Publicado em 8 de setembro de 2023 às 13:54
Jovens aranhas saltadoras ficam penduradas por um fio durante a noite, numa caixa em um laboratório. De vez em quando, suas pernas se curvam e suas fiandeiras (glândulas responsáveis pela produção da seda para confecção das teias) se contraem. >
As retinas dos seus olhos, visíveis através dos seus exoesqueletos translúcidos, movem-se para frente e para trás.>
"O que estas aranhas fazem parece assemelhar-se – muito de perto – ao sono REM”, diz Daniela Rößler (pronuncia-se Rôsslar), ecologista comportamental da Universidade de Konstanz, na Alemanha. >
Durante o sono REM (sigla em inglês para movimento rápido dos olhos), os olhos de um animal adormecido movem-se de forma imprevisível, entre outras características.>
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Nas pessoas, o REM ocorre quando acontece a maioria dos sonhos, principalmente os mais vívidos. Isto leva a uma questão intrigante: se as aranhas têm sono REM, será que os sonhos também se desenrolam nos seus cérebros do tamanho de uma semente de papoula?>
Rößler e seus colegas estudaram sobre as aranhas que movimentam os olhos em 2022. Com câmeras em 34 aranhas, eles descobriram que as criaturas tinham breves comportamentos semelhantes ao REM a cada 17 minutos. >
O revirar de olhos era algo específico desses episódios: não acontecia em momentos da noite em que as aranhas saltadoras se mexiam, se espreguiçavam, reajustavam seus fios de seda ou se limpavam com o roçar de uma perna.>
Embora as aranhas fiquem imóveis antes desses episódios do tipo REM, a equipe ainda não provou que estão dormindo. Mas se esse for o caso – e se o que parece ser REM é realmente REM – sonhar é uma possibilidade real, diz Rößler. >
Ela acha fácil imaginar que as aranhas saltadoras, como animais altamente visuais, possam se beneficiar dos sonhos como forma de processar as informações que captaram durante o dia.>
Rößler não é a única pesquisadora a pensar sobre essas questões em animais distantes de nós. >
Hoje, cientistas estão encontrando sinais de sono REM numa gama mais ampla de animais do que nunca: em aranhas, lagartos, chocos (um tipo de molusco marinho) e peixes-zebra. O número crescente faz com que alguns pesquisadores se perguntem se o sonho, um estado que antes se pensava ser limitado aos seres humanos, é muito mais difundido do que se pensava.>
O sono REM é geralmente marcado por um conjunto de características além dos movimentos rápidos dos olhos: paralisia temporária dos músculos esqueléticos (aqueles responsáveis pela postura e movimento), espasmos corporais periódicos e aumento da atividade cerebral, respiração e frequência cardíaca. >
Observado em bebês dormindo em 1953, o REM logo foi identificado em outros mamíferos, como gatos, ratos, cavalos, ovelhas, gambás e tatus.>
Os eventos no cérebro durante o REM foram bem caracterizados, pelo menos em humanos. >
Durante os períodos não REM, também conhecidos como sono tranquilo, a atividade cerebral é sincronizada. Os neurônios disparam simultaneamente e depois ficam quietos, especialmente no córtex cerebral, produzindo ondas de atividade conhecidas como ondas lentas. >
Durante o REM, por outro lado, o cérebro apresenta explosões de atividade elétrica que lembram a vigília.>
Mesmo entre os mamíferos, o sono REM não parece todo igual. >
Mamíferos marsupiais chamados equidnas apresentam características de sono REM e não REM ao mesmo tempo. >
Relatórios sobre baleias e golfinhos sugerem que eles podem nem ter experiência REM. Os pássaros têm sono REM, que vem com espasmos no bico e nas asas e perda de tônus nos músculos que sustentam suas cabeças.>
Ainda assim, os pesquisadores começam a encontrar estados de sono semelhantes em muitos ramos da árvore da vida animal.>
Em 2012, por exemplo, pesquisadores relataram um estado semelhante ao do sono em chocos, bem como um curioso comportamento semelhante ao REM durante esse suposto estado de sono: periodicamente, os animais moviam os olhos rapidamente, contraíam os tentáculos e alteravam a coloração de seus corpos. >
Durante um período de pesquisa no Laboratório de Biologia Marinha em Woods Hole, Massachusetts, a bióloga comportamental Teresa Iglesias investigou mais a fundo o fenômeno, recolhendo terabytes de vídeo de meia dúzia de chocos.>
Todos os seis apresentaram episódios de atividade semelhante ao REM que se repetiam aproximadamente a cada 30 minutos: explosões de movimentos dos tentáculos e movimentos dos olhos, durante os quais a pele deles dava um show, apresentando uma variedade de cores e padrões. >
As criaturas emitiram sinais de camuflagem e sinais para chamar a atenção, ambos exibidos durante comportamentos de vigília. >
Como o cérebro do cefalópode controla diretamente esse padrão de pele, "isso sugere que a atividade cerebral está ficando um pouco agitada", diz Iglesias, agora no Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa, no Japão.>
Desde então, os pesquisadores observaram um estado semelhante em polvos. >
Se os polvos e os chocos sonham, "isso simplesmente derruba as paredes daquilo que pensamos sobre a humanidade ser tão especial", diz Iglesias.>
Pesquisadores também observaram um estágio semelhante ao REM em dragões barbudos (também chamados de pogonas, um tipo de lagarto), registrados em seus cérebros a partir de eletrodos. >
Também relataram pelo menos dois estados de sono em peixes-zebra com base nas assinaturas cerebrais dos peixes. Em um dos estados, a atividade neural foi sincronizada como acontece no estágio não-REM dos mamíferos. >
