Publicado em 19 de setembro de 2025 às 04:32
A recente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por uma tentativa de golpe vem sendo rodeada, desde quando ele ainda estava sendo julgado no Supremo Tribunal Federal (STF), por uma discussão paralela: o pleito por uma anistia a ele, seus aliados e apoiadores. >
Na quarta-feira (17/09), a Câmara dos Deputados aprovou regime de urgência para um projeto que pode perdoar pessoas condenadas por participar de manifestações antidemocráticas no contexto das eleições de 2022. >
O texto ainda deve passar por mudanças, e não está claro qual poderá ser seu impacto para o ex-presidente.>
Na volta do recesso parlamentar, deputados federais e senadores chegaram a bloquear os trabalhos no Congresso — entre outros motivos, cobrando que o Legislativo se debruçasse sobre o assunto.>
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Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e possível candidato à presidência em 2026, já declarou que conceder anistia a Bolsonaro seria seu "primeiro ato" caso assumisse o Planalto. >
Enquanto isso, nos Estados Unidos, o deputado federal (PL-SP) Eduardo Bolsonaro pressiona o governo americano para que apoie a pauta. >
Em julho, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e denunciou uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro na Justiça brasileira. >
Ele e membros de seu governo já fizeram várias críticas públicas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, relator da ação penal que condenou Bolsonaro. O governo Trump também penalizou o ministro, que foi a primeira autoridade brasileira a ser sancionada com a Lei Magnitsky. >
Mas, embora seja tema constante do noticiário atual, a anistia está longe de ser um assunto novo no Brasil.>
Do Império às ditaduras do século 20, as anistias foram usadas em vários momentos como ferramenta de governabilidade e acomodação de forças políticas.>
O historiador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 15 tentativas de golpe no Brasil desde 1889. Seis delas tiveram algum tipo de anistia. >
O levantamento do historiador faz parte de seu livro Utopia autoritária brasileira (selo Crítica, Editora Planeta, 2025). A BBC News Brasil tentou entrevista com Fico, mas não houve disponibilidade.>
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As experiências brasileiras são criticadas por entrevistados pela BBC News Brasil por não "curarem a ferida" de fato — deixando de punir pessoas e instituições que cometeram atos de violência.>
Segundo esses especialistas, vários dos processos de anistia no país também falharam em promover um diálogo real e a conciliação entre as partes políticas envolvidas, além de não terem sido divulgados de forma apropriada a ponto destes serem amplamente conhecidos pela população. >
"É verdade que o Brasil teve muitas anistias, mas cada uma delas mostra a correlação de forças entre os grupos políticos naquele momento", afirma Carla Simone Rodeghero, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).>
A especialista aponta que, em vários capítulos da história brasileira, ideias de conciliação e pacificação foram exaltadas pelas elites para, na realidade, conduzir anistias que evitaram a responsabilização por abusos e violações.>
Para entender as críticas aos episódios de anistia no Brasil, vale primeiro olhar como esse tipo de processo ocorreu em outras partes do mundo.>
Na América Latina, Argentina, Chile e Uruguai aprovaram leis desse tipo durante transições de regimes autoritários para a democracia. >
Diferente do caso brasileiro, em que o debate sobre anistia se deu em diversos momentos, prolongou-se por décadas e sofreu diversas reinterpretações, nesses países as anistias foram mais pontuais.>
Na Argentina, logo após a redemocratização, o governo de Raúl Alfonsín levou a julgamento, em 1985, os nove comandantes das três primeiras juntas da ditadura (1976-1983) por graves e massivas violações de direitos humanos. Cinco foram condenados.>
Depois, o Congresso tentou reverter o quadro quando, em 1986 e 1987, aprovou as chamadas leis do Ponto Final e da Obediência Devida. Elas limitavam a responsabilização de militares envolvidos em violações de direitos humanos durante o período.>
