Publicado em 22 de setembro de 2025 às 17:33
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobe ao púlpito da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na próxima terça-feira (23/8) para fazer, pela décima vez, o discurso de abertura do evento — uma tradição diplomática que o Brasil cumpre desde os anos 1950. >
Neste ano, porém, o pano de fundo da participação brasileira é mais delicado. Lula chega ao principal palco mundial das relações internacionais em meio ao que especialistas classificam como a pior crise diplomática com os Estados Unidos em 201 anos de história. >
Isso acontece após o presidente norte-americano, Donald Trump, ter anunciado tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, imposto sanções a ministro do governo Lula e do Supremo Tribunal Federal (STF) como Alexandre de Moraes e vincular as medidas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pela Corte. >
Apesar da pressão americana, Lula deu diversas declarações afirmando que não aceitava negociar o fim das tarifas ao fim do julgamento de Bolsonaro. >
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O que veio foi uma chantagem inaceitável, em forma de ameaças às instituições brasileiras, e com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos", disse Lula em pronunciamento de rádio e TV em julho deste ano. >
O tarifaço marcou o ápice das tensões nas relações entre as duas maiores democracias das Américas e deixou evidente a falta de interlocução entre os dois presidentes. Em entrevista à BBC News Brasil na semana passada, Lula admitiu não ter relação alguma com o presidente do anfitrião americano. >
"Eu não tenho nenhuma relação com o Trump", disse. >
Além disso, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse em entrevista que o país estudava novas sanções ao Brasil após a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão pelo STF por crimes como golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito. >
E na esteira das tensões com Trump, há pouco mais de um mês, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, Mark Rutte, disse que o Brasil poderia ser alvo de sanções adicionais por conta da compra de combustíveis da Rússia sob o argumento de que isso beneficiaria a Rússia do presidente Vladimir Putin. >
Além disso, o país vem sendo criticado por analistas pelo aparente aprofundamento das suas relações com países não-democráticos como a China e Irã. >
É neste contexto que a BBC News Brasil procurou especialistas para responder a uma pergunta: Lula chega à Assembleia Geral da ONU isolado pela ausência de uma relação direta com o governo Trump ou fortalecido por ter resistido à pressão americana e tentando ampliar suas alianças? >
Segundo eles, o atual estágio das relações entre o Brasil e os Estados Unidos, de fato, causam preocupação e podem levar à impressão de que Lula esteja, de alguma forma isolado. >
Por outro lado, eles avaliam que, apesar de Lula não repetir o protagonismo internacional de seus dois primeiros mandatos, Lula chega à Assembleia Geral da ONU deste ano apresentando um leque de alianças e parcerias diversificado, com relacionamentos aprofundados tanto com potências do chamado Ocidente, como a França, quanto com países como a China. >
Doze meses depois da sua última passagem por Nova York, o cenário diplomático mudou drasticamente para o mundo e para o Brasil.>
Em setembro de 2024, quando Lula esteve na cidade para a Assembleia Geral da ONU, o presidente dos Estados Unidos ainda era o democrata Joe Biden, com quem o brasileiro tinha boa relação.>
A campanha eleitoral no país estava a pleno vapor e Lula aproveitou a proximidade com os democratas para declarar apoio à então vice-presidente Kamala Harris, que disputava com o cargo com Trump.>
Trump venceu e, apesar de Lula ter sido um dos primeiros chefes-de-Estado a parabenizar o republicano, isso parece não ter sido suficiente para ganhar a simpatia do presidente norte-americano. >
Até hoje, os dois nunca se encontraram pessoalmente ou sequer trocaram um telefonema.>
No fim de de novembro daquele ano, já com a notícia da vitória de Trump, Lula recebeu os líderes do G20, grupo das 20 maiores economias do mundo, no Rio de Janeiro. >
O evento havia sido o maior investimento do Brasil no campo internacional neste terceiro mandato de Lula até então. Aproveitando os últimos dias de seu mandato, Biden participou do evento e se encontrou com Lula, encerrando, ao menos até agora, as boas relações entre os dois países. >
Já nos bastidores do G20, interlocutores do presidente comentavam em caráter reservado o temor de que a vitória do republicano poderia representar desafios internacionais em função do estilo e das agendas políticas de Trump representada no slogan: "Fazer a América Grande de Novo" (no inglês, Make America Great Again). >
