Publicado em 23 de novembro de 2025 às 13:24
No fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, milhões de egípcios se reuniam em torno da televisão cada vez que a série "Raafat Al-Haggan" ia ao ar, para ver o agente egípcio Raafat coletando informações em Israel e enviando-as para sua terra natal, o Egito.>
A história de Raafat Al-Haggan, cujo verdadeiro nome era Refaat Ali Suleiman Al-Gammal, é uma das mais emocionantes e misteriosas da história da inteligência egípcia.>
Ela foi documentada em um relato ficcional no livro "Fui um espião em Israel", de Saleh Morsi.>
O romance, uma fonte-chave para compreender a história de Gammal, narra a vida de um homem que viveu sob uma identidade falsa em Israel durante 17 anos, fornecendo informações vitais à inteligência egípcia.>
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Morsi o publicou inicialmente em capítulos na revista egípcia Al-Musawwar.>
Desde a primeira publicação, em 3 de janeiro de 1986, o texto chamou a atenção de muitos.>
A compilação desses episódios em "Fui um espião em Israel" foi publicada em 1988. Nesse mesmo ano, o romance foi adaptado para a já mencionada série de televisão "Raafat Al-Haggan", composta por três partes.>
Embora a série e o romance apresentem Gammal como um herói nacional egípcio, surgiram versões israelenses que questionam sua lealdade ao Egito, alegando que ele era um agente duplo.>
Qual é a história por trás desse personagem misterioso?>
Segundo o relato de Morsi, Gammal nasceu em 1º de julho de 1927, em Damietta, no Egito, e cresceu em um ambiente modesto.>
Após a morte de seu pai, um comerciante de carvão, em 1936, seu meio-irmão mais velho decidiu transferir a família de Damietta para o Cairo, onde Gammal se matriculou na Escola Comercial Intermediária.>
Depois de se formar, candidatou-se a um emprego como contador em uma companhia petrolífera no Mar Vermelho, da qual foi posteriormente demitido após ser acusado de desvio de fundos da empresa.>
Mais tarde, conseguiu um posto como assistente de contabilidade em um navio que o levou a vários portos europeus.>
Na juventude, Gammal era ambicioso, tinha um intelecto aguçado, talento para a atuação e grande capacidade de se adaptar a diferentes circunstâncias. Dominou o inglês e o francês desde cedo, o que mais tarde o ajudaria em sua missão.>
A jornada de Gammal com a inteligência egípcia começou após a Revolução de 1952, quando o Serviço Geral de Inteligência do Egito estava sendo criado sob a liderança de Zakaria Mohieddin.>
Gammal havia se envolvido em fraudes e falsificações enquanto viajava pela Europa, o que levou à sua prisão no Egito em 1952. Ali, os serviços de inteligência viram uma oportunidade de recrutá-lo como espião devido à sua capacidade excepcional de se disfarçar e assumir múltiplas identidades.>
A inteligência egípcia lhe ofereceu duas opções: prisão ou trabalhar como agente para eles.>
Ele optou pela segunda alternativa e iniciou um treinamento intensivo que incluiu o aprendizado de técnicas de espionagem, como o uso de tinta secreta, a decifração de códigos, o manuseio de rádios e a fotografia com câmeras de precisão.>
Também recebeu treinamento sobre costumes e cultura judaicos, incluindo a distinção entre judeus asquenazes e sefarditas, para se adaptar à sociedade israelense.>
Recebeu uma nova identidade: "Jacques Bitton", um judeu egípcio que teria emigrado para Israel em 1955.>
Assim começou sua trajetória como espião no coração da sociedade israelense, e ele recebeu o número de "Agente 313" na inteligência egípcia.>
Segundo o relato de Morsi, Gammal conseguiu construir uma ampla rede de contatos em Israel, estabelecendo uma bem-sucedida empresa de turismo como fachada para suas atividades.>
Essa empresa, chamada "Sea Tours", permitiu que ele se conectasse com figuras proeminentes da sociedade israelense, incluindo políticos e militares.>
Gammal tinha carisma e grande habilidade para inspirar confiança, o que lhe permitiu penetrar profundamente nos círculos israelenses.>
Durante sua missão, ele forneceu informações vitais à inteligência egípcia, em especial sobre os preparativos militares israelenses.>
Entre seus feitos mais notáveis, segundo a narrativa egípcia, esteve seu papel na Guerra de Outubro de 1973, quando forneceu ao Egito informações precisas sobre a Linha Bar-Lev, uma cadeia de fortificações construída por Israel ao longo da margem leste do canal de Suez.>
Isso contribuiu para o sucesso da travessia egípcia no início daquela guerra.>
O livro retrata Gammal como uma figura patriótica, movida pelo amor ao seu país, apesar das contradições de sua vida.>
Destaca os sacrifícios que fez, incluindo viver longe de sua terra natal e de sua família, além do estresse psicológico de manter seu segredo.>
O romance também aborda detalhes da vida pessoal de Gammal, incluindo seu casamento com Waltraud Bitton, uma alemã com quem se casou durante uma visita à Alemanha em 1963, e com quem teve um filho, Daniel.>
O relacionamento continuou até sua morte, sem que ela soubesse quem seu marido realmente era.>
Waltraud contou que Gammal se apresentou a ela como um judeu israelense de origem franco-egípcia chamado Jacques Bitton.>
Ele disse que havia nascido em Mansoura, no Egito, em 23 de agosto de 1929.>
Seu pai seria um empresário francês que trabalhava no Egito e se casou com uma egípcia, com quem teve dois filhos. Jacques era o mais velho, enquanto Robert, o irmão mais novo, teria se suicidado.>
