Baianinho de Mauá em habitat natural: a sinuquinha
Baianinho de Mauá em habitat natural: a sinuquinha
Baianinho de Mauá

"Na sinuquinha, eu sou o melhor do Brasil. Boto medo!"

Faturando cerca de R$ 3 mil por uma exibição simples, Josué Ramalho da Silva, o Baianinho de Mauá, fala da fama nas redes sociais, das tacadas e recorda-se de quando veio ao ES para encarar um rival temido por aqui, mas que acabou batido

Baianinho de Mauá em habitat natural: a sinuquinha
Publicado em 06/01/2020 às 11h02

A cena é clássica: um barzinho com algumas cadeiras e mesinhas de plástico, uma música ao fundo e algumas pessoas jogando umas fichas de sinuca. Esse cenário é quase que parte do cotidiano de muitas cidades do interior do Espírito Santo e do país. O estralo da bola entrando na caçapa chama a atenção das pessoas ao redor da mesa e não é exagero dizer que, no Brasil, ninguém faz isso melhor que o ex-ajudante de pedreiro Josué Ramalho da Silva, ou melhor, o "Baianinho de Mauá".

Fenômeno da sinuquinha, esse baiano de 46 anos roda o país exibindo tacadas perfeitas na mesa de bilhar e encantando quem o vê jogar. As jogadas precisas e sinucas de bico nos adversários rendem ao jogador uma estabilidade financeira que a antiga profissão nem de perto chegou a proporcionar. A divulgação dos vídeos em canais especializados na modalidade o ajudaram a ser conhecido (e temido) na maioria das sinuquinhas do Brasil.

Consolidado e com status de estrela, Baianinho de Mauá atualmente se dá ao luxo de contar com patrocinadores pessoais, tacos estilizados e desenvolvidos por ele próprio, além uma legião de fãs que chegam a pagar para ter a presença ilustre da fera da sinuca em um evento particular – cada exibição parte de um valor de R$ 3 mil, mas é comum aparecerem desafiantes que oferecem grandes quantias para batê-lo no par ou ímpar, ou em outro jogo. O talento para a sinuca é tanto que o mais famoso jogador de sinuca do Brasil, Rui Chapéu, faz questão de enaltecê-lo e reconhecê-lo como o maior expoente atual da sinuquinha do país.

Baianinho de Mauá

Jogador de sinuca

"Hoje recebo cachê para participar do torneio. Cobro cerca de R$ 3 mil para fazer uma apresentação e brincar com os melhores da cidade. Em toda minha vida eu sobrevivi da sinuca, desde de muito novo. Já faz tempo, começou quando eu tinha uns 19 anos, por aí"

Humilde e simples, Baianinho de Mauá atendeu a reportagem de A Gazeta e contou como é ser uma referência na modalidade. Radicado em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, ele fez fama em Mauá, na região metropolitana paulista, onde ganhou o apelido, e de lá se recorda do Espírito Santo. Por conta da proximidade com a Bahia, em muitas viagens, sempre que possível de carro, o Estado era rota ou passagem para Baianinho. Muitas vezes ele parava por aqui para jogar, e ganhar. 

Já jogou aqui no Espírito Santo?

Já fui ao Espírito Santo uma vez para jogar com um camarada. Lembro que ele era conhecido como "Traíra", era um adversário bom, mas já faz um tempo, coisa de 15 anos. Ele havia passado aqui em São Paulo, disse que era um campeão aí no Espírito Santo. Falaram com ele que tinha um cara de São Paulo que dava duas bolas de frente. Aí ele não acreditou, pois, ninguém dava duas bolas para ele na mesa. Eu estava voltando de uma exibição na Bahia e decidimos passar pelo Espírito Santo para encontrar com ele. Fui aí e ganhei dele em todos os jogos possíveis (risos). Já topei com ele em outros campeonatos depois desse dia, mas ele nunca mais quis jogar contra.

E quando começou com sinuca?

Desde criança. Eu era sempre curioso para aprender a jogar sinuca. Eu via os campeões da cidade e ficava admirado. Sou de Paulo Afonso, na Bahia, a cerca de 450 quilômetros de Salvador. As primeiras tacadas eu tinha cerca de oito anos por aí, depois já peguei um ritmo bom. Os caras me levavam até de bicicleta para eu ganhar dos donos de bar.

Como foi a preparação para chegar no estágio atual?

Sempre gostei de jogar sozinho, desde molequinho. Algumas pessoas me achavam meio doido por jogar assim. Eles não sabem como é bom. Você mata a bola que você quer, não precisa esperar a jogada do adversário, e consegue pegar mais ritmo

Quando foi que decidiu sair da Bahia para São Paulo?

