Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 20:11
Quando Susanna Liew se colocou diante das câmeras de TV na Suprema Corte de Kuala Lumpur (Malásia) em novembro, ela descreveu o momento como um "marco histórico e emocionante".>
"Hoje… a Suprema Corte proferiu uma decisão que confirma o que há muito acreditávamos: que o pastor Raymond Koh foi vítima de uma grave injustiça", afirmou a mulher de 69 anos, com a voz trêmula, naquela noite.>
Foi uma vitória jurídica duramente conquistada e ao mesmo tempo impressionante em um caso que se tornou um dos maiores mistérios da Malásia.>
Quase nove anos antes, o marido de Liew havia sido sequestrado por homens mascarados, em plena luz do dia. O rapto foi registrado por câmeras de vigilância e manteve o país em dúvida por anos.>
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A Suprema Corte decidiu que a divisão especial da polícia levou Raymond Koh e responsabilizou tanto a polícia quanto o governo da Malásia pelo primeiro caso de desaparecimento forçado da história do país analisado por um tribunal.>
Durante anos, Liew lutou para descobrir o que aconteceu com o marido, passando de esposa de um pastor comum para uma ativista incansável.>
Ela talvez nunca saiba ao certo por que o seu marido foi levado, mas duas investigações oficiais independentes concluíram que a polícia via o pastor como uma ameaça ao islã, religião majoritária na Malásia.>
Em entrevista à BBC pouco depois da vitória judicial, Liew disse que foi movida pela busca por justiça.>
"Uma voz [dentro de mim] disse… 'Então eles o levaram em segredo, eu vou contar isso ao mundo inteiro'.">
Em 13 de fevereiro de 2017, pouco depois das 10h, o pastor Raymond Koh, então com 63 anos, saiu da casa da família para encontrar amigos.>
Quando ele deixava a residência, em um bairro tranquilo de Kuala Lumpur, uma fila de veículos utilitários esportivos e motocicletas avançou rapidamente em direção ao seu carro.>
Homens mascarados, vestidos de preto, saltaram dos veículos. Estilhaços de vidro voaram por toda parte quando eles quebraram uma das janelas do carro de Koh e arrancaram o pastor de dentro do veículo. Em seguida, eles o colocaram à força em um dos carros do grupo e fugiram, levando também o carro de Koh.>
O sequestro durou apenas alguns segundos. Foi tão dramático que uma testemunha que dirigia logo atrás de Koh afirmou mais tarde que pensou se tratar da gravação de um filme.>
Nos dias seguintes, os filhos de Koh bateram de porta em porta em busca de pistas sobre o desaparecimento do pai e descobriram que câmeras de vigilância de duas casas haviam registrado todo o incidente.>
Ao assistir às imagens, a família percebeu que não se tratava de um sequestro comum. A ação foi meticulosa e bem coordenada. Além disso, eles não receberam pedido de resgate nem foram contatados por sequestradores.>
Alguns meses antes, em novembro de 2016, um ativista chamado Amri Che Mat, do Estado de Perlis, no norte do país, havia sido sequestrado de maneira quase idêntica.>
A família de Koh procurou a imprensa, e as imagens das câmeras de segurança se espalharam rapidamente após serem publicadas online por um jornal local.>
A pressão da opinião pública por respostas levou a Comissão de Direitos Humanos da Malásia, órgão independente criado pelo Parlamento, a abrir uma investigação. Posteriormente, o governo também instaurou uma apuração separada.>
Muitos passaram a especular que a divisão especial da polícia, principal agência de inteligência e segurança interna da Malásia, estivesse envolvida. >
A polícia, no entanto, negou qualquer participação, e seu chefe chegou a pedir publicamente que as pessoas "por favor, se calassem" para que as autoridades pudessem investigar o desaparecimento em paz.>
Meses depois, ao fim das investigações, a polícia afirmou que Koh havia sido levado por uma quadrilha de tráfico de drogas. Em outro desdobramento, um motorista de Uber chegou a ser preso sob acusação de sequestro, mas a denúncia acabou sendo arquivada. Ambas as linhas de investigação foram posteriormente consideradas não críveis pela comissão de direitos humanos no relatório final do caso.>
Enquanto isso, o desaparecimento de Koh cobrou um preço alto da família.>
Liew passou a vender joias artesanais para pagar as contas, ao mesmo tempo em que recorreu às economias e a doações para custear a universidade da filha mais nova.>
