Publicado em 26 de novembro de 2025 às 09:24
Os Estados Unidos designaram o Cartel de los Soles (Cartel dos Sóis, em espanhol) — um grupo que, segundo os EUA, é liderado pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e por outros integrantes de seu governo — como uma organização terrorista estrangeira.>
Essa designação dá às agências de segurança e aos militares dos EUA mais poderes para investigar e desmantelar o grupo.>
Nos últimos meses, os EUA intensificaram a pressão sobre Maduro, considerando seu governo ilegítimo após a eleição de 2024, amplamente rejeitada por acusações de fraude. A medida representa mais um instrumento para aumentar a pressão.>
Mas, por outro lado, questionamentos sobre a existência do Cartel de los Soles também têm ganhado força. O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela rejeitou a designação "de forma categórica, firme e absoluta", a descrevendo como "uma mentira nova e ridícula".>
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Não surpreendentemente, o ministro do Interior e Justiça da Venezuela, Diosdado Cabello, há muito chama o cartel de "fabricação".>
Cabello, apontado pelos EUA como um dos integrantes de alto escalão do cartel, acusa autoridades americanas de usar a alegação como pretexto para atingir adversários.>
"Sempre que alguém os incomoda, nomeiam a pessoa como chefe do Cartel de los Soles", disse Cabello em agosto.>
Gustavo Petro, presidente de esquerda da vizinha Colômbia, também negou a existência do cartel.>
"É uma desculpa fictícia da extrema-direita para derrubar governos que não lhes obedecem", escreveu Petro na rede social X, em agosto.>
O Departamento de Estado dos EUA mantém, porém, que o Cartel de los Soles não apenas existe como também "corrompeu as forças militares, de inteligência, o Legislativo e o Judiciário da Venezuela".>
Especialistas consultados pela BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) dizem que a verdade está em algum ponto no meio dessas alegações.>
O termo Cartel de los Soles surgiu no início da década de 1990.>
Ele foi cunhado pela imprensa venezuelana após acusações de tráfico de drogas contra um general responsável pelas operações antidrogas na Guarda Nacional da Venezuela, e se referia à insígnia em forma de sol usada pelos generais nas ombreiras para indicar sua patente.>
Mike LaSusa, especialista em crime organizado nas Américas e diretor adjunto de conteúdo da Insight Crime, afirmou que o termo logo passou a ser usado para todos os funcionários venezuelanos supostamente ligados ao tráfico de drogas, independentemente de integrarem ou não a mesma organização.>
Raúl Benítez-Manau, especialista em crime organizado da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), afirmou que as atividades do grupo começaram no final da década de 1980 e início da década de 1990, em resposta aos acontecimentos na vizinha Colômbia, a maior produtora de cocaína do mundo.>
Na época, o poderoso Cartel de Medellín, baseado na cidade colombiana de mesmo nome, estava sendo desmantelado, e uma ofensiva antidrogas no país apresentava resultados.>
Com as rotas de contrabando tradicionais sob pressão, argumenta Benítez-Manau, o Cartel de los Soles passou a oferecer caminhos alternativos para transportar cocaína da Colômbia.>
O grupo se fortaleceu nos primeiros anos da presidência de Hugo Chávez (1954-2013), presidente de esquerda que liderou a Venezuela de 1999 até sua morte em 2013, segundo Benítez-Manau.>
"Chávez gostava de desafiar os EUA e cortou todos os vínculos de cooperação militar entre o exército venezuelano e os EUA", explicou Benítez-Manau.>
Sem a supervisão da Drug Enforcement Administration (DEA, agência antidrogas dos EUA), "alguns oficiais do Exército [venezuelano] se sentiram à vontade para fazer negócios com criminosos", disse.>
A simpatia de Chávez pelas guerrilhas de esquerda das Farc, na Colômbia — que se financiavam em grande parte pelo tráfico de cocaína — também redirecionou parte do tráfico pela Venezuela, acrescentou.>
Sob pressão militar na Colômbia, o grupo guerrilheiro transferiu algumas operações para a Venezuela, seguro de que o presidente venezuelano "os via como aliados ideológicos de esquerda", explicou Benítez-Manau.>