Mas não foi o fim da história.>
Em 2003, o Congresso argentino revogou essas normas, e em 2005, a Suprema Corte confirmou sua inconstitucionalidade. A partir daí, reabriram-se centenas de processos e vários altos comandantes foram condenados, entre eles o general Jorge Rafael Videla, ditador entre 1976 e 1981.>
Ele foi sentenciado em 2010 à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Faleceu em 2013, enquanto cumpria a pena.>
Já no Chile, a lei de anistia foi decretada em 1978, ainda na ditadura de Augusto Pinochet, eximindo de responsabilidade os autores de abusos cometidos desde o golpe militar de 1973 até a data da promulgação da lei. Apesar de a lei nunca ter sido revogada, o Judiciário reinterpretou certos aspectos dos crimes para julgá-los.>
Por exemplo: o desaparecimento forçado passou a ser considerado um crime que não se encerra enquanto a vítima não é encontrada. Assim, como outros crimes que seguiam em curso depois de 1978 e, portanto, não estava coberto pela anistia, decidiu o Judiciário.>
Pinochet, inclusive, chegou a ser preso em 1998, acusado de genocídio e terrorismo.>
Na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial, a França aprovou perdões pontuais — não uma anistia ampla e bilateral — a pessoas que participaram ou colaboraram com a ocupação nazista.>
A Espanha teve a Lei da Anistia de 1977, que marcou a passagem da ditadura comandada por Francisco Franco entre 1939 e 1975 à democracia. Foi um perdão tanto para os opositores quanto para os perpetradores do regime.>
Já a África do Sul, após o regime do apartheid, criou uma Comissão da Verdade e Reconciliação e concedeu o perdão tanto a representantes do regime quanto rebeldes, mas condicionando-o à confissão dos crimes.>
O que em outros países foi uma medida de reparação, no Brasil foi de "impunidade e esquecimento", avalia Marcelo Torelly, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), se referindo à Lei de Anistia de 1979, que permitiu o retorno de exilados e a libertação presos políticos, assim como o perdão a crimes políticos ou conexos praticados na ditadura. >
"Existem diversos tipos de anistia. As anistias dadas 'em branco' aumentam a polarização, e a consequência é um ambiente de política nacional ainda mais tensionado, ainda mais deletério", diz o professor, que estuda justiça de transição (conjunto de medidas judiciais e extrajudiciais que sociedades podem adotar para lidar com violações de direitos humanos ocorridas durante ditaduras, conflitos internos e outros períodos de exceção).>
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Uma das primeiras anistias no Brasil possibilitou que um exilado virasse depois patrono da Independência.>
Em 12 de novembro de 1823, o recém-coroado imperador D. Pedro 1º mandou tropas cercarem a Assembleia Constituinte no Rio de Janeiro, interrompeu os trabalhos e ordenou prisões.>
Entre os alvos estavam José Bonifácio e seus irmãos, Antônio Carlos e Martim Francisco, "os Andradas". Eles foram detidos e enviados ao exílio na França.>
A Constituinte discutia limites ao poder imperial, enquanto a crise política esquentava com uma guerra na imprensa: jornais ligados aos Andradas criticavam o "partido português" no entorno do imperador.>
Logo depois da dissolução da Assembleia, o governo imperial, em medida provisória, definiu regras sobre imprensa.>
"Excitar os povos à rebelião" e "atacar a forma de governo" passaram a ser puníveis com exílio e multas — uma base legal que permitia o cerceamento a críticos.>
Somente entre 1828 e 1829 os irmãos Andradas conseguiram voltar ao Brasil.>
Isso só aconteceu porque, em decreto de 1825, D. Pedro 1º anistiou envolvidos em rebeliões anteriores, "lançando um véu de esquecimento sobre as opiniões passadas", segundo o texto.>
De acordo com o livro História dos Fundadores do Império do Brasil, de Octávio Tarquínio de Sousa, o decreto era parte de um esforço do Império para garantir um "governo central prestigioso, ativo, forte" que aplacasse tensões entre diversos grupos sociais e regiões. >
