Publicado em 7 de outubro de 2025 às 10:32
Após dois anos de guerra, surge a possibilidade de um acordo para pôr fim às mortes e à destruição na Faixa de Gaza e devolver às suas famílias os reféns israelenses, vivos e mortos.>
Trata-se de uma oportunidade, mas não se sabe ao certo se o Hamas e Israel irão aproveitá-la.>
É uma sinistra coincidência que as discussões estejam acontecendo exatamente dois anos depois que o Hamas infligiu a Israel um trauma ainda tão profundo.>
Os ataques de 7 de outubro de 2023 — que completam dois anos nesta terça-feira (7/10) — mataram cerca de 1,2 mil pessoas — em sua maioria, civis israelenses. E 251 pessoas foram feitas reféns.>
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Israel calcula que 20 reféns ainda estejam vivos e quer o retorno dos corpos de outros 28.>
A reação militar devastadora de Israel destruiu a maior parte da Faixa de Gaza, matando mais de 66 mil palestinos, a maioria civis, incluindo mais de 18 mil crianças.>
Os números são do Ministério da Saúde de Gaza, que faz parte do que restou do governo do Hamas. Suas estatísticas são geralmente consideradas confiáveis.>
Mas um estudo da revista médica The Lancet, publicado em Londres, indicou que estes números seriam subestimados.>
Israelenses e palestinos querem o fim da guerra.>
Os israelenses estão cansados dos combates e as pesquisas indicam que a maioria quer um acordo de devolução dos reféns que ponha fim à guerra.>
Centenas de milhares de reservistas que atuam nas Forças de Defesa de Israel (FDI) querem retomar suas vidas, depois de passarem vários meses de uniforme, em serviço.>
Mais de dois milhões de palestinos na Faixa de Gaza enfrentam uma catástrofe humanitária. Eles ficaram presos entre o poder de fogo das FDI e a fome — criada, em certas regiões, pelas restrições israelenses à entrada de ajuda humanitária no território.>
A versão do Hamas que conseguiu atacar Israel com força devastadora dois anos atrás foi destruída há muito tempo como organização militar consistente. Ela passou a ser uma guerrilha urbana, que organiza uma insurgência contra as FDI em meio às ruínas.>
O Hamas quer encontrar uma forma de sobreviver, mas concordou em ceder o poder aos tecnocratas palestinos.>
O grupo aceita que precisará entregar ou desmantelar o que restou das suas armas pesadas, mas deseja manter poder de fogo suficiente para se defender dos palestinos que desejam vingança, após quase duas décadas de regime brutal e a catástrofe que os ataques do Hamas trouxeram sobre eles.>
O grupo não afirma isso publicamente, mas uma organização que ainda mantém seguidores e um estatuto que busca destruir Israel também irá querer se reerguer com força suficiente para reconstruir sua capacidade e justificar seu nome. Hamas é a sigla de Movimento de Resistência Islâmica.>
Israel gostaria de ditar os termos da rendição do Hamas. Mas a possibilidade de uma negociação séria abre para o grupo possibilidades que pareciam impossíveis apenas um mês atrás.>
Foi naquela época que Israel tentou, sem sucesso, matar os líderes do Hamas em uma série de ataques a um edifício em Doha, no Catar, onde eles discutiam propostas de paz apresentadas pelo presidente americano, Donald Trump.>
Seu principal alvo, o líder sênior Khalil al-Hayya, chefiava a delegação do Hamas nas conversações realizadas no resort de Sharm el-Sheikh, no mar Vermelho. O filho de al-Hayya estava entre os mortos, mas os líderes escaparam com vida.>
Já o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem outro tipo de sobrevivência em mente.>
Ele quer preservar seu poder, continuar postergando seu julgamento por corrupção, vencer as eleições do ano que vem e não entrar para a história como o líder responsável por erros de segurança que levaram ao dia mais mortal para os judeus desde o holocausto nazista.>
