Publicado em 23 de junho de 2025 às 19:38
Uma eventual tentativa dos Estados Unidos de mudar o regime que está no poder no Irã, como chegou a ser aventado pelo presidente Donald Trump, teria efeitos caóticos no Oriente Médio, avalia o embaixador Celso Amorim em entrevista à BBC News Brasil.>
Um movimento desta natureza seria lido no país como uma interferência estrangeira e poderia desencadear uma série de conflitos como ocorreu no Iraque e na Líbia após intervenções americanas.>
Amorim, que é assessor especial para Assuntos Internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diz que a justificativa de Israel e Estados Unidos para os ataques recentes — o risco de o Irã desenvolver uma bomba nuclear — não se sustenta.>
Ao mesmo tempo, diz estar pessimista com os rumos da guerra entre Israel e Irã, porque o envolvimento americano faz com que a crise se alastre e, ao mesmo tempo, seja mais difícil prever seu desfecho.>
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Essa é uma emergência tão grave quanto a crise dos mísseis que o mundo atravessou durante a Guerra Fria, diz Amorim, e que será "inevitável" que os líderes dos Brics se debrucem sobre ela na sua próxima cúpula, marcada para o início de julho, no Rio de Janeiro.>
"O que está sendo atacado agora não é só o Irã, mas a ordem internacional", afirma o embaixador brasileiro.>
No entanto, Amorim avalia que, diferentemente do que ocorreu no passado, quando o Brasil foi chamado a intermediar um acordo com o Irã sobre seu programa nuclear, o governo brasileiro tem "zero chance" de trabalhar por uma solução para o conflito atual.>
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A mudança de regime no Irã foi aventada publicamente no domingo (22/6) pelo presidente americano, Donald Trump.>
"Não é politicamente correto usar o termo 'mudança de regime', mas se o atual regime iraniano não é capaz de tornar o Irã grande de novo, por que não poderia haver uma mudança de regime", disse Trump em uma postagem na rede Truth Social — embora a Casa Branca tenha em seguida afirmado que este não é um objetivo declarado dos Estados Unidos.>
Para Amorim, "o povo iraniano não vai aceitar uma interferência estrangeira". >
"Tentar mudar o regime no Irã vai ser um caos pior do que o que ocorreu no Iraque e na Líbia", diz Amorim, acrescentando que uma escalada da crise na região seria uma "grande ameaça" para todo o mundo.>
O embaixador se refere aos conflitos que surgiram no Iraque e na Líbia após as intervenções dos Estados Unidos e de países europeus nos dois países. >
Em 2003, sem aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os Estados Unidos invadiram o Iraque e depuseram o então ditador Saddam Hussein.>
À época, a justificativa para o ataque era de que o país detinha armas de destruição em massa. Essas armas, porém, nunca foram localizadas.>
Após o fim do regime, o país foi tomado por uma série de conflitos internos que levou ao surgimento do grupo autodeclarado Estado Islâmico. Os conflitos levaram à morte de centenas de milhares de iraquianos.>
Situação semelhante aconteceu na Líbia. Em 2011, o país então governado pelo ditador Muamar Kadafi, foi alvo de uma ação militar liderada pelos Estados Unidos e países europeus como o Reino Unido e a França. A ação acabou derrubando Kadafi, que foi posteriormente morto por tropas rebeldes.>
Desta vez, Israel e Estados Unidos têm justificado os ataques ao Irã afirmando que eles teriam o objetivo de impedir o país de obter armas nucleares. No sábado (21/6), o governo americano anunciou que bombardeou instalações nucleares do Irã. >
Para Amorim, no entanto, essa tese não se justifica. Ele diz não acreditar que os iranianos tenham armas nucleares ou que estejam perto de obtê-las.>
"Há 15 anos, quando estávamos negociando um acordo sobre o programa nuclear iraniano a pedido dos Estados Unidos, eu estive em Israel, e eles me disseram que os iranianos iriam ter uma bomba nuclear em seis meses", diz Amorim. >
"Até hoje, é sempre daqui a seis meses. Mas nunca será. Eles (iranianos) sabem que o risco de ter uma bomba nuclear é muito grande.">