Em outro estado, os peixes apresentaram atividade neural que lembra um estado de vigília, como acontece no REM. (Os peixes, no entanto, não mostraram movimentos rápidos dos olhos.)>
Observando múltiplos estágios do sono em um animal evolutivamente tão distante de nós, os autores sugeriram que os diferentes tipos de sono surgiram há centenas de milhões de anos. >
Sabe-se agora que as moscas também podem alternar entre dois ou mais estados de sono. As lombrigas parecem ter apenas um estado de sono.>
Pesquisadores consideram a possibilidade de animais não humanos sonharem durante o sono tipo REM porque as criaturas apresentam comportamentos semelhantes aos da vigília neste estado – como a mudança de cor dos cefalópodes ou o tremor das fiandeiras das aranhas. >
Em pombos, a cientista do sono Gianina Ungurean, do Instituto Max Planck de Inteligência Biológica em Munique e da Universidade de Medicina de Göttingen, observou, com colegas, que as pupilas se contraem durante o REM, tal como acontece durante o comportamento de acasalamento. >
Isso levanta a dúvida sobre se os pombos estão sonhando ou de alguma forma revivendo o que aconteceu durante os momentos de namoro acordados, diz ela.>
O sono REM também tem sido associado à repetição de experiências em alguns animais. >
Por exemplo, quando pesquisadores observaram a atividade elétrica cerebral de ratos adormecidos que já tinham percorrido um labirinto, viram o disparo de neurônios que ajudam na navegação e estão ligados à direção da cabeça, mesmo que as cabeças dos ratos não estivessem em movimento. >
Eles também observaram atividade em neurônios associados ao movimento ocular. A combinação sugere que os ratos podem ter tido uma experiência onírica em que examinavam o ambiente, diz Ungurean.>
Com todos estes sinais, é justo acreditar que os animais podem estar sonhando, diz Ungurean. >
"No entanto, se considerarmos estas razões uma por uma, verifica-se que nenhuma delas é suficiente", pondera a pesquisadora. >
A atividade cerebral associada à repetição, como a dos ratos que correm no labirinto, não ocorre apenas durante o REM ou o sono, diz Ungurean. Também pode ocorrer durante o planejamento ou devaneio. >
E a ligação entre REM e sonho não é absoluta: os humanos também sonham em períodos não-REM, e quando são usados medicamentos para suprimir o sono REM, os participantes humanos do estudo ainda podem ter sonhos longos e bizarros.>
Em última análise, as pessoas sabem que estão sonhando porque podem relatar isso, diz Ungurean. >
"Mas os animais não podem reportar, e este é o maior problema que temos em estabelecer isto de forma puramente científica e robusta.">
Ainda há debate sobre para que serve o REM. "Ninguém sabe realmente qual é a função do sono – não-REM ou REM", diz Paul Shaw, neurocientista da Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos.>
Uma das ideias mais aceitas é que o REM ajuda o cérebro a formar e reorganizar memórias. >
Outras teorias são que o REM dá suporte ao desenvolvimento cerebral, ajuda no desenvolvimento dos sistemas de movimento do corpo, mantém os circuitos necessários para as atividades de vigília, para que não se degradem durante o sono, ou aumenta a temperatura do cérebro.>
Mas se o REM estiver presente em espécies distantes do reino animal, isso sugere que o seu papel, seja ele qual for, pode ser muito importante, diz Iglesias.>
Nem todos os cientistas acreditam que os pesquisadores estão observando REM. >
Eles podem simplesmente estar partindo de noções preconcebidas de que todos os animais têm dois estados de sono e interpretando um deles como REM, diz Jerome Siegel, neurocientista que estuda o sono na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA, na sigla em inglês). >
Alguns destes animais – como as aranhas – podem nem estar dormindo, argumenta. >
"Os animais podem fazer coisas que parecem iguais [aos humanos], mas a fisiologia não é necessariamente a mesma", diz ele.>
Os pesquisadores continuam em busca de pistas. >
A equipe de Rößler está tentando desenvolver formas que lhes permitam visualizar os cérebros das aranhas através de imagens – isso pode revelar ativação em áreas que são funcionalmente análogas àquelas que usamos quando sonhamos. >
Iglesias e outros implantaram eletrodos nos cérebros de cefalópodes e capturaram sua atividade elétrica durante dois estados de sono – um que mostra atividade semelhante à da vigília e outro que é um estado tranquilo, com assinaturas neurais semelhantes às observadas em mamíferos. >
E Ungurean treinou pombos para dormir em uma máquina de ressonância magnética e descobriu que muitas das áreas do cérebro que se iluminam no sono REM humano também são ativadas em pássaros.>
Se chocos, aranhas e uma grande variedade de outras criaturas sonham, isso levanta questões interessantes sobre o que eles vivenciam, diz David M. Peña-Guzmán, filósofo da Universidade Estadual de São Francisco e autor do livro When Animals Dream: The Hidden World of Animal Consciousness (Quando animais sonham: O mundo oculto da consciência animal, em tradução livre). >
Como os sonhos se desenrolam a partir da perspectiva do observador, os animais sonhadores teriam a capacidade de ver o mundo do seu ponto de vista, diz ele.>
Sonhar também sugeriria que eles têm capacidade imaginativa, acrescenta. >
"Queremos pensar que os humanos são os únicos que podem realizar aquela ruptura com o mundo [representada pela sonho]", diz ele. "Talvez tenhamos que pensar um pouco mais sobre outros animais.">
*Este artigo foi publicado originalmente pela Knowable Magazine e republicado pela BBC Future sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a verão original em inglês.>
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