Já naquele momento, o mote entre os auxiliares mais próximos de Lula era: diversificar parcerias para diminuir a dependência em relação aos Estados Unidos. >
Lula deu prosseguimento à sua agenda internacional e, em maio deste ano, o presidente participou da comemoração do 80º aniversário da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, em Moscou, ao lado do presidente Vladimir Putin, criticado por países como os Estados Unidos e pela União Europeia por conta da invasão à Ucrânia, iniciada em 2022. >
Lula foi criticado na ocasião por, supostamente, tomar parte em uma manifestação de poder do líder russo em meio ao maior conflito armado da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.>
Naquela mesma semana, o petista seguiu viagem para a China, maior parceiro comercial do país, onde fez sua segunda visita oficial ao país neste terceiro mandato.>
Pouco depois, em junho, ele fez uma visita oficial à França, liderada pelo presidente François Macron, num evidente aceno ao Ocidente.>
Em outra demonstração de proximidade com o Ocidente, Lula participou, no início de junho, como convidado, da cúpula de líderes do G7, grupo que reúne Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Itália, França, Alemanha e Japão. >
Havia a expectativa de que o brasileiro pudesse estar no mesmo lugar que Trump pela primeira vez, mas isso não aconteceu porque Trump deixou o local do evento, no Canadá, de forma antecipada.>
Poucos dias depois, no início de junho, Lula recebeu os líderes dos Brics, grupo de 11 economias emergentes que inclui o Brasil, China, Índia, Rússia e países como o Irã e Arábia Saudita. >
O grupo vinha sendo criticado pela administração Trump por supostamente desafiar o papel de liderança global dos Estados Unidos no mundo.>
E no último dia do evento, Trump disparou ameaças ao grupo.>
"Qualquer país que se aliar às políticas antiamericanas do Brics será cobrado com uma tarifa adicional de 10%. Não haverá exceções a essa política", disse o norte-americano em suas redes sociais.>
O ápice das tensões entre os dois países aconteceu logo depois, no final de julho, quando Trump anunciou, o "tarifaço". >
Nas semanas que se seguiram, Lula manteve conversas por telefone com uma série de líderes mundiais, entre eles o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, com Vladimir Putin, da Rússia, e o chanceler alemão, Friedrich Merz. >
As tarifas de até 50% impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros foram classificadas pelo Palácio do Planalto como "chantagem e interferência na soberania nacional". >
Lula respondeu dizendo que, se as tarifas fossem aplicadas, o Brasil acionaria a recém-aprovada Lei da Reciprocidade Comercial e apresentaria queixa formal na Organização Mundial do Comércio.>
O efeito imediato foi a queda nas exportações de setores estratégicos como carne, café e suco de laranja, enquanto em Brasília a retaliação passou a incluir também a ameaça de restringir investimentos norte-americanos no país e rever acordos de propriedade intelectual.>
As tensões transbordaram da área comercial para a diplomática: vistos de familiares de autoridades brasileiras começaram a ser revogados, entre eles o da filha do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que chegou a cancelar sua ida à Assembleia Geral da ONU. A crise se agravou com a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e, mais recentemente, nesta segunda-feira (22/9), contra sua esposa, Viviane Barci de Moraes. >
A lei se tornou uma das ferramentas mais duras da política externa americana, permitindo congelar bens, bloquear transações financeiras e restringir a entrada em território norte-americano de estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos.>
Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Carolina Pedroso, o fator Trump influencia a forma como a posição de Lula é percebida no cenário externo. >
"Essa imagem de isolamento se deve à ausência de uma relação mais fluida com os Estados Unidos", afirmou, destacando que o estágio atual das relações está diretamente ligado à personalidade de ambos os líderes. Ainda assim, ela ressalta que Lula não chega à Assembleia Geral da ONU isolado, já que mantém uma política externa ativa, com alianças nos Brics e o fortalecimento dos laços com países como a França.>
Na mesma linha, Paulo Velasco, professor de política internacional da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), observa que o Brasil segue sendo visto como um ator relevante e participativo nos espaços multilaterais. >
"Pelo contrário, o Brasil é tradicionalmente reconhecido como um ator confortável e ativo nesses fóruns. Tirando o curto período do governo Bolsonaro, em que houve críticas ao multilateralismo, o país sempre demonstrou apreço e convergência em relação a esse tema", afirmou. >
Para ele, o maior constrangimento no momento vem justamente da relação conturbada com o anfitrião do encontro.>