No final dos anos 1820, D. Pedro 1º já estava enfraquecido politicamente e tentava recompor alianças. Assim, era uma boa estratégia reaproximar-se de José Bonifácio, um homem que era requisitado por sociedades científicas e elites e tinha prestígio na Europa.>
Após a abdicação de D. Pedro 1º em 1831, Bonifácio chegou a ser nomeado tutor de D. Pedro 2º — um sinal claro de reintegração ao poder imperial. Sua nomeação foi aprovada pelo Senado e pela Assembleia, o que mostra que contava com apoio relevante.>
Foi essa "volta por cima" que o alçou à figura de patrono da Independência.>
A Constituição de 1824 conferia ao imperador prerrogativas amplas.>
A anistia, quando ocorria, era lida como gesto de clemência do soberano, mais do que como reconhecimento de direitos de oposição.>
Segundo os especialistas, os perdões eram seletivos: lideranças, geralmente representada por elites, eram reintegradas, mas as bases sociais dos conflitos raramente eram contempladas.>
Esse padrão se mostrou quando o Império se viu às voltas com rebeliões regionais.>
Um exemplo foi a Guerra dos Farrapos (1835–1845), conflito civil no Rio Grande do Sul liderado por estancieiros e oficiais que proclamaram a República Rio-Grandense e, por um período, a República Juliana em Santa Catarina.>
O conflito terminou com o Acordo de Poncho Verde, acompanhado de anistia e integração dos líderes farroupilhas (que conduziram a revolta) ao Exército imperial.>
No Norte, a Cabanagem (1835–1840) mobilizou indígenas, negros e outros grupos marginalizados no Grão-Pará em torno de demandas locais, com participação de alguns membros da elite regional.>
Foram esses membros da elite os perdoados, que aceitaram uma reconciliação com o Império.>
Seguindo o "manual", a instalação da República, a partir de 1889, também usou da anistia como peça de estabilização.>
As anistias da Primeira República (1889-1930) mostram um padrão: o Estado alternava entre repressão forte e perdão condicionado a reintegrações (processos aos quais os anistiados tinham de se submeter).>
Para militares que participaram de rebeliões, por exemplo, houve a previsão de afastamento do serviço por dois anos depois do pedido de perdão. >
Mesmo depois do período, a anistia era uma escolha do Executivo e poderia não ser concedida.>
Um ano depois da Revolta da Vacina, em 1905, um decreto perdoou quem "teve parte nos sucessos da noite de 14 de novembro de 1904" e ocorrências relacionadas.>
Isto é, tanto civis que se rebelaram contra a vacinação obrigatória quanto agentes do governo que reprimiram protestos com violência.>
Já em 1910, na Revolta da Chibata, motim de marinheiros liderados por João Cândido contra castigos corporais e racismo na Marinha, um decreto no mesmo ano concedeu anistia aos insurretos em troca da rendição dos navios.>
O acordo foi quebrado pelo governo dias depois: prisões, expulsões e mortes de revoltosos se seguiram, episódio hoje lembrado como "anistia traída".>
Quase um século depois, o Congresso restaurou simbolicamente esses direitos e deu anistia póstuma a João Cândido e outros envolvidos.>
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Com o início da Era Vargas em 1930, veio outra onda de anistias.>
Após a Revolução Constitucionalista de 1932, derrotada militarmente, veio a anistia de 1934 — que reabriu portas a lideranças paulistas, importantes economicamente, e ajudou a esfriar as tensões.>
A mensagem era pragmática: derrotados poderiam voltar ao jogo desde que sob novas regras, as do presidente Getúlio Vargas.>
A partir de 1937, o Estado Novo intensificou sua estrutura repressora.>
A Constituição autoritária, a Lei de Segurança Nacional e o Tribunal de Segurança Nacional (TSN) formaram um sistema que tipificou como "crimes políticos" uma série de condutas de oposição.>
"Os processos são de caráter sumário, assegurada a defesa nos termos da lei, e as decisões têm execução imediata", escreveu sobre a estrutura o Jornal do Brasil em 1941.>
"Compete ao Tribunal […] os crimes políticos e os atos que atentem contra a ordem interna".>
Outros registros da época ajudam a ilustrar como isso funcionava de forma prática.>