Após a morte da mãe, o pai teria se casado novamente com uma francesa que tinha duas filhas. Ele não se sentia confortável vivendo com elas e fugiu da família.>
Waltraud Bitton, que escreveu um livro, também contou como Gammal expôs o espião israelense Eli Cohen, que atuava na Síria com o nome de "Kamel Amin Thabet".>
Ela relatou que Gammal conheceu Cohen no Cairo em 1954, quando ambos foram presos por espionagem para Israel.>
Ao ver fotos de Cohen com oficiais sírios em um jornal árabe, ele teria informado a inteligência egípcia sobre sua identidade, que, por sua vez, transmitiu a informação à Síria, o que levou à sua captura e execução.>
Cabe destacar que existe outro relato sobre a queda de Cohen, segundo o qual ele foi preso na Síria como resultado de uma operação de vigilância de comunicações conduzida pelos serviços de segurança sírios.>
Ao contrário da narrativa egípcia, a israelense apresenta uma perspectiva completamente diferente sobre a história de Gammal.>
Segundo reportagens publicadas por jornais israelenses como Haaretz e Yedioth Ahronoth, Gammal teria sido um agente duplo depois de ser exposto e preso em Israel em 1955.>
De acordo com esse relato, após chegar a Israel sob o nome de Jacques Bitton, o serviço de inteligência interna de Israel (Shabak) descobriu suas atividades de espionagem por meio de seu sócio comercial, Imre Fried, que trabalhava para a agência.>
Sua casa em Tel Aviv foi vasculhada e, durante a investigação, o oficial de inteligência Mordechai Sharon o teria convencido a trabalhar para Israel em troca de sua libertação.>
Os israelenses afirmam que Gammal concordou e passou a fornecer informações enganosas à inteligência egípcia, o que teria contribuído para o sucesso de Israel na guerra de 1967.>
Nessa ocasião, ele teria informado aos egípcios que Israel não atacaria a Força Aérea egípcia, embora o plano fosse atacar aeródromos egípcios, o que levou à destruição da maioria das aeronaves egípcias ainda em solo.>
Segundo a narrativa israelense, esse sucesso teria transformado a operação de recrutamento de Gammal em uma das mais bem-sucedidas do Mossad (Instituto de Inteligência e Operações Especiais de Israel).>
Algumas fontes israelenses também indicam que o Mossad posteriormente ajudou Gammal a estabelecer investimentos na Europa, o que explicaria sua mudança para a Alemanha após deixar Israel em 1973.>
No entanto, há contradições nas narrativas israelenses.>
Embora alguns jornais tenham afirmado que Gammal era um agente duplo, o ex-subdiretor do Shin Bet (o serviço interno de contrainteligência israelense), Gideon Ezra, negou ter conhecimento de um espião chamado Jacques Bitton.>
E o ex-chefe do Mossad, Isser Harel, também afirmou que as autoridades israelenses perceberam uma falha grave de segurança, mas não suspeitaram de Bitton.>
Essas contradições levantaram dúvidas sobre a veracidade de alguns relatos jornalísticos israelenses.>
Alguns acreditam que essas versões teriam sido uma reação ao enorme sucesso popular da série de televisão de 1988 "Raafat Al-Haggan" no mundo árabe.>
Por outro lado, a inteligência egípcia sustenta sua versão com base no papel do espião na Guerra de Outubro de 1973.>
Os egípcios argumentam que, se Gammal tivesse sido um agente duplo, Israel teria conhecimento dos preparativos egípcios para o ataque de 1973, o que teria evitado que o Egito o surpreendesse no início daquela guerra.>
As memórias de Gammal, reveladas por sua esposa após sua morte em 1982, confirmam que ele foi leal ao Egito e que viveu uma vida repleta de sacrifícios por seu país.>
Gammal morreu em Darmstadt, perto de Frankfurt, na Alemanha, em decorrência de um câncer de pulmão.>
Na perspectiva egípcia, Gammal é um herói nacional que forneceu informações cruciais que contribuíram para a vitória do Egito na Guerra de Outubro de 1973.>
O livro de Saleh Morsi destaca aspectos humanos de seu caráter, como o amor pelas crianças e a dor diante do sofrimento alheio, e também descreve os desafios psicológicos que enfrentou por viver sob uma identidade falsa.>
Em contraste, a narrativa israelense tenta retratar Gammal como uma figura oportunista, explorada pela inteligência israelense para servir a seus interesses.>
"Fui espião em Israel" se insere no gênero da literatura de espionagem, no qual Morsi combina fatos históricos com ficção dramática para criar uma história envolvente.>
Morsi se baseou em 70 páginas de documentos fornecidos pela inteligência egípcia, mas acrescentou elementos narrativos que tornaram a história mais convincente.>
Essa combinação levou alguns a questionar a exatidão dos fatos, especialmente porque o livro não responde a algumas perguntas, como por que o Egito não se beneficiou das informações de Gammal na guerra de 1967.>
Alguns leitores interpretaram isso como reflexo de falhas no trabalho de inteligência egípcia na época, enquanto outros viram nisso as complexidades inerentes ao trabalho de inteligência.>
Culturalmente, a história de Gammal teve profundo impacto na consciência árabe, sobretudo após sua adaptação para a televisão.>
A série alcançou enorme sucesso popular e Gammal se tornou um símbolo do patriotismo egípcio.>
No fim, a história de Raafat Al-Haggan continua sendo um mistério que mistura realidade e ficção.>
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