Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 10:15
Quando Isidora Gómez e Ernesto Mendoza se instalaram, nos anos 1970, no bairro El Chorrillo, no oeste da capital do Panamá, chegaram atraídos pela tranquilidade e pela segurança.>
O edifício para onde se mudaram — e onde ainda vivem — chama-se 24 de Diciembre, mas os moradores locais o conhecem como "o 15 andares". Ali, no apartamento 6-10, criaram seus três filhos.>
Eles já moravam ali na madrugada de 20 de dezembro de 1989, quando os Estados Unidos invadiram o Panamá com o objetivo de derrubar o governo liderado por Manuel Antonio Noriega, a quem acusavam de narcotráfico.>
Essa havia sido a última vez em que o governo americano havia removido o líder de um país da América Latina até o início de 2026, quando, na madrugada de 3 de janeiro, militares americanos atacaram a Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro e a primeira dama. >
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Os temores de que a região poderia viver algo parecido com o que aconteceu no Panamá mais de três década atrás vinha crescendo nos últimos meses diante de ataques dos Estados Unidos a embarcações que o governo de Donald Trump acusava de transportar drogas e, mais recentemente, da interceptação de petroleiros venezuelanos.>
Jovana Mendoza, a filha do meio do casal, hoje com 54 anos, relembra sua experiência em 1989: "Ouvia-se de tudo: bombardeios, tiros".>
Ao lado da casa deles ficava o quartel-general das Forças de Defesa do Panamá, sede do comando militar de Noriega, o que transformou El Chorrillo em alvo do ataque americano.>
Além disso, eles estavam próximos da zona do Canal do Panamá, uma área dentro do país que era ocupada pelos Estados Unidos, que, na época, controlavam a rota marítima transoceânica e mantinham presença militar.>
O "15 andares" foi um dos poucos edifícios residenciais da região que permaneceram de pé depois da invasão americana ao Panamá.>
Na terça-feira, 19 de dezembro de 1989, na casa da família Mendoza Gómez, tudo transcorria normalmente. A única coisa diferente era a proximidade das celebrações de Natal e de fim de ano.>
Ernesto voltava do trabalho em um armazém; Isidora esteve na Avenida Central fazendo compras de Natal; Jovana e seu irmão mais novo, Ernesto José, de 10 anos, preparavam-se para dormir, pois no dia seguinte precisavam ir à escola.>
Eram os últimos dias do ensino médio de Jovana, mas a então adolescente não teria cerimônia de formatura por causa da invasão. "Eu sentia dor, tristeza, porque não me formei como eu queria", diz.>
Meses depois, ela apenas passou por sua antiga escola para retirar o diploma do ensino médio.>
Embora os Mendoza Gómez não quisessem Noriega no poder, também não tinham expectativas de uma mudança para o país.>
Uma série de acontecimentos ocorridos no Panamá em 1989 culminou com o então presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush, enviando entre 20 mil e 30 mil soldados ao país centro-americano para, entre outros objetivos, levar Noriega "à justiça".>
Em maio de 1989, foram realizadas eleições gerais no Panamá para escolher um novo presidente e a Assembleia Nacional Legislativa.>
O pleito foi anulado por Noriega diante da possibilidade de a oposição, liderada por Guillermo Endara, assumir o poder. >
Os dirigentes políticos foram atacados e perseguidos pelos chamados "Batalhões da Dignidade", uma milícia formada por civis simpatizantes do regime de Noriega.>
Cinco meses depois, em outubro, houve uma tentativa de golpe de Estado contra Noriega. A conspiração, liderada pelo major Moisés Giroldi, fracassou e terminou com a execução de Giroldi e de seus companheiros.>
Cada vez mais pressionado e cercado pelo governo Bush, em 15 de dezembro Noriega declarou o Panamá em "estado de guerra" com os Estados Unidos.>
Um dia depois, um integrante da Marinha dos EUA morreu baleado em um confronto com militares panamenhos em um posto de controle próximo ao quartel-general das Forças de Defesa do Panamá.>
Esse episódio é apontado como o estopim da incursão dos Estados Unidos no Panamá por terra, mar e ar.>
Na noite de 19 de dezembro, um vizinho de El Chorrillo alertou Ernesto sobre uma possível invasão.>
Isidora diz que a informação também foi divulgada no Canal 8, uma emissora de televisão americana que transmitia em inglês a partir da Zona do Canal.>
Mas, apesar da crescente tensão entre os dois países, Isidora não acreditou que aquilo fosse acontecer: "Como é que vão invadir o Panamá se aqui não havia armas? E essa gente vive em guerra por todo lado e tem armas e tanques".>
No apartamento 6-10 estavam Isidora, Ernesto, Jovana e Ernesto José quando, depois das 23h, começaram as explosões.>
Os filhos correram para o quarto dos pais. O medo tomou conta deles e, por instinto, usaram o colchão de casal como proteção, tentando se cobrir do ataque.>
"Eu me joguei com eles para rezar debaixo do colchão da cama", conta Ernesto.>
As primeiras explosões estilhaçaram os vidros do apartamento, deixando a família ainda mais exposta. Imediatamente, a casa deles, assim como o restante do prédio, ficou sem energia elétrica.>
"A única luz que se via era o fogo do que estava pegando fogo", relata Isidora.>
O ataque em El Chorrillo não cessava. As horas passaram com eles debaixo do colchão, até que, às 3 da madrugada, um vizinho lhes disse para se moverem para os corredores do prédio, onde poderiam se proteger completamente atrás das paredes.>
Com a luz do Sol no dia 20 de dezembro, as explosões e os tiroteios cessaram, mas somente às 10 da manhã ouviram uma voz vinda de um megafone ordenando: "Saiam todos com as mãos para o alto. Vamos evacuar".>
Militares americanos começaram a entrar no prédio. Apontaram as armas para eles. Uma das pessoas que estava perto da família Mendoza Gómez gritou: "Somos civis!".>
Eles saíram do local com as mãos para o alto. "Todos formamos uma fila, caminhávamos sem saber para onde íamos. Apenas obedecíamos às ordens dos militares que nos guiavam", lembra Jovana.>
No trajeto, viram o bairro coberto de fumaça e cinzas. Também encontraram alguns corpos.>
"Vi uma tanqueta passar por cima de um carro vermelho onde havia uma pessoa", relata Isidora.>
Desde El Chorrillo, as famílias caminharam até a Zona do Canal, controlada pelos americanos. >
O Estádio Balboa foi improvisado como abrigo. Depois, foram levados para os hangares da base aérea de Albrook, da Força Aérea dos Estados Unidos, no local onde hoje funciona o Aeroporto Internacional Marcos A. Gelabert.>
Ali permaneceram por vários meses antes de poderem voltar ao apartamento.>
E, embora três dias após a invasão tenham sido autorizados a ir às suas casas em busca de objetos pessoais, naquele momento os apartamentos do "15 andares" já haviam sido vandalizados.>
Os Mendoza Gómez foram sobreviventes de uma invasão que não tem um número claro de vítimas fatais, com estimativas que variam de 300 a 3 mil pessoas. A ONU, por exemplo, estima que cerca de 500 civis panamenhos tenham morrido.>
Isidora diz que, embora tenha sentido medo, não guardou rancor: "Eles queriam Noriega. Se ele tivesse se entregado, isso não teria acontecido".>
Noriega ficou refugiado na nunciatura (nome dado à embaixada do Vaticano) até 3 de janeiro de 1990, quando finalmente se entregou às forças americanas. Ele foi levado para Miami, nos EUA, para enfrentar julgamento por acusações de narcotráfico e morreu na prisão 27 anos depois.>
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