Publicado em 23 de setembro de 2025 às 05:32
A Organização das Nações Unidas (ONU) inicia nesta terça-feira (23/09) os debates de sua Assembleia Geral anual marcando seu 80º aniversário em meio a questionamentos sobre sua relevância e real influência no tabuleiro geopolítico global. >
Criada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, a organização nasceu da necessidade de oferecer um espaço permanente de diálogo entre países para que fossem evitados novos conflitos. Seu propósito original era claro: dar voz a todos os Estados soberanos e criar mecanismos coletivos de manutenção da paz.>
Ao longo de oito décadas, a instituição deixou marcas profundas — da descolonização de África e Ásia à condenação do apartheid, passando pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e por missões de paz que ajudaram a encerrar conflitos e reconstruir nações. >
Mas, diante das guerras atuais, das crises humanitárias e das rivalidades entre potências, cresce a dúvida: a ONU ainda é capaz de cumprir esse papel central ou se tornou uma organização mais simbólica do que efetiva?>
>
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que um mundo sem a ONU seria mais instável — não apenas no campo dos conflitos armados, mas também em áreas como alimentação, saúde e educação. Ao mesmo tempo, há consenso de que a organização precisa de reformas para se adaptar aos desafios atuais e de que sua atuação é, por definição, limitada pela soberania dos Estados que a compõem.>
A atuação da ONU em crises internacionais tem sido alvo de críticas, sobretudo diante da escalada de conflitos recentes em diferentes regiões do mundo — como a guerra na Ucrânia, a ofensiva de Israel em Gaza e as tensões em países africanos, a exemplo do Sudão e da Somália. Persistem ainda ameaças como o ressurgimento do Estado Islâmico e o fortalecimento de movimentos de extrema direita, que complicam o cenário internacional e ampliam a pressão sobre a organização.>
Segundo Paulo Velasco, professor de política internacional da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a história da ONU ao longo de seus 80 anos mostra que essas dificuldades não são novas. >
Durante 40 anos de Guerra Fria, por exemplo, a organização teve pouca relevância em questões centrais devido à bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética, permanecendo muitas vezes à margem de conflitos como a Guerra do Vietnã. Com o fim da Guerra Fria, acreditava-se que a ONU poderia desempenhar um papel mais protagonista, e os anos 1990 foram marcados por fóruns internacionais importantes para coordenar ações conjuntas nas áreas de meio ambiente — como a Rio-92 — e direitos humanos — como a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos em Viena (1993).>
Mas hoje a capacidade da ONU em resolver conflitos é bastante limitada, e essa limitação, na avaliação de Rafaela Sanches, doutora em Relações Internacionais pela PUC-Minas e professora do UNIBH (Centro Universitário de Belo Horizonte), está diretamente ligada à sua própria estrutura, especialmente ao Conselho de Segurança. >
Hoje, cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — possuem poder de veto, o que dificulta a aprovação de resoluções pelo Conselho.>
"Esse mecanismo permite que qualquer resolução que conflite com os interesses nacionais desses países seja bloqueada. Na questão da Ucrânia, por exemplo, a Rússia veta resoluções que a impactariam diretamente. No conflito entre Israel e Palestina, os Estados Unidos já bloquearam mais de 30 vezes discussões sobre proteção de civis em Gaza e outras violações.">
Matias Spektor, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), acrescenta que essa limitação não é nova. >
"As Nações Unidas são tão relevantes hoje quanto no passado, mas não podemos esperar que façam o que juridicamente não têm como fazer: domar as grandes potências que as controlam", afirma. >
Ele avalia que há dois tipos de crises, e que o poder de influência depende da geografia.>
"Nos conflitos em que não há envolvimento direto de potências do Conselho de Segurança, a ONU costuma desempenhar papel central de mediação, sobretudo em países da África, da Ásia e, no passado, na América Latina. Já quando o embate envolve um desses cinco membros permanentes, a ONU 'fica de mãos amarradas'.">
Como exemplo, Spektor cita a Guerra das Malvinas, na década de 1980, que envolvia o Reino Unido: por se tratar de um conflito diretamente ligado a um membro permanente do Conselho de Segurança, a ONU não conseguiu mediar a disputa nem impor sanções efetivas. Ele compara essa situação às crises atuais em Gaza e na Ucrânia.>
Ainda assim, o professor aponta que o sistema da ONU garante transparência e cria o arcabouço jurídico que possibilita, por exemplo, a abertura de processos contra indivíduos por crimes de guerra ou genocídio, além de fornecer os dados mais confiáveis sobre o que se passa em campo.>
Especialistas em relações internacionais apontam que a ONU é frequentemente vista — às vezes de forma equivocada — como um "super-Estado" capaz de intervir em qualquer crise global. >
Essa expectativa esbarra, no entanto, em um princípio fundamental da própria organização: a soberania dos Estados. Segundo o analista da Uerj, Paulo Velasco, esse princípio está no cerne da Carta da ONU, que determina que nenhum país deve ser alvo de intervenção externa sem consentimento.>
