Publicado em 10 de outubro de 2025 às 05:32
A Ucrânia aumentou drasticamente o número de ataques lançados contra refinarias de petróleo russas nos últimos meses, o que tem provocado escassez de combustível e aumento de preços em algumas partes do país, como mostra uma investigação conduzida pela BBC Verify e pelo serviço russo da BBC. >
Os ataques de drones contra as refinarias, algumas delas localizadas no interior da Rússia, aumentaram em agosto e permaneceram altos em setembro, segundo análise de reportagens dos meios de comunicação russo e imagens verificadas. >
Ao menos 21 das 38 principais refinarias do país — onde o petróleo bruto é transformado em combustível utilizável, como gasolina e diesel — foram atacadas desde janeiro, com um aumento de 48% nos ataques bem-sucedidos em comparação com todo o ano de 2024. >
Os cidadãos russos parecem estar sentindo o impacto dos ataques, já que vídeos verificados mostram longas filas em postos de gasolina. Alguns postos suspenderam as operações para "esperar a crise passar", em vez de operar com prejuízo, disse um gerente à mídia russa. >
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O serviço de segurança da Ucrânia, o SBU, não respondeu a um pedido de comentários da BBC. >
Mas o presidente Volodomyr Zelensky já havia dito que prejudicar a indústria petrolífera da Rússia era uma forma de forçá-los a se sentar à mesa de negociações. >
"As sanções mais eficazes, as que funcionam mais rápido, são os incêndios nas refinarias de petróleo, nos terminais e nos depósitos de petróleo da Rússia", disse o líder ucraniano em um discurso feito em setembro. >
"Restringimos significativamente a indústria petrolífera da Rússia, o que limita consideravelmente a guerra.">
Nossa análise mostra que os ataques atingiram um nível recorde em agosto, com 14 refinarias atacadas por drones ucranianos, e 8 em setembro. >
O aumento ocorreu após uma breve pausa que coincidiu com intensa atividade diplomática, durante a qual o presidente Donald Trump tentou negociar um acordo de cessar-fogo entre Kiev e Moscou. >
Alguns dos ataques tiveram como alvo instalações localizadas no interior da Rússia. >
No fim de setembro, o SBU atacou por duas vezes, com sucesso, a refinaria de petróleo Gazprom Neftekhim Salavat, na região de Bashkortostão. >
Imagens de satélite mostram colunas de fumaças saindo da instalação — situada a mais de 1,1 mil km da fronteira com a Ucrânia — após o ataque. >
Kiev também atacou algumas das instalações mais lucrativas da Rússia. Uma refinaria próxima de Volgogrado foi alvo de ataques em seis ocasiões este ano, e um deles, realizado em agosto, a obrigou a interromper as operações por um mês. >
A grande usina de Riazán, perto de Moscou, com uma capacidade de produção de 340 mil barris por dia, foi atacada cinco vezes desde janeiro. >
Os ataques ucranianos parecem ter dois alvos: as grandes refinarias essenciais para o abastecimento civil e aquelas mais próximas da fronteira, usadas para abastecer as tropas que lutam na Ucrânia, segundo declarou à BBC Verify Vladimir Milov, ex-vice-ministro de Energia de Vladimir Putin e atualmente político opositor no exílio. >
O Estado-Maior da Ucrânia afirmou anteriormente que as refinarias de Samara e Saratov têm sido utilizadas como parte das operações logísticas militares. Ambas as regiões foram alvo de ataques com drones nas últimas semanas, e duas das três usinas da região de Samara ficaram fora de serviço. >
Justin Crump, ex-oficial do exército britânico e diretor executivo da consultoria de riscos Sibylline, disse à BBC Verify que a Ucrânia já vinha atacando há bastante tempo as indústrias petrolíferas e de gás da Rússia. >
Contudo, ele destacou que a onda de ataques mostrou que os serviços militares e de segurança haviam decidido adotar essa tática como sua "campanha principal". >
"É evidente que essa campanha recebeu um investimento significativo e se baseia em uma avaliação de inteligência sobre o que pode causar mais dano à Rússia", afirmou Crump. >
É difícil avaliar até que ponto os ataques estão afetando a produção de gasolina e diesel, já que a Rússia classificou as estatísticas sobre a produção de gasolina como secretas em maio de 2024, em meio a uma série de ataques anteriores contra refinarias. >
No entanto, a análise da BBC Verify revelou que pelo menos 10 refinarias de petróleo se viram obrigadas a suspender total ou parcialmente suas operações desde agosto. >
Além disso, a agência de notícias Reuters informou que, em determinados dias, a produção nacional caiu em até um quinto. >
Há algumas evidências de que os ataques contra refinarias estão tendo um impacto na vida dos cidadãos em algumas partes da Rússia. >
Vídeos verificados pela BBC Verify mostraram longas filas em postos de combustível no Extremo Oriente russo e em uma rodovia entre São Petersburgo e Moscou, enquanto autoridades designadas pelo Kremlin implementaram o racionamento de gasolina na Crimeia ocupada. >
Proprietários de pequenos postos de gasolina independentes na Sibéria relataram à mídia russa que tiveram que fechar devido a problemas contínuos no fornecimento de combustível. >
Um gerente da região de Novosibirsk comparou a situação à hiperinflação que a Rússia experimentou em sua era pós-soviética. >
"Na minha opinião, não tivemos uma crise como esta desde 1993-1994", disse ele ao veículo local Preecedent TV.>
"Muitos postos de combustível já suspenderam suas operações. Talvez seja melhor esperar a crise passar do que operar com prejuízo.">
Embora aumentos nos preços tradicionalmente ocorram na Rússia devido às viagens de verão e à manutenção de refinarias, os ataques com drones estão agravando o problema. >
Os preços da gasolina no varejo dispararam, enquanto os preços no atacado — o preço pelo qual os varejistas compra dos produtores — subiram ainda mais rápido, aumentando 40% desde janeiro. >
A mídia nacional, fortemente controlada, insinuou que os ataques de drones são um fator-chave na escassez, e o jornal econômico Kommersant atribuiu o déficit a "fechamentos imprevistos de refinarias". >
Mas os civis na Rússia — incluindo as regiões de Moscou e Krasnodar —parecem, em grande parte, não ter sido afetados. >
Alguns dos que conversaram com a BBC disseram não ter conhecimento da escassez em outras partes do país. >
As autoridades russas insistem que a situação segue sob controle. >
Em uma coletiva de imprensa esta semana, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que "o governo está tomando as medidas necessárias" para lidar com a escassez. >
Contudo, o vice-primeiro-ministro, Alexander Novak, anunciou na semana passada que uma proibição parcial das exportações de gasolina foi estendida até o final de 2025. >
Milov observa que a suspensão das exportações é relativamente pequena e "não salvará o mercado interno".>
Também não está claro até que ponto os ataques afetam a capacidade de Moscou de usar as receitas do petróleo para financiar sua gerra na Ucrânia. >
A grande maioria das exportações de petróleo da Rússia é de petróleo bruto não refinado, que não parece ter sido afetado pelos ataques. >
Uma análise da Bloomberg no fim de setembro mostrou que as exportações de petróleo bruto, embora menos lucrativas do que a de gasolina e diesel, haviam alcançado um recorde histórico.>
Crump observou que o impacto dos ataques poderia ser reforçado se o Ocidente adotasse "medidas adicionais" como sanções às exportações de petróleo, mas enfatizou que os ataques já estavam minando a capacidade de Moscou de sustentar sua guerra. >
Informacão adicional de Christine Jeavans.>
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