Amorim diz estar pessimista sobre a evolução do conflito e considera que os ataques do Irã a bases americanas no Catar foram uma reação "previsível".>
"Tenho falado há muito tempo que essa é uma guerra com um imenso potencial para se alastrar e isso já está acontecendo", afirma.>
O embaixador diz que o envolvimento dos Estados Unidos no conflito torna o desfecho da crise ainda mais incerto.>
"É uma grande ameaça para o mundo. Se o Irã fechar o Estreito de Ormuz, o impacto no preço do petróleo vai ser imenso", diz Amorim.>
"Agora, temos o envolvimento dos Estados Unidos. Acho que não estava nos cálculos que o Irã pudesse revidar a Israel e aos Estados Unidos. Não sei o que Trump vai fazer, mas considerando o julgamento que eles (governo Trump) costumam fazer, eu, honestamente, espero o pior.">
Amorim também afirmou que o agravamento da crise envolvendo o Irã deverá ser abordado na reunião de cúpula dos Brics, que está prevista para os 5 a 7 de julho, no Rio de Janeiro. >
Os Brics são um grupo de países formado por Brasil, Rússia, China, África do Sul, Índia, Irã, Etiópia, Egito, Arábia Saudita e Indonésia.>
"É um assunto inevitável, até porque o que está sendo atacado agora não é só o Irã, mas a ordem internacional. E a ordem internacional já está sendo atacada há algum tempo", diz Amorim.>
Segundo ele, a situação é tão perigosa quanto a vivida pelo mundo durante a conhecida crise dos mísseis, envolvendo os Estados Unidos e a então União Soviética, em 1962.>
"A crise dos mísseis envolvia duas pessoas que tinham um telefone vermelho entre elas e que se comunicavam e faziam raciocínios razoavelmente pragmáticos de um lado e do outro, independentemente da ideologia", diz Amorim.>
"Agora, temos duas guerras de grande porte, uma na Ucrânia e outra no Oriente Médio. Quem achar que isso será um passeio na relva está enganado.">
A posição de Amorim está em linha com a nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores na semana passada sobre os bombardeios na região. O governo brasileiro condenou os ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã.>
"O governo brasileiro expressa grave preocupação com a escalada militar no Oriente Médio e condena com veemência, nesse contexto, ataques militares de Israel e, mais recentemente, dos Estados Unidos, contra instalações nucleares, em violação da soberania do Irã e do direito internacional", disse o governo brasileiro. >
A posição brasileira, no entanto, é diferente da do G7, grupo que reúne Estados Unidos, Reino Unido, Itália, França, Canadá, Japão, Alemanha e União Europeia, divulgada na semana passada, e que defendeu as ações israelenses.>
Apesar de condenar os ataques americanos e israelenses ao Irã, Amorim diz não ser contra a existência do Estado de Israel. >
"Claro que nós também defendemos a existência de Israel, mas dentro do modelo que a ONU prevê, com dois Estados [Israel e Palestina] e dentro de todos os acordos firmados até agora", diz o diplomata. >
Amorim afirma, no entanto, que o Brasil não teria neste momento condições de mediar uma solução pacífica para o conflito. >
O diplomata foi um dos principais envolvidos em um acordo sobre o programa nuclear intermediado pelo Brasil e pela Turquia que tinha sido previamente aceito pelo Iraque e por potências como os Estados Unidos e países europeus. >
Após o aceite dos iranianos, no entanto, os americanos mudaram de posição e não mantiveram o acordo. >
A Casa Branca acusou o Irã de assinar o acordo apenas para ganhar mais tempo e evitar sanções, que foram aprovadas em junho de 2010 no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com votos contrários de Brasil e Turquia.>
"O Brasil tem zero chance [de mediar]. Porque [em 2009] nossa ação partiu de um pedido do Barack Obama [então presidente dos Estados Unidos]. E nós fizemos exatamente o que nos pediram, em conjunto com a Turquia", afirma o diplomata. >
"Se os Estados Unidos mudaram de ideia no meio do caminho é outra questão.">
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