Mas, como apontam analistas, a hostilidade bilateral não deverá apagar o ambiente receptivo que o Brasil costuma encontrar no palco da ONU.>
"É um ambiente que não nos é hostil. Pelo contrário, um ambiente onde o Brasil se sente confortável, fortalecido, muito familiar. O Brasil tem, de fato, alguns discursos históricos de abertura na Assembleia Geral", afirma Paulo Velasco, professor de política internacional da Uerj. Para ele, dentro da ONU, o Brasil não enfrentará isolamento.>
Em caráter reservado, interlocutores do governo afirmaram haver pelo menos 30 pedidos de reuniões bilaterais com Lula durante sua permanência em Nova York. Ele volta ao Brasil na quarta-feira (24/8). >
O governo não divulgou a lista dos supostos 30 pedidos, mas entre eles estaria um pedido feito pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. >
O presidente Volodymyr Zelensky deseja um novo encontro com Lula, o que representaria a segunda reunião bilateral entre ambos desde o início do atual mandato do brasileiro. O primeiro diálogo ocorreu em setembro de 2023, também às margens da Assembleia da ONU. >
Desde então, houve uma série de desencontro e troca mútua de farpas sobre a posiçāo do Brasil em relaçāo à guerra na Ucrânia: em maio do ano passado, na cúpula do G7 em Hiroshima, a reunião não aconteceu e cada lado atribuiu ao outro a responsabilidade; já em 2024, uma tentativa na reuniāo de cúpula do G7 no Canadá não avançou por incompatibilidade de agendas.>
Segundo interlocutores da delegação brasileira, ainda não há confirmação de que a reunião ocorrerá, mas o governo sinaliza interesse em que ela aconteça, tanto pela relevância internacional do tema quanto para reduzir o desgaste causado pelos desencontros anteriores.>
Até o momento, as duas únicas reuniões bilaterais com lideranças internacionais já confirmadas serão com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e com o Rei Carl XIV Gustaf e a Rainha Sílvia do Reino da Suécia, na segunda-feira (22/8). Lula também teve um encontro nesta segunda-feira (22/9), com o diretor-Executivo da TikTok, Shou Zi Chew.>
Velasco destaca que o Brasil "tem se movido bem, dialogado com importantes atores europeus" e que há expectativa de avanços concretos nesta semana. >
"Existe a expectativa de que ocorra finalmente a aprovação do acordo na União Europeia e tivemos a assinatura do acordo do Mercosul com o EFTA, também composto por países europeus.". EFTA é a sigla em inglês para Associação Europeia de Comércio Livre, composta pela Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia. >
Embora a Assembleia Geral não seja tradicionalmente o espaço onde acordos são formalizados, o professor avalia que as conversas laterais podem servir de impulso político. "Então, certamente veremos ali um papo do Lula com as lideranças europeias, com a própria Ursula von der Leyen, e isso pode ajudar. Tivemos há alguns dias um telefonema do Lula com o Olaf Scholz, o chanceler alemão, os dois falando da expectativa de que o acordo possa ser aprovado finalmente até o final do ano. Então, sim, acho que a Assembleia Geral permite esses encontros bilaterais.">
Segundo ele, muito depende da agenda de reuniões já organizada, mas os momentos informais também têm peso. "Isso começa a ser feito geralmente algumas semanas antes do início da Assembleia Geral. Mas, em um encontro aqui e ali num corredor, para um café... Pode haver algum tipo de papo que ajude.">
Ele lembra que o Brasil tem se mostrado ativo também no Sul Global, seja à frente do Brics ou do G20.>
"Eu não vejo o Brasil numa postura de isolamento. Pelo contrário, eu acho que o Brasil chega numa postura de visibilidade internacional, pela COP30, pela presidência do G20 no ano passado, pela presidência do Brics este ano. O Brasil consegue dialogar bem, não só com o Sul Global, mas também com atores do Norte Global. O único ponto de constrangimento é esse momento muito ruim, muito ruim mesmo na relação com os Estados Unidos. Talvez seja o pior momento na relação bilateral dos últimos 60 anos, desde o golpe militar.">
Segundo Velasco, apesar disso, "quando você pensa na ONU, na Assembleia Geral em si, acho que o Brasil vai conseguir transitar com muita familiaridade e de forma confortável.">
No campo diplomático, um gesto recente reforça a distância com Washington. Ao contrário do que aconteceu no ano passado, quando Brasil e Espanha organizaram às margens da Assembleia uma reunião sobre democracia que contou com os Estados Unidos, desta vez os norte-americanos ficaram de fora. >
O encontro, que acontece na próxima quarta-feira (24) em Nova York, será conduzido por Lula e pelo primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e contará ainda com o patrocínio de Chile, Colômbia e Uruguai. À exceção dos EUA, todos os países convidados em 2024 voltaram a receber convites.>
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