Publicado em 21 de setembro de 2022 às 17:51
SÃO PAULO - O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, renovou as acusações contra a Rússia em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU nesta quarta-feira (21).>
O americano disse que Moscou rompeu princípios da Carta das Nações Unidas, documento fundador da entidade. E, embora não tenha chegado a pedir a expulsão do país do Conselho de Segurança — o mais poderoso colegiado do organismo multilateral —, afirmou que a Rússia desrespeita um dos tópicos fundamentais da carta, que impede países-membros de ameaçarem ou usarem a força contra a integridade territorial ou independência política de outras nações.>
"Essa guerra busca a extinção do direito de a Ucrânia existir como um Estado, pura e simplesmente", declarou o democrata. "O mundo precisa ver esses atos absurdos pelo que são. Se as nações puderem exercer suas ambições imperiais sem que haja consequências, então colocamos em risco tudo o que esta instituição representa.">
Biden ainda afirmou que a única coisa que impede hoje o fim da Guerra da Ucrânia é a própria Rússia. O conflito ganhou uma nova escalada nesta quarta, quando Vladimir Putin determinou pela primeira vez a mobilização de até 300 mil reservistas para o conflito e voltou a ameaçar adversários com uma guerra nuclear.>
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Vale lembrar que, a despeito do tom utilizado pelo presidente no discurso, o Ocidente por oito anos viu a Crimeia, de resto uma região historicamente russa, ser absorvida sem muito mais do que sanções e protestos. Além disso, os próprios EUA desafiaram preceitos da ONU ao invadir o Iraque em 2003, numa ação vista pelo então secretário-geral do órgão, Kofi Annan, como ilegal.>
Além do anúncio desta quarta, que despertou reações em âmbito global, a Rússia promove no final da semana referendos para que regiões capturadas no leste e no sul da Ucrânia decidam se querem se tornar parte do território russo — Biden e outros líderes ocidentais chamam o processo de farsa.>
A lógica da ação russa é simples. Em um cenário em que as regiões hoje ucranianas mudem de bandeira, qualquer eventual ataque ao território seria, no entendimento legal do Kremlin, um ataque à própria Rússia e, por consequência, um gatilho para pôr em prática a doutrina nuclear de Moscou.>
O mais recente movimento de Putin foi também um alerta aos aliados da Otan, e em especial aos EUA, cuja administração já desembolsou mais de US$ 15 bilhões em ajuda militar à Ucrânia.>
Na ONU, Biden chamou de irresponsáveis as ameaças de seu homólogo russo. "Uma guerra nuclear não pode ser vencida, e não deve jamais ser lutada", afirmou, condenando ainda iniciativas nucleares do Irã, com o qual negocia um novo acordo no âmbito há meses, e da China, que, segundo ele, está "construindo um arsenal nuclear sem nenhuma transparência".>
Foi o único comentário mais agressivo do americano sobre a nação asiática. No mais, ele reiterou seu compromisso com a política de "uma China única", que não reconhece a independência de Taiwan, e repetiu sua fala nas Nações Unidas no ano passado de que os EUA "não buscam uma nova Guerra Fria".>
Biden ainda abordou no discurso uma série de outros tópicos prementes na agenda global, como insegurança alimentar, crise do clima e combate a doenças. Mas não tocou em política interna, contrariando a expectativa de alguns analistas que previam algum tom eleitoral em sua fala.>
Às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, Biden vem deixando de lado os pedidos de união entre democratas e republicanos para elevar o tom contra apoiadores do ex-presidente Donald Trump, chamando-os de "inimigos da democracia", acusando-os de estarem determinados "a levar o país para o passado" e assumindo o que ele chama de "batalha pela alma da nação".>
Por tradição, o presidente americano é sempre o segundo chefe de Estado a falar na Assembleia-Geral — seu discurso deveria ter ocorrido na véspera, após o pronunciamento de Jair Bolsonaro. O democrata adiou o discurso para o segundo dia do evento em decorrência de sua viagem a Londres para o funeral da rainha Elizabeth 2ª.>
Na agenda do líder para o dia, consta ainda um encontro com a delegação ucraniana, mas sem equivalente com o grupo russo, segundo afirmou a embaixadora americana na ONU à imprensa local.>
Diferentemente da maioria dos líderes mundiais, Putin não foi a Nova York. Em seu lugar, mandou o chanceler Serguei Lavrov, que, alvo de sanções da Casa Branca, até o último minuto não sabia se conseguiria viajar. A ironia é que foi esta mesma ONU que deu prestígio a Lavrov, já que, antes de se tornar o líder da diplomacia de Moscou, ele foi embaixador na entidade por dez anos e era conhecido pelo bom relacionamento com outras autoridades.>
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