Em 1940, o mesmo jornal noticiou que "dezenas de pessoas foram denunciadas ao TSN" por tentarem "reorganizar o Partido Comunista do Brasil".>
Quando a Segunda Guerra Mundial caminhava para o fim, com tropas brasileiras regressando da Itália e um novo calendário eleitoral em preparação, houve uma intensa e rápida campanha pela anistia de 1945.>
Segundo Carla Simone Rodeghero, da UFRGS, a volta das forças expedicionárias para o Brasil favoreceu a ideia de pátria e união.>
Comitês femininos, entidades civis e órgãos de imprensa defenderam a anistia como condição para a "pacificação".>
"Quando há um certo afrouxamento desse regime, que é possível a oposição se manifestar, começam a aparecer discursos sobre a necessidade de anistiar esses crimes", explica Rodeghero.>
Ícones de campos opostos, como Luiz Carlos Prestes, liderança comunista, e Armando de Sales Oliveira, liberal, foram convertidos em símbolos de reintegração à vida pública.>
No jornal Folha da Manhã, o escritor Jorge Amado — membro do Partido Comunista Brasileiro que, no ano seguinte, tornaria-se deputado federal — defendeu uma "anistia ampla, que seja capaz de fazer esquecer os antigos ressentimentos, medida pacificadora de toda a família brasileira".>
Em abril de 1945, o perdão veio em forma de decreto, abraçando todos os opositores de Vargas, dos comunistas aos integralistas (movimento de extrema-direita inspirado no fascismo europeu).>
O texto não incluiu eventuais abusos cometidos pelo próprio regime — mas não houve grande mobilização, nem entre os opositores, para que a ditadura de Vargas fosse investigada e punida.>
"Não era a anistia que importava. Mas sim a libertação dos presos. E nós passamos a pedir liberdade para os presos. O importante era abrir as portas das cadeias", disse Luiz Carlos Prestes segundo o livro Prestes: lutas e autocríticas, de João Quartim de Moraes e Luis Werneck Viana.>
Décadas depois, a anistia retornou à agenda após a ditadura militar instaurada em 1964.>
Em 1970, os jornais já noticiavam os pedidos de anistia aos exilados feitos pela oposição consentida pelo regime, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), dentro do Congresso.>
Mais tarde, a partir de 1975, o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA) articulou redes de familiares e ativistas; em 1978, os Comitês Brasileiros pela Anistia (CBAs) nacionalizaram a pauta.>
No começo, o vocabulário da "reconciliação" ainda estava presente. Mas houve uma virada semântica.>
"A expressão 'pacificação' era praticamente o oposto da expressão 'anistia ampla, geral e irrestrita'. Pacificar está muito associado também a esquecer", aponta Rodeghero.>
Em 1979, o psicanalista Hélio Pellegrino, que também foi opositor do Estado Novo, publicou uma série de artigos no jornal O Pasquim sobre o tema — entre eles, o com título Anistia, anistia, anistia, contrapondo-se à ideia de pacificação e criticando soluções que produzissem "paz de aparência" ao relativizar crimes de Estado.>
A Lei de Anistia de 1979, formulada a partir de um texto do governo ditatorial de João Figueiredo, libertou presos, permitiu o retorno de exilados e reintegrou punidos — uma parte positiva da anistia, segundo Torelly.>
O problema ficou, no entanto, na extensão do perdão aos chamados "crimes conexos", definidos pela lei como "crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política".>
Esse texto abriu espaço para uma leitura usada para amparar agentes do Estado, já que seus atos de repressão, como tortura, execuções e desaparecimentos, poderiam ser enquadrados como "crimes relacionados" à luta política. >
Foi essa interpretação que consolidou a anistia de 1979 como bilateral: perdoava tanto perseguidos quanto perseguidores.>
"Foi quase que um tiro no pé", diz Rodeghero.>
"Os agentes da repressão não foram investigados, sequer reconheciam que tinham cometido algum tipo de crime, mas ainda assim eles foram anistiados. Com a lei, não teve nem o reconhecimento de que os crimes existiram, porém houve o perdão a esses crimes".>