Wesley Tabor, ex-agente da DEA que atuou na Venezuela, disse que as Farc encontraram não apenas "um refúgio seguro na Venezuela", mas também que muitos funcionários do governo, "da polícia de rua à aviação militar", rapidamente se tornaram parceiros no tráfico de drogas.>
Juntos, eles "começaram a inundar os EUA com centenas de toneladas de cocaína", afirmou.>
O Cartel de los Soles, portanto, difere de outras redes de drogas por não ter uma estrutura formal, disse LaSusa.>
Não se trata de um grupo em si, disse ele, mas de "um sistema de corrupção generalizada".>
Ele acrescenta que o cartel tem sido alimentado pela crise econômica que atingiu a Venezuela sob o sucessor de Chávez, Nicolás Maduro.>
"O regime de Maduro não consegue oferecer um salário decente às forças de segurança e, para manter a lealdade delas, permite que aceitem subornos de traficantes", explicou LaSusa.>
Oficiais de patente média e baixa que controlam os principais pontos de entrada e saída do país, como aeroportos, compõem o Cartel de los Soles, disse Benítez-Manau, pois estão em posição privilegiada para facilitar o fluxo de drogas.>
Mas autoridades dos EUA insistem que os tentáculos do cartel alcançam os mais altos escalões do governo de Maduro, incluindo o próprio presidente.>
Em 2020, o Departamento de Justiça dos EUA acusou Maduro e 14 outros de conspirar com grupos armados colombianos para enviar cocaína aos EUA. Entre os funcionários de alto escalão citados estavam o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, e o ex-presidente do Supremo Tribunal da Venezuela, Maikel Moreno.>
Na denúncia, os promotores americanos também afirmaram que, desde pelo menos 1999, o Cartel de los Soles era liderado e administrado por Maduro, pelo ministro do Interior, Diosdado Cabello, pelo ex-chefe de inteligência militar Hugo Carvajal e pelo ex-general Clíver Alcalá.>
Segundo eles, as informações fornecidas por ex-oficiais venezuelanos de alta patente, incluindo Carvajal e Alcalá, confirmam essas acusações.>
Leamsy Salazar, ex-chefe de segurança do falecido Hugo Chávez, forneceu informações sobre o Cartel de los Soles às autoridades dos EUA já em 2014.>
Salazar, que deixou a Venezuela com ajuda da DEA, disse que Cabello liderava o Cartel de los Soles.>
Cabello negou a acusação, afirmando se tratar de uma "conspiração internacional".>
Mas as denúncias de ex-funcionários venezuelanos continuaram.>
Em 2020, o general Alcalá se entregou a agentes da DEA após desentendimentos com o governo de Maduro e se declarou culpado por apoiar as Farc e suas operações de tráfico de cocaína.>
No início deste ano, o ex-chefe de inteligência venezuelano Hugo Carvajal, que também fugiu da Venezuela após discordar de Maduro, se declarou culpado em um tribunal dos EUA por tráfico de drogas e narcoterrorismo.>
"Durante anos, ele e outros oficiais do Cartel de los Soles usaram cocaína como arma, inundando Nova York e outras cidades americanas com veneno", disse um promotor federal sobre Carvajal, conhecido como "El Pollo" (A Galinha), durante o julgamento.>
Maduro e o ministro do Interior, Cabello, permanecem na Venezuela, mas os EUA aumentaram recentemente as recompensas por informações que levem à captura deles para US$ 50 milhões (R$ 190 milhões) e US$ 25 milhões (R$ 95 milhões), respectivamente.>
A BBC News Mundo entrou em contato com o governo venezuelano para comentar as acusações dos EUA, mas não recebeu resposta antes da publicação.>
No entanto, o governo de Maduro há muito rejeita as acusações de tráfico de drogas como uma tentativa dos Estados Unidos de justificar a derrubada do presidente.>
Em comunicado divulgado na segunda-feira (24/11), o ministério das Relações Exteriores da Venezuela classificou a designação do Cartel de los Soles como organização terrorista como "uma fabricação ridícula".>
O governo insistiu que o Cartel de los Soles é "inexistente" e que a medida constitui "uma mentira vil para justificar uma intervenção ilegítima e ilegal contra a Venezuela".>
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