Para isso, ele precisa de uma forma viável de declarar "vitória total", uma expressão que ele vem usando repetidamente.>
Netanyahu definiu essa vitória como a devolução dos reféns, a destruição do Hamas e a desmilitarização da Faixa de Gaza. E, se ele não conseguir, relembrar os danos muito reais infligidos por Israel aos seus inimigos no Líbano e no Irã nos últimos dois anos não será suficiente.>
O Hamas e os negociadores israelenses não irão se encontrar pessoalmente. Autoridades do Egito e do Catar servirão de intermediários, com a presença dos EUA.>
Esta influência americana será importante e, talvez, decisiva.>
A base dos diálogos é o plano de paz de 20 pontos para Gaza, apresentado por Donald Trump.>
O que o presidente americano não irá conseguir, apesar das suas insistentes postagens nas redes sociais sobre a paz permanente, é pôr fim ao longo conflito entre israelenses e palestinos pelo controle das terras entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo.>
O plano não menciona o futuro da Cisjordânia, que é a outra parte dos territórios que o Reino Unido e outros países reconheceram como o Estado da Palestina.>
Os desafios em Sharm el-Sheikh são grandes. Existe a possibilidade de se chegar a um cessar-fogo que poderá pôr fim à guerra mais sangrenta e destrutiva ocorrida em mais de um século de conflitos entre árabes e judeus.>
O primeiro desafio é definir as condições de libertação dos reféns israelenses, em troca de palestinos que cumprem prisão perpétua nas prisões de Israel e cidadãos da Faixa de Gaza que foram detidos sem julgamento desde o início da guerra. E esta tarefa não será fácil.>
Trump quer ver resultados, e rápido. Ele deseja reviver sua ambição de negociar um grande acordo no Oriente Médio, no que seria uma reaproximação entre Israel e a Arábia Saudita.>
Mas isso não poderá acontecer enquanto Israel continuar matando inúmeros civis palestinos em Gaza, impondo restrições à ajuda humanitária que causam grande sofrimento, e o Hamas continuar retendo reféns israelenses.>
Os sauditas também deixaram muito claro, em uma série de declarações públicas, que isso também não pode acontecer sem um caminho claro e irreversível para um Estado palestino independente.>
Trump forçou Netanyahu a assinar um documento que inclui uma referência reconhecidamente vaga e indeterminada à possibilidade da independência palestina. E, em declaração posterior, o primeiro-ministro israelense preferiu ignorar este ponto, repetindo sua promessa de que os palestinos nunca terão um Estado independente.>
Grande parte do documento de Trump inclui o que Israel deseja em termos de pôr fim ao poder do Hamas e em relação ao futuro governo de Gaza.>
Netanyahu se acostumou a conseguir as coisas do seu jeito na Casa Branca. Mas Trump o forçou a ler um pedido de desculpas formal ao primeiro-ministro do Catar pelo ataque aéreo que não conseguiu eliminar a liderança do Hamas.>
Trump precisa do Catar ao seu lado para levar adiante suas ambições de remodelar o Oriente Médio.>
Uma questão é por que o Hamas estaria disposto a entregar os reféns sem um cronograma definido para que Israel deixe a Faixa de Gaza e termine a guerra.>
Uma possibilidade é que o Catar os tenha convencido de que Trump irá assegurar que isso aconteça, se eles oferecerem a possibilidade a Israel de reivindicar vitória, repatriando todos os reféns israelenses, vivos e mortos.>
Ainda assim, Trump continua usando a linguagem que Netanyahu precisa que os israelenses ouçam — como sua ameaça ao Hamas se eles rejeitarem o acordo, prometendo "total apoio" a Israel para seguir adiante e destruir o Hamas.>
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou que serão necessários apenas alguns dias para verificar se o Hamas está falando sério. Levará mais tempo para definir os pontos concretos que serão necessários para se chegar a um acordo completo.>
