Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 06:10
A operação militar dos Estados Unidos que levou à prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, neste sábado (3/1) cria um precedente que pode remodelar as normas de segurança global e reacender, na América Latina, temores de mudanças de regime impostas por outros países.>
A avaliação é da professora Annette Idler, professora associada de Segurança Global da Blavatnik School of Government, da Universidade de Oxford, em entrevista à BBC News Brasil neste domingo (4/1).>
O presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu a ação militar que resultou na detenção de Maduro e de sua esposa como "um dos ataques mais precisos" da história do país. >
Ele afirmou ainda que os Estados Unidos irão governar a Venezuela até que uma "transição segura, adequada e criteriosa" seja concluída.>
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Em nota conjunta divulgada neste domingo (04/1), Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha criticaram a "gravidade dos eventos ocorridos na Venezuela" e afirmaram que as ações "criam um precedente extremamente perigoso para a paz, para a segurança regional e colocam a população civil em risco".>
Segundo Idler, a operação representa um afastamento drástico da política adotada pelos Estados Unidos nos últimos anos e sinaliza um possível retorno a ações intervencionistas, com potencial para desfazer esforços internacionais voltados a restringir o uso da força.>
A especialista afirma ainda que um controle da Venezuela pelos EUA implica uma forma de ocupação ou tutela que não tem fundamento no direito internacional contemporâneo. >
"A era dos protetorados e das tutelas terminou com a descolonização", avalia. >
Leia a seguir a entrevista.>
BBC News Brasil - Quais consequências, legais ou diplomáticas, poderiam surgir desta operação?>
Annette Idler - Esta operação parece violar o artigo da Carta da ONU que proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, exceto em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança da ONU – nenhuma das quais se aplica neste caso. >
Diplomaticamente, a forte condenação de países como Rússia, China, Irã, Cuba, Brasil e Colômbia sinaliza uma perigosa internacionalização, enquanto até mesmo parceiros europeus apelam à desescalada e ao respeito pelo direito internacional. >
O precedente estabelecido aqui poderá remodelar fundamentalmente as normas de segurança global e, na América Latina, reacender temores profundamente enraizados de mudanças de regime impostas externamente.>
BBC News Brasil - Esta operação marca uma mudança na abordagem dos EUA em relação ao uso da força no exterior ou é um episódio isolado?>
Annette Idler - Isso representa uma escalada extraordinária: a captura de um presidente latino-americano em exercício (mesmo que considerado ilegítimo) após ataques militares contra uma nação soberana. >
Embora tenha havido tentativas anteriores, como a Operação Gideon em 2020, esta ação militar direta contra um chefe de Estado marca um afastamento drástico da política recente dos EUA. >
A operação sinaliza um potencial retorno ao intervencionismo militar unilateral que poderia desfazer décadas de restrições legais internacionais ao uso da força.>
BBC News Brasil - Devemos esperar que os EUA recorram com mais frequência à força extraterritorial? >
Annette Idler - Essa ação confunde perigosamente a linha divisória entre aplicação da lei e agressão militar, já que rotular criminosos como "terroristas" não torna automaticamente países estrangeiros alvos militares legítimos. >
O precedente sugere que Estados poderosos poderiam alegar justificativas de aplicação da lei para depor líderes que considerem ilegítimos, minando fundamentalmente os princípios da soberania. >
Essa normalização do uso da força extraterritorial para supostas condutas criminosas representaria um afastamento radical do direito internacional estabelecido.>
BBC News Brasil - Existe alguma possibilidade de o Judiciário dos EUA se pronunciar sobre a legalidade desta operação?>
Annette Idler - Os tribunais dos EUA poderiam potencialmente analisar isso com base na Resolução sobre Poderes de Guerra, já que o Congresso não foi informado previamente, conforme exigido pela Constituição. >
No entanto, historicamente, os tribunais demonstram deferência às decisões do Poder Executivo em matéria de segurança nacional e política externa. >
A via mais eficaz para a revisão judicial provavelmente se concentraria em violações de procedimentos internos, e não no cumprimento do direito internacional.>
BBC News Brasil - Considerando os poderes do Congresso, que mecanismos concretos existem para a supervisão ou responsabilização dos atos do governo?>
Annette Idler - O Congresso pode invocar a Resolução sobre Poderes de Guerra, que exige que o presidente retire as tropas em 60 a 90 dias sem autorização do Congresso, e pode usar o poder de dotação orçamentária para restringir financiamento. >
Comissões do Congresso podem conduzir investigações e audiências para exigir responsabilização pela omissão em notificar o Congresso com antecedência. >
No entanto, esses mecanismos exigem vontade política para contestar os excessos do Executivo.>
BBC News Brasil - É possível traçar algum paralelo jurídico com o que aconteceu durante a invasão do Panamá, em 1989?>
Annette Idler - Assim como no Panamá, este caso envolve a remoção forçada e a prisão de um chefe de Estado sob acusações de tráfico de drogas, mas a escala e o método diferem significativamente. >
Ambos os casos levantam questões fundamentais sobre o uso da força militar para fins de aplicação da lei e a violação da soberania sob o pretexto de combater o tráfico de drogas. >
No entanto, o atual quadro jurídico internacional e as sensibilidades regionais tornam essa ação ainda mais problemática do ponto de vista jurídico do que o caso do Panamá em 1989.>
BBC News Brasil - Em que medida o Poder Executivo nos EUA pode influenciar a forma como os tribunais avaliam as alegações de imunidade para Maduro?>
Annette Idler - O Poder Executivo pode argumentar que a falta de legitimidade democrática de Maduro mina suas alegações de imunidade, mas isso cria um precedente perigoso em que Estados poderosos determinam unilateralmente quem merece imunidade soberana. >
Além disso, a remoção forçada de um presidente em exercício desafia fundamentalmente as doutrinas de imunidade estabelecidas.>
BBC News Brasil - O fato de Maduro ter sido "extraído" de seu país pode afetar o julgamento? E o que dizer de seu status como chefe de Estado em exercício?>
Annette Idler - A extração forçada de um chefe de Estado em exercício de seu país levanta questões jurisdicionais e de imunidade sem precedentes, que poderiam comprometer fundamentalmente a legitimidade de qualquer julgamento. >
O direito internacional normalmente concede aos chefes de Estado em exercício imunidade absoluta contra processos criminais estrangeiros, independentemente dos crimes alegados. >
A forma de obtenção da custódia, por meio de ação militar em vez de extradição legal, poderia tornar qualquer processo internacionalmente ilegítimo, mesmo que os tribunais dos EUA o levem adiante.>
BBC News Brasil - Quando Trump diz que os EUA "governariam" a Venezuela, quais seriam as implicações legais disso?>
Annette Idler - Isso implica uma forma de ocupação ou tutela que não tem fundamento no direito internacional contemporâneo — a era dos protetorados e das tutelas terminou com a descolonização. >
Segundo o direito internacional humanitário, mesmo que considerada uma ocupação, os EUA seriam obrigados a respeitar as leis venezuelanas vigentes e não poderiam reestruturar fundamentalmente o Estado. >
Tais alegações ecoam os esforços fracassados de reconstrução nacional no Iraque e no Afeganistão, onde a remoção de regimes se mostrou muito mais simples do que o estabelecimento de uma governança legítima.>
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