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Mais tarde, a Constituição de 1988 estabeleceu novas regras para as anistias.>
Se em momentos anteriores essa prerrogativa de perdão ficava na mão exclusiva do Executivo, a nova carta definiu que a anistia é de iniciativa do Legislativo, mesmo que fique sujeita à sanção ou veto presidencial.>
"A Constituição de 1988 é absolutamente contrária à anistia para graves violações contra os direitos humanos, como é precisamente o caso da anistia de 1979", diz Torelly.>
A jurisprudência, contudo, manteve a leitura do perdão bilateral.>
Em 2010, em uma ação movida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Supremo Tribunal Federal (STF) recusou o pedido para reinterpretar a Lei de Anistia e para afastar o perdão para crimes comuns praticados por agentes do Estado na ditadura.>
A maioria seguiu o voto do ministro relator Eros Grau, que argumentou que a lei resultou de um "acordo político" de transição, não cabendo ao Judiciário contemporâneo reescrever esse pacto.>
"É esse modelo que chamamos de 'anistia de impunidade e esquecimento', que permeia toda a discussão sobre justiça de transição no Brasil", diz Torelly.>
Ficaram vencidos Ayres Britto e Ricardo Lewandowski (hoje ministro da Justiça e da Segurança Pública).>
A discussão sobre punição por crimes cometidos durante a ditadura voltou ao STF com o sucesso do filme vencedor do OscarAinda Estou Aqui, que narra a história verídica da família do ex-deputado federal Rubens Paiva, assassinado sob tutela do Estado.>
Com isso, a Corte aceitou recursos para reabrir o debate sobre se tortura praticada na época ainda deve ser passível de punição penal, independente de quanto tempo tenha se passado — isto é, ser um crime imprescritível. >
As ações aguardam julgamento.>
Houve tentativas de lidar com essas feridas em outras esferas além do judiciário, como a Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada durante o governo de Dilma Rousseff para apurar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988 — e que deu mais atenção aos abusos cometidos durante a última ditadura (1964 a 1985).>
Apesar de avaliar que a CNV foi criada tarde e que teve que enfrentar bastante resistência na sociedade, Torelly afirma que CNV cumpriu três feitos principais: reforçou a responsabilização por violações; promoveu normas internacionais de direitos humanos; e enfrentou o silêncio militar sobre o passado autoritário.>
"A justiça de transição não dá conta de mudar 100% a sociedade. Ela é um remédio para uma doença", diz o professor da UCB.>
"O fato relevante para mim é que as pesquisas mostram que o apoio à democracia é maior agora do que antes e que as instituições deram conta mesmo do violentíssimo estresse do governo Bolsonaro".>
As discussões atuais em torno da anistia a envolvidos nos ataques antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, no entanto, são muito distintas das anistias que a história do Brasil nos conta, diz Carla Rodeghero.>
"Não é a mesma coisa anistiar atos punidos por legislações de exceção, caso típico de ditaduras, e delitos praticados em normalidade democrática, onde todos os canais estão abertos", aponta a historiadora.>
Mesmo assim, é possível aplicar aprendizados do passado no presente e no futuro.>
"Não existe apenas um tipo de anistia, existem anistias possíveis", diz Torelly, que, para o caso do 8 de janeiro, defende revisar penas aplicadas, por exemplo, por depredação de patrimônio público quando consideradas exageradas.>
Além disso, para quem cometeu infrações sem violência, ele propõe combinar redução de pena com serviços comunitários e estudos cívicos (com conteúdo sobre, por exemplo como funciona o Judiciário, como se fazem leis e por que certas condutas são consideradas criminosas numa democracia).>
"Dizer 'está tudo bem, vá para casa' não é reconciliação", diz.>
"Isso é fazer as pessoas pensarem que elas estão legitimadas a agir fora do ordenamento jurídico, porque eventualmente elas vão receber o perdão de alguém com poder. Seja o Congresso Nacional, seja o próximo presidente eleito, seja o Judiciário em certas composições.">
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