Até agora, tudo o que eles têm é o esqueleto do acordo apresentado por Trump.>
Dois anos depois que o longo e não resolvido conflito entre israelenses e palestinos resultou na guerra na Faixa de Gaza, o maior desafio é pôr fim às mortes e garantir o futuro imediato de palestinos e israelenses.>
Será necessário manter hábil diplomacia e comprometimento prolongado com os detalhes, que são poucos e preciosos no plano de 20 pontos proposto por Trump. A tentativa de encontrar a redação precisa que irá preencher as lacunas poderá enfrentar muitos obstáculos.>
Ninguém detém opinião mais positiva sobre a capacidade de Trump de fazer acordos do que ele próprio. Mas, na política externa, os resultados ainda não justificam sua ostentação.>
Ele não conseguiu encerrar diversas guerras. E o número exato de quantos conflitos ele afirma ter encerrado varia de acordo com a forma como ele conta esta história.>
O mais notório é que Trump não pôs fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia no dia seguinte à sua posse, como ele havia previsto.>
Mas uma habilidade que Trump realmente possui, depois de uma vida inteira passada no setor imobiliário, é o seu instinto inato sobre como aplicar pressão para conseguir o que ele deseja.>
As negociações indiretas no Egito estão acontecendo porque Trump conseguiu pressionar os dois lados.>
Ameaçar o Hamas com a sua extinção, se eles se recusassem a aceitar seu plano, foi a parte fácil. Os presidentes americanos lideram a pressão internacional sobre o Hamas desde que o grupo venceu a eleição palestina de 2006 e usaram a força para tomar Gaza dos seus rivais palestinos do Fatah no ano seguinte.>
A grande diferença entre Trump e os ex-presidentes Clinton, Obama e Biden é que ele reage de forma mais dura e incisiva às tentativas de Netanyahu de manipulá-lo, em comparação com a disposição ou mesmo a capacidade dos seus predecessores democratas de fazer o mesmo.>
Trump presumiu que a resposta "sim, mas..." do Hamas à sua proposta é na verdade um "sim" sólido para a paz. E foi o suficiente para que ele seguisse adiante.>
O portal de notícias americano Axios informou que, quando Netanyahu tentou convencê-lo de que o Hamas estava ganhando tempo, Trump respondeu com um palavrão, perguntando ao primeiro-ministro de Israel por que ele é "tão negativo".>
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Israel depende dos EUA, parceiro fiel durante a guerra. Sem a ajuda americana, Israel não poderia ter atacado a Faixa de Gaza de forma tão prolongada e implacável.>
Os EUA fornecem a maior parte das suas armas, além de proteção política e diplomática, vetando diversas resoluções no Conselho de Segurança das Nações Unidas, destinadas a pressionar Israel a encerrar a guerra.>
O ex-presidente Joe Biden, que se definia como sionista irlandês, nunca fez uso do poder decorrente da dependência israelense dos EUA.>
Mas Trump coloca seus planos para os EUA em primeiro lugar. Ele usou esse poder latente dos EUA sobre Israel para fazer Netanyahu se dobrar à sua vontade — pelo menos, em relação à sua participação nas negociações.>
Resta saber se esta pressão irá continuar, pois Trump costuma mudar de opinião.>
As delegações de Israel e do Hamas enfrentam críticos domésticos poderosos, que desejam que a guerra continue.>
Fontes do Hamas declararam à BBC que os comandantes militares que ainda se encontram na Faixa de Gaza estão preparados para lutar até o fim e levar com eles o máximo possível de israelenses.>
Já a coalizão de Netanyahu conta com o apoio de extremistas ultranacionalistas. Eles acreditavam que estariam próximos do seu sonho de expulsar os palestinos da Faixa de Gaza e substituí-los por colonos judeus.>
Se as negociações no Egito fracassarem, os dois desfechos se tornarão possíveis.>
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