Ela afirma que esperava encontrar solidariedade por parte da polícia. Em vez disso, na noite em que registrou o desaparecimento do marido, diz ter sido interrogada por cinco horas sobre a possibilidade de Koh ter tentado converter muçulmanos ao cristianismo. "Fiquei muito traumatizada.">
Mais tarde, durante a audiência da investigação da comissão de direitos humanos, o policial responsável pelo interrogatório declarou que havia recebido ordens de seus superiores para seguir essa linha de apuração porque Koh era pastor.>
Em 2011, Koh havia sido acusado de apostasia, abandono público de uma religião ou renúncia da fé, o que é crime em um país de maioria muçulmana como a Malásia, após organizar uma festa em uma igreja da qual participaram também alguns muçulmanos.>
Ele foi investigado por autoridades islâmicas, mas nenhuma medida foi adotada. Koh e a família sempre negaram que ele estivesse tentando converter muçulmanos.>
Nos anos seguintes ao desaparecimento do marido, afirma Liew, ela sentiu que "a polícia não foi transparente na investigação e, em alguns momentos, chegou a nos atrapalhar na busca pela verdade, criando pistas falsas".>
A família sustenta há muito tempo que as teorias apresentadas pela polícia foram tentativas de encobrir o envolvimento das próprias autoridades no sequestro.>
A BBC procurou a polícia da Malásia para comentar as acusações. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.>
À medida que a busca por respostas se arrastava, todos na família passaram a enfrentar quadros de depressão, diz Liew. Ela ainda sofre de crises de pânico e transtorno de estresse pós-traumático.>
Mas então houve uma reviravolta.>
Numa noite de maio de 2018, um homem apareceu na casa de Norhayati, esposa de Amri Che Mat, o ativista que havia sido sequestrado em 2016.>
Identificando-se como sargento da polícia, ele trouxe uma informação chocante: a divisão especial da polícia da Malásia havia, de fato, sequestrado o marido dela (Amri Che Mat) e também Raymond Koh.>
Segundo o policial, a polícia acreditava que Koh tentava converter muçulmanos ao cristianismo e que Amri Che Mat estava difundindo o islamismo xiita, proibido na Malásia, país de maioria sunita.>
O sargento da polícia afirmou que decidiu contar o que havia acontecido porque considerava errado o que a divisão especial tinha feito.>
O relato de Norhayati sobre essa confissão foi investigado pela comissão de direitos humanos e acabou considerado crível. Embora o sargento tenha negado posteriormente ter feito a confissão, a comissão concluiu que a negativa estava repleta de inconsistências.>
Depois, surgiu um carro dourado.>
Uma testemunha do sequestro de Koh relatou ter visto um Toyota Vios dourado, um veículo semelhante havia sido avistado perto da casa de Amri Che Mat antes de seu desaparecimento. O sargento também mencionou a presença de um carro dourado nos dois sequestros.>
Os investigadores da comissão de direitos humanos rastrearam o veículo até um homem em Kuala Lumpur que trabalhava para a divisão especial.>
Em abril de 2019, a comissão concluiu que a divisão especial foi responsável pelos sequestros de Raymond Koh e Amri Che Mat. Segundo o relatório, os dois homens foram "alvos das autoridades religiosas e da polícia por alegações de envolvimento em atividades contrárias ao islã na Malásia".>
O documento chocou os malaios, e parte da população passou a exigir responsabilização. Meses depois, o governo abriu sua própria investigação, cujo conteúdo só se tornou público após Liew e Norhayati entrarem na Justiça para ter acesso aos dados.>
A investigação governamental chegou a uma conclusão semelhante, atribuindo o caso a "policiais desonestos e irresponsáveis".>
O relatório também apontou um "principal suspeito": Awaludin bin Jadid, alto funcionário da divisão especial que chefiava a unidade responsável por combater o extremismo social. O texto registra que ele tinha "visões extremas" contra o islamismo xiita e o cristianismo e que, em discursos públicos, retratava ambas as religiões como ameaças ao islã.>
A BBC tentou contato com Awaludin, hoje aposentado, para comentar as conclusões. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.>
Anteriormente, Awaludin havia negado qualquer envolvimento no desaparecimento de Amri Che Mat e afirmou que a força-tarefa governamental responsável pelo relatório era "tendenciosa" contra ele.>
