Mais um dia rotineiro se passa em Vitória quando a morte de um rapaz desencadeia uma série de atentados na Avenida Leitão da Silva, que se repetem em outros pontos não muito distantes. O pânico toma conta de muitos, pessoas se trancam em casa, escolas e outros estabelecimentos são fechados, mesmo não estando próximos. Muitas cenas chamativas. Contudo, ao final do dia, o saldo, friamente, não é tão relevante: tudo aquilo provocou muito medo e indignação, mas os danos concretos não foram proporcionalmente tão graves.
O objetivo de tais ações não era nenhum proveito prático para o seus autores, não havia modo de ganhar dinheiro daquela maneira. Só queriam apavorar as pessoas e jogá-las contra as autoridades, fazer com que a população exigisse medidas imediatas e enérgicas. Se entrarmos nessa, estaremos fazendo o jogo dos criminosos.
Vários sites oferecem cópias do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, de Carlos Marighella, aparentemente escrito em 1969. Lá, o leitor aprenderá que devem ser adotadas estratégias de guerrilha, cujo objetivo não é uma vitória direta, mas “desgastar, desmoralizar e distrair as forças inimigas” (leia-se, no nosso caso, a polícia e demais autoridades públicas).
Utilizam-se “grupos de fogo” para atirar e fugir rapidamente, falsas denúncias de bomba e outros atos de terrorismo e guerra psicológica. A estratégia de Marighella era vencer pelo cansaço e, ao mesmo tempo, distrair os governantes enquanto se tentava organizar uma guerrilha rural. Não venceu e foi abatido naquele mesmo ano.
A criminalidade não quer que forças policiais atuem com foco: nos delitos mais graves e nos infratores mais audaciosos e cruéis. Claro que, se possível, devem ser identificados e punidos os envolvidos nesse episódio recente de desordem urbana, mas isso não pode se tornar uma prioridade, como tende a acontecer se a opinião pública cobrar exageradamente uma resposta pontual, em vez de um trabalho mais sistemático, menos espetacular, é verdade, porém mais efetivo.
Parece um contrassenso, como todas as estratégias de segurança, mas não há outra escolha racional: o momento é de depositar confiança nas autoridades, em vez de pressioná-las as apresentar resultados imediatos, mas de pouca influência prática no contexto geral. Se dermos àquele incidente uma importância que ele não merece, estaremos, inadvertidamente, contribuindo para que os criminosos alcancem os seus verdadeiros objetivos: desviar as polícias de seus planos de longo prazo.