anos, agora ele já é "coisa do passado".>
Ben percebeu como Tate mistura saúde e bem-estar com política. "Algumas coisas que ele fala, como 'se exercite por uma hora por dia' – ok, isso está certo. Mas aí ele combina isso com ideias de extrema-direita, como 'o homem deve sair para trabalhar e a mulher deve ficar em casa'", explica Ben.>
Ambos os pais concordam que Tate não é o culpado pela misoginia. Para eles, ele é apenas um sintoma de "um problema social maior".>
Esse problema é representado de forma marcante na visão sombria que Adolescência apresenta sobre as amizades entre meninos e meninas na era das redes sociais. O protagonista, Jamie, não tem amigas e parece enxergar as relações com o sexo oposto por uma ótica de dominação e manipulação.>
Sophie está preocupada com o fato de que, no grupo de Ben, as interações entre garotos e garotas são distantes e impessoais. >
Ela comenta que seu filho não tem muitas oportunidades de conviver com meninas da mesma idade e teme que ele esteja aprendendo a lidar com elas principalmente por meio das redes sociais. "É algo muito distorcido", diz. "Eles não sabem como agir uns com os outros.">
Então, ela faz uma pergunta ao filho: "Se você não sabe como falar com meninas quando está se sentindo estranho, se você pensa 'aff, não sei nem como me vestir', onde você procura ajuda?".>
"Online", responde Ben.>
"Então, é um ciclo sem fim", diz sua mãe. "É de lá que eles tiram as informações.">
Ben não se sente envergonhado de admitir que tem "usado o ChatGPT há uns dois anos" para obter esse tipo de conselho. "Ou o TikTok", acrescenta.>
Sophie diz que Ben aprendeu mais sobre amizade com o sexo oposto durante uma visita à casa de seu primo, que estuda em uma escola mista e tem amigas.>
Ela lembra que o primo de Ben o repreendeu depois que ele perguntou se o primo sentia atração por uma amiga.>
"Não lembro dele ter ficado irritado comigo assim, mas ok", diz Ben.>
Eles discutem suas diferentes lembranças do episódio até chegarem a uma versão em que concordam: "O primo dele disse algo como: 'Não, ela é minha amiga. Não penso nela dessa forma'", conta Sophie.>
"Isso foi uma revelação para ele", acrescenta. Virando-se para Ben, ela relembra: "Você voltou de lá dizendo: 'É muito melhor na casa do meu primo, meninos e meninas são amigos'".>
Na série da Netflix, a vítima de Jamie, Katie, foi submetida a uma campanha misógina de bullying depois que um colega de classe compartilhou imagens íntimas dela sem o seu consentimento. >
A conversa de Jamie sobre o incidente com uma psicóloga infantil, interpretada por Erin Doherty, é um momento chave do aclamado terceiro episódio da série.>
Ben também já viu esse tipo de abuso de confiança entre seus colegas. "Tem um cara aqui perto, e [uma foto de] suas partes íntimas vazou em um grupo gigantesco com várias pessoas", ele diz. "Isso teve muita repercussão no TikTok.">
A série começa com um episódio em que a polícia interroga Jamie sobre imagens sexuais de mulheres adultas que ele compartilhou em sua página no Instagram, sugerindo a facilidade com que adolescentes podem acessar pornografia.>
Isso soa familiar para Ben, que acha que a pornografia é o "maior problema" entre seus colegas. Ele conhece meninos que são "viciados" nisso: "Eles dependem disso. Tem pessoas no meu ano que terão um dia péssimo a menos que assistam.">
Ben se agita um pouco enquanto fala sobre pornografia, olhando para a parede ou mexendo no celular.>
Ele parece mais à vontade falando sobre outras formas de conteúdo preocupante que os jovens encontram online.>
Ele estima que "um em cada 10" vídeos que assiste no celular contenha material perturbador, incluindo cenas de violência extrema. E os pais de Ben não têm ilusões de que seu filho está "seguro" só porque está no computador no andar de cima - ao contrário dos pais de Jamie na série.>
Para Martin e Sophie, a solução está em oferecer às crianças mais oportunidades de "participar" da sociedade e construir sua autoestima.>
Eles dizem que também estão interessados em que seu filho tenha uma "ampla gama" de modelos masculinos para se inspirar. Ben, que parou várias vezes para olhar o celular durante a conversa, volta à discussão.>
Ele fica animado ao elogiar seus treinadores esportivos, cujos "valores morais muito fortes" ele admira.>
Os pais concordam, claramente satisfeitos com o entusiasmo do filho. Eles dizem que tentam preencher a vida do filho com atividades para tirá-lo do celular. Mas isso é caro, dizem eles, e coloca os estudantes mais pobres em desvantagem.>
Sophie fala sobre o personagem principal da série, Jamie: "Ele não tem esporte. Ele não se sente bem consigo mesmo. O pai dele desvia o olhar quando ele falha.">
Adolescência mostra que crianças com oportunidades limitadas para construir sua autoestima são mais "vulneráveis" às mensagens predatórias dos influenciadores misóginos, diz Sophie.>
Ambos os pais concordam que as empresas de tecnologia, o governo, as escolas e as famílias têm a responsabilidade de oferecer aos jovens uma alternativa convincente ao chamamento da machoesfera.>
Eles insistem que os pais não podem fazer isso sozinhos. Como Sophie diz: "É um tsunami e alguém me deu um guarda-chuva.">
Ben acredita que o que acontece online é frequentemente considerado irrelevante para o mundo real pelos adultos. Ele acha que isso é um erro; as redes sociais devem ser tratadas "como a vida real – porque é a vida real", ele diz.>
*Todos os nomes nesta reportagem foram alterados.>
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