Em 2020, Liew entrou com uma ação civil em seu nome e no do marido desaparecido contra vários altos oficiais da polícia, a Polícia Real da Malásia e o governo do país.>
Ela os responsabilizava pelo desaparecimento forçado de Koh — que envolve o sequestro e a ocultação de seu paradeiro — e exigiu que revelassem onde ele está.>
No mês passado, um juiz da Suprema Corte concluiu que, entre os oficiais de polícia citados na ação e a Polícia Real da Malásia, "um ou mais" foram responsáveis pelo sequestro de Raymond Koh e por uma "conspiração que resultou em danos".>
Como se tratava de funcionários públicos atuando sob a autoridade do Estado, "o governo deve responder pelos danos causados" e, portanto, tinha "responsabilidade indireta", afirmou o juiz.>
Além de conceder a Liew uma indenização de vários milhões de ringgits (moeda oficial da Malásia) por danos emocionais, o juiz determinou o pagamento de 10 mil ringgits (cerca de R$ 11 mil) por cada dia de desaparecimento a um fundo fiduciário até que seu paradeiro seja revelado.>
Até o momento, esse valor já ultrapassou 32 milhões de ringgits (cerca de R$ 35 milhões), e o montante final deve se tornar a maior indenização da história da Malásia. Os recursos do fundo, que só serão liberados quando o paradeiro de Koh for divulgado, provavelmente irão para Liew e seus filhos.>
Norhayati, que também entrou com uma ação judicial, venceu o processo e recebeu uma indenização de vários milhões de ringgits.>
O governo, no entanto, recorre das decisões, alegando haver "questões relacionadas a obrigações financeiras" e a necessidade de "defender o princípio da justiça universal".>
Também afirmou que a polícia segue investigando os sequestros.>
A BBC procurou a polícia para comentar o veredicto. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.>
Liew espera que o governo desista do recurso. "Eu me sentiria muito cansada se tivesse de passar por tudo isso novamente", disse à BBC.>
A família já está exausta pela "incerteza de não saber onde o pastor Raymond está… é como se estivéssemos paralisados pelo luto e não conseguíssemos seguir em frente".>
"Se soubéssemos que ele está morto e tivéssemos o corpo, ao menos poderíamos enterrá-lo e seguir. Mas, neste momento, estamos em um limbo. Não sabemos: ele está morto ou vivo? E isso nos afeta muito.">
Liew se emocionou ao pensar na possibilidade de o marido estar morto. "Vai ser muito difícil aceitar isso", afirmou, acrescentando que "quer manter a esperança" de que o marido esteja vivo.>
Mas o tempo tem ajudado a família a se recompor. Inspirada pelos terapeutas que a ajudaram a enfrentar a depressão, Liew vem se preparando para se tornar uma terapeuta.>
Contar sua história também foi uma "catarse", disse. Ao longo dos anos, ao viajar pelo mundo para chamar atenção para o caso do marido, ela se tornou uma crítica contundente dos desaparecimentos forçados. Em 2020, os Estados Unidos concederam a ela a medalha internacional Mulheres de Coragem.>
"Eu nunca imaginei que estaria neste lugar. Oito anos atrás, eu era apenas uma dona de casa e uma pessoa discreta", disse.>
Liew também chegou a um momento de virada no plano pessoal: ela perdoou os homens que acredita terem levado o seu marido.>
Durante o julgamento, ao ver os réus da ação prestarem depoimento, no início "eu sentia vontade de apertar o pescoço deles. Eu estava com raiva".>
"Mas percebi que, quando fiquei frente a frente com o principal suspeito, não senti ódio… Quero estar realmente correta e pura diante de Deus, sem nenhuma sombra ou escuridão na minha vida.">
O perdão, no entanto, não significa que ela vá interromper a busca por justiça.>
Ela agora pede que as autoridades criem um órgão disciplinar para fiscalizar a conduta policial, além de uma comissão de inquérito e uma força-tarefa para identificar todas as pessoas envolvidas no sequestro do marido.>
Até agora, nenhum dos policiais citados na ação judicial foi preso ou punido. Um deles chegou a ser promovido.>
"O que realmente queremos é que a verdade e a justiça prevaleçam, que os responsáveis sejam responsabilizados e que possamos ter um encerramento adequado", afirmou. "Isso significa saber onde está o pastor Raymond Koh.">
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