Vim da Bahia para Ribeirão Preto. Ainda na Bahia, com uns 15 anos, eu já era campeão da cidade e do interior. Só quem podia jogar de menor era eu, pois jogava bonito e as autoridades dessas cidades gostavam de me ver. Muitas vezes eu jogava ao lado de um quartel e um monte de policial ia me ver. Eles permitiam porque eu não arrumava confusão, sempre fui muito tranquilo e animava o público. Aí depois, com uns 17 anos, comecei a ganhar de jogadores das cidades maiores, como Salvador, Feira de Santana e passei a sair da Bahia. Ganhei em Aracaju, Recife e depois vim para Ribeirão Preto. Lá eu ganhava, mas os prêmios eram baratinhos, era mixaria.

Como surgiu o apelido de Baianinho de Mauá?

Cheguei em Ribeirão e trabalhei como ajudante de pedreiro em uma firma por uns três meses. No primeiro mês, procurei uma sinuquinha para jogar e ganhei em duas horas de jogo dois pagamentos. Aí quando acabou meu contrato de três meses, parei de trabalhar e fiquei só jogando. Foi meu irmão que me convidou para vir morar em São Paulo, mas para trabalhar como motorista, mas não era bem isso (risos). Comecei a ganhar tudo por aqui, aí os campeões da cidade não queriam mais jogar comigo. Foi então que segui para São Paulo. Também tenho família morando lá pertinho, em Mauá (na Região metropolitana de São Paulo). Lá comecei a ganhar do pessoal da cidade. Os caras começaram a perguntar de onde era o tal baianinho que ganhava de todo mundo. Aí respondiam que eu era de Mauá, então ficou Baianinho de Mauá.

Participa de quantos torneios no mês?

Atualmente faço de três a quatro apresentações por final de semana, só jogo geralmente aos sábados e domingos. Até daria para fazer mais exibições, mas é muito cansativo. Só viajo de carro, não gosto muito de avião. Fora que em algumas cidades não têm aeroporto, então tem que descer um pouco longe, às vezes. Prefiro ir de carro e o deslocamento acaba cansando um pouco.

Como são feitos os convites?

O pessoal hoje em dia me convida mais para brincar mesmo e registrar em vídeo um duelo contra o Baianinho de Mauá. Muitas vezes brinco até sem cobrar nada, especialmente com o pessoal mais velho e a garotada que está começando, porque eles gostam de mim.

Lida bem com a fama?

O grande atleta é admirado pelo jogo e também pela humildade. As pessoas me abordam e dizem que sou humilde, simples e dou atenção. Sempre falam isso comigo e penso que ajuda a tornar meu nome famoso. Eu, porém, nunca imaginava que chegaria tão longe por conta da sinuca. Eu sempre tive noção que era bom porque jogava e vencia os melhores jogadores do Brasil, então eles mesmos diziam que eu era bom. Fico feliz porque muitas pessoas não conheciam a sinuquinha e, por conta do meu nome, hoje conhecem e acompanham a modalidade. Eu era muito conhecido apenas nesse ambiente, hoje já me conhecem fora da sinuca. Acho que levo uma boa imagem.

Você treina todo dia?

Para falar a verdade, já treinei muito, especialmente quando mais jovem e jogava só. Hoje eu geralmente faço um aquecimento antes de jogar, pego uma dez fichas e bato sozinho, para ver se está nivelada corretamente. Aí depois jogo.

Baianinho vai deixar na família seguidores na sinuquinha?

Com minha primeira mulher, tive dois filhos. O pessoal até falava para treinar os meninos, mas eu dizia que não. Naquela época, o jogo de sinuca ainda era muito perigoso, especialmente por conta dos lugares que, às vezes, tinha que frequentar. Dava confusão, tinha alguns jogadores meio bravos. Coloquei eles no colégio e falei para estudarem porque seria melhor. Tinha gente que não sabia perder e queria confusão. Depois, a sinuquinha ficou um negócio mais divertido e as pessoas aceitam melhor a derrota.

Como lida com as derrotas?

Quando perco, fico analisando os motivos para entender como foi para em uma próxima vez não deixar falhas no jogo. Muitas vezes na sinuca o adversário surpreende na mesa e te vence. Faz parte.

Já jogou fora do país?

O pessoal já está me olhando com outros olhos e querem me levar para fora para disputar com os campeões, mas deixo claro que o jogo aqui é um e lá é outro. Precisaria treinar esse jogo até para me adaptar à modalidade. Jogo só a sinuquinha, fora eles costumam jogar a "nine balls" (nove bolas). As mesas são maiores, as caçapas mais abertas e teria de dar uma boa treinada. Mas de uma coisa tenho certeza: se eles viessem para cá me encarar na sinuquinha, passariam mal. Na sinuquinha é diferente. No par ou ímpar não seria mole para eles não. Baianinho bota medo.

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