"A organização foi criada como um espaço composto por Estados soberanos, que deveriam agir de forma coordenada em temas de interesse compartilhado. Quando não há esse interesse comum e a posição soberana é divergente, é difícil mobilizar a ONU para uma solução conjunta, especialmente no Conselho de Segurança, onde as decisões têm efeito obrigatório para os membros", explica Velasco.>
Velasco ressalta que, desde sua criação, a ONU não foi pensada para constranger a soberania estatal, mas para conciliá-la com objetivos compartilhados. >
"Intervenções humanitárias e a doutrina da 'responsabilidade de proteger' representam exceções, aplicáveis em crises como a da Líbia em 2011 [quando a ONU autorizou ações militares para proteger civis durante a revolta contra o regime de Muammar Kadhafi], mas nunca em relação a grandes potências.">
Velasco opina que a ONU é, por vezes, mal-interpretada. "Ela não é um super-Estado, não é um governo mundial, não está acima da soberania. Essa necessidade de compatibilização com a soberania dos Estados explica boa parte da inércia que testemunhamos em conflitos atuais.">
Mesmo diante da percepção de paralisia do Conselho de Segurança e de inércia em alguns conflitos, a organização cumpre funções essenciais no cotidiano das pessoas, na avaliação do analista da Uerj, Paulo Velasco. >
Ele observa que a ONU foi concebida para resolver guerras, mas também desempenha um papel fundamental na coordenação de esforços em áreas como desenvolvimento, combate à pobreza e mudanças climáticas.>
"Antes de afirmar que a ONU não serve para nada, basta olharmos para coisas simples. Por exemplo: em qualquer supermercado do mundo, em uma lata de leite em pó, há a recomendação de que, até os seis meses de idade, deve-se privilegiar o aleitamento materno. Isso vem da ONU, aprovado a partir de resoluções da organização.">
"O sistema da ONU é vasto e vai muito além da Assembleia em Nova York, englobando agências como a Unesco (educação, ciência e cultura), a FAO (alimentação e agricultura) e o Unicef (infância e direitos das crianças).">
Segundo Velasco, mesmo nos temas de segurança e conflitos internacionais, é preciso compreender as limitações impostas pelos interesses das grandes potências. "A ONU sempre funcionou dentro dessas restrições, mas, ainda assim, oferece freios diplomáticos importantes e cria arcabouços que evitam a escalada desenfreada de conflitos", explica.>
Rafaela Sanches, doutora e professora de Relações Internacionais, reforça essa visão: a organização também atua como mediadora e coordenadora de esforços internacionais em questões cruciais para a população. >
" Sem a ONU, as ações estatais seriam ainda mais limitadas, por questões financeiras, tecnológicas e de coordenação", aponta.>
A ONU enfrenta uma pressão crescente devido à redução de contribuições de grandes doadores, que afeta diretamente sua capacidade de atuação. Em 2025, vários países europeus reduziram seus repasses. >
A França, por exemplo, anunciou cortes de €700 milhões (cerca de R$ 4,3 bilhões) em sua ajuda oficial ao desenvolvimento — recursos conhecidos como ODA, destinados a financiar projetos de combate à pobreza, saúde, educação e infraestrutura em países em desenvolvimento. O Reino Unido também diminuiu a ODA para 0,3% do PIB a partir de 2027, enquanto Alemanha, Países Baixos e Bélgica também reduziram suas contribuições.>
Nos Estados Unidos, os cortes de recursos foram ainda mais drásticos. Nos primeiros meses de 2025, o presidente Donald Trump, que questiona publicamente a eficácia da ONU, retirou o país de órgãos como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e da agência de assistência a refugiados palestinos (UNRWA), suspendeu centenas de milhões de dólares de financiamento a entidades multilaterais, incluindo o Fundo de População da ONU (UNFPA), e pausou a ajuda externa.>
Segundo o analista da Uerj Paulo Velasco, essas medidas têm efeitos profundos. "Isso é um problema grande, porque os Estados Unidos não são um país qualquer. São fundamentais para o funcionamento dessas organizações. Cortes dessa magnitude impactam programas essenciais do PMA, do Unicef e do OCHA (órgão da ONU que coordena o envio de ajuda humanitária), resultando em redução de serviços, cortes de pessoal e atrasos em respostas humanitárias", avalia.>
Velasco contextualiza que a postura de Trump se insere em uma retórica mais ampla de questionamento do multilateralismo, comum a governos de direita e de ultradireita, que enxergam a ONU e outras instituições internacionais como ameaças à soberania nacional. >
"Essa agenda antiglobalista entende, muitas vezes de maneira equivocada, que esses espaços são próximos a uma agenda de esquerda, por mobilizarem direitos de mulheres, povos indígenas e da comunidade LGBT+. O Trump é o expoente disso: retira os Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos, da OMS e do Acordo de Paris, enfraquecendo o multilateralismo", explica Velasco.>
O analista ressalta que, mesmo diante desses desafios, a ONU continua desempenhando funções essenciais. "O multilateralismo não vive seu melhor momento, mas a organização ainda oferece freios diplomáticos importantes, cria arcabouços para cooperação e garante alguma coordenação global. Sem isso, o mundo seria ainda